terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Contrapartida nunca cumprida! Reportagem Especial.


CONTRAPARTIDA
A lei esquecida e o prejuízo milionário para os cofres de Balneário Camboriú

Passarela deveria ter sido construída há quase uma década pelo grupo Tedesco. Mas é a prefeitura que está prestes a gastar R$ 22,9 milhões pela obra



Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Flávio Tin

A mesma lei que concedeu ao setor privado o direito de explorar área nobre e pública de Balneário Camboriú determinou que as empresas fizessem algo em troca. Como recebeu do município a autorização para implantar o complexo turístico “Costão de Camboriú Resort & Marina”, o grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos ficou obrigado a construir uma passarela entre os bairros da Barra e Barra Sul. A lei foi assinada pelo então prefeito Leonel Pavan (PSDB) há mais de 10 anos. Passado esse tempo, os moradores continuam atravessando o rio Camboriú em uma barca. A obra nunca saiu do papel. Finalmente, está agendada para esta semana a assinatura da ordem de serviço. Mas não é o grupo Tedesco que dá partida à construção – mesmo que tardia – da ponte, é a administração municipal. E o projeto está orçado em R$ 22,9 milhões. Tudo à custa dos cofres públicos.
Em 18 de dezembro de 2001, quando Balneário Camboriú era administrada por Pavan, foi assinada a lei depois que o projeto já havia seguido todos os trâmites: desde a análise e aprovação na câmara de Vereadores até a sanção na prefeitura. O texto do projeto que autoriza a implantação do complexo turístico passou pelo aval de muitas autoridades da cidade. Entretanto, parece que não foi o suficiente para que ao menos uma delas memorizasse o conteúdo, fiscalizasse os envolvidos e garantisse o cumprimento do acordo, firmado através da lei 2102/2001.
Duas empresas receberam o direito de explorar a região que hoje atrai tantos turistas em Balneário. A Barra Sul Participações Empresariais e o Grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos ergueram – conforme queriam – o complexo turístico. Quem já passou pela região sul do balneário certamente percebeu, por exemplo, os barcos na Marina Tedesco. Sobre eles, deveria estar uma passarela. Só que nunca foi construída. Na mesma lei da concessão, assinada no fim de 2001, fica clara a obrigação das empresas: “em contrapartida à aprovação do projeto, ficam as empresas responsáveis pela parceria obrigadas a edificar uma passarela para pedestres e ciclistas, sobre o rio Camboriú, ligando os bairros da Barra ao Barra Sul”.
E o texto da lei não deixa margens para interpretações. Além de ressaltar a contrapartida, estipula prazo para a realização da obra e multa para o caso das empresas extrapolarem o período determinado. O grupo Tedesco deveria finalizar a passarela em até 30 meses após a publicação da lei, portanto, o prazo esgotava em 18 de junho de 2004. A lei também deixa claro que não seria permitida a prorrogação e que deveria ser cobrada multa diária pelo município. Nem a ponte foi construída, nem a penalidade aplicada. Mesmo assim, em outubro de 2005 o novo prefeito de Balneário, Rubens Spernau (PSDB), assinou um decreto declarando de interesse público e social o complexo turístico “Costão de Camboriú Resort & Marina”. A finalidade do documento foi justamente selar a lei 2102/2001 para que as empresas conseguissem o licenciamento para a construção às margens do rio Camboriú.

O esquema das empresas:

Grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos S/A
Por ser uma sociedade anônima, não há como precisar quem são os sócios do grupo. Os beneficiários ficam – como sugere o nome – no anonimato.

Barra Sul Participações Empresariais Ltda
Extinta em 10 de abril de 2006.
Sócios:
- Marco Antônio Tedesco, com R$ 300
- Malda Empreendimentos e Participações Ltda, com R$ 19.440.250
          Sócios:
          - Marco Antônio Tedesco, com R$ 15.252.040
          - Alda Regina Maffessoni Tedesco, com R$ 4.396.400
          - Marcelo Maffessoni Tedesco, com R$ 1.289.490
          - Cristiane Maffessoni Tedesco, com R$ 1.289.490


“Acho que eles construíram outra coisa em contrapartida”

No decreto, Rubens Spernau justificou as razões pela qual o grupo Tedesco e afins mereciam ser considerados de interesse público. Destacou a importância da marina para a melhoria do transporte marítimo, pontuou que o complexo colocaria Balneário Camboriú na rota internacional de navegadores ao oferecer 600 vagas para embarcações e ressaltou que, além de incrementar o turismo, geraria mil empregos diretos na cidade. E, com o fascínio, assinou. No entanto, deixou escapar um detalhe: a contrapartida.
Passados mais de seis anos, Spernau diz não lembrar ao certo o motivo da obra não ter saído do papel e a razão da prefeitura não ter cobrado isso das empresas responsáveis pelo complexo turístico. “Na verdade, lembro que chegaram a fazer esse projeto. Não estou sendo vago, mas é que realmente não me recordo o que aconteceu, por que não fizeram a passarela. Acho que eles construíram outra coisa em contrapartida, mas realmente não sei ao certo o que foi”, comenta o ex-prefeito, hoje afastado da vida pública para se dedicar exclusivamente às atividades no setor privado.
Por fim, Spernau dá uma sugestão: por que não perguntar ao grupo Tedesco o motivo da passarela não ter sido construída até hoje? Boa ideia! No entanto, o departamento de Marketing da marina pediu que a reportagem do DIARINHO encaminhasse, via e-mail, as perguntas para que alguém da diretoria respondesse. A mensagem eletrônica foi enviada, novas ligações telefônicas foram feitas, e ninguém da diretoria se pronunciou a respeito.
Ministério Público vai analisar
A reportagem procurou a promotoria de Justiça de Balneário Camboriú para expor o caso. O representante do Ministério Público pediu um prazo antes de se pronunciar. Explicou que precisava conferir se já não havia alguma denúncia semelhante tramitando pelas gavetas do órgão estadual para, aí sim, se pronunciar a respeito e apontar quais as medidas serão exigidas com relação às empresas que descumpriram a lei e, quem sabe, aos que se omitiram na fiscalização do cumprimento legal.


Diarista atravessa o rio Camboriú seis vezes por semana para trabalhar



Desde que veio morar em Balneário Camboriú, há um ano, o percurso de Rosimari Oliveira da Silva se repete. A diarista de 36 anos atravessa, ao menos seis vezes por semana, o rio Camboriú. Ela é uma dentre os tantos moradores do bairro da Barra que dependem da balsa para fazer a travessia. Sem saber o que diz uma lei municipal – até então escondida e bem engavetada, a 2102/2001 – Rosimari é uma vítima desse conflito entre os interesses público e privado. Faça chuva ou faça sol, ela precisa cruzar o rio dentro no barco oferecido pela prefeitura. E sabe o quanto uma passarela coberta aliviaria a trabalhosa rotina dos moradores da comunidade.
“Como preciso trabalhar, atravesso. Mas tem vezes que é bem complicado. Dia de chuva, por exemplo. Estão falando que vão construir uma passarela fechada, se tivesse há mais tempo seria bem melhor para nós”, conta a diarista, enquanto cruza o rio na balsa em miniatura que contrasta com os iates espalhados ao longo do rio, na Marina Tedesco. “Tem vezes que esse barco estraga, aí temos que ficar esperando por muito tempo, porque eles substituem por um barquinho menor com capacidade para cinco pessoas”, lembra Rosimari, desejando que a obra da ponte para pedestres e ciclistas fique pronta o mais rápido possível. E torce para que, enfim, os bairros da Barra e Barra Sul fiquem conectados, conforme os moradores dessas comunidades dizem já ter ouvido promessas em campanhas eleitorais – das mais antigas às recentes.


Sem saber, prefeito começa a obra que deveria ter sido feita pelo grupo Tedesco

 (Projeto da passarela - Divulgação)

Esqueçam só por um instante que as empresas responsáveis pelo complexo turístico na Barra Sul deveriam (por obrigação!), conforme manda a lei, construir a passarela sobre a Marina Tedesco. Está agendada para a próxima quarta-feira, às 19h, a cerimônia para a assinatura da ordem de serviço das obras da ponte sobre o rio Camboriú. Quem toma a balsa todo o dia deve ter, inclusive, percebido que máquinas da prefeitura já deram início aos preparativos da obra, enquanto a empresa que venceu a licitação não começa o trabalho.
A passarela vem como promessa de ser um cartão-postal pra Balneário, que já é um município consagrado no quesito turismo. A obra deve ficar pronta em 10 meses e o custo estimado é de R$ 22,9 milhões – pagos pelos cofres públicos. “Um sonho de 47 anos que vai se tornar realidade, aliando a funcionalidade, pois permitirá a travessia da Barra Sul até a Barra de maneira segura e gratuita, e o componente turístico. Muito mais do que uma ponte, uma travessia, a passarela estaiada será um novo cartão-postal e fará parte de um complexo turístico naquela região da cidade”, discursa o prefeito Edson Periquito (PMDB).
De acordo com o presidente da companhia de Desenvolvimento e Urbanização de Balneário Camboriú (Compur), Niênio Gontijo, as máquinas da prefeitura param de trabalhar na margem do rio Camboriú amanhã. E na quinta-feira, a empresa que venceu a licitação dá início à obra da passarela. Além disso, ele destaca que o projeto foi concebido tendo total preocupação com os barcos – inclusive os da Marina Tedesco. “Extremamente moderno, é dotado de detalhes técnicos especiais, como o fato de ser suspenso por estaios, possibilitando a navegabilidade no rio sem prejuízo algum”, destaca.
A ponte colocará fim aos tempos da balsa. As pessoas poderão cruzar o rio Camboriú quando quiserem e sem pagar nada. Atualmente, o barco limita a travessia dos moradores ao horário das 6h à 1h. A passarela ficará aberta 24 horas. O projeto prevê estrutura de concreto, aço e vidro, a uma altura de 25 metros acima do nível do rio, duas torres de acesso nas extremidades, com dois elevadores de cada lado e espaço para a instalação de dois restaurantes, um em cada ponta da passarela. No total, são 196 metros de comprimento e um vão central livre de 116 metros.

“Estou empolgado com a obra. E ela vai sair de qualquer jeito!”

Só no vislumbre do projeto, a passarela sobre o rio Camboriú já se tornou a menina dos olhos do atual prefeito. Tanto é que a previsão de conclusão da obra é para o mês de dezembro. Ele nem fez questão de atropelar algumas etapas ou detalhes do planejamento para acelerar o processo e inaugurar antes da disputa municipal de outubro, em que busca a reeleição. Preferiu esperar, e deixar do jeito que sempre sonhou.
Periquito ficou espantado ao atender a reportagem do DIARINHO. Garante que não fazia ideia da previsão de uma contrapartida do grupo Tedesco, prevista em lei, e justamente direcionada a um dos principais projetos da administração deste ano. “Desconheço essa situação. Vou pedir para o jurídico da prefeitura analisar isto e ver quais medidas devemos tomar”, salienta. O prefeito sequer cogita a possibilidade de interromper o andamento da obra – às vésperas de ela realmente começar – por causa deste fato novo. Ao contrário, quer ver uma forma dos Tedesco pagarem pela passarela sem causar atrasos no cronograma dele. “Se está na lei, tem que ser cumprido. Agora vamos discutir como é que eles vão nos pagar. Estou empolgado com a obra. E ela vai sair de qualquer jeito!”, finaliza, transbordando confiança. Para Periquito, dezembro será o mês de cortar a fita inaugural da passarela.


Reportagem publicada no caderno Especial do DIARINHO,
em 13 de fevereiro de 2012 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Primeira reportagem de Abu Dhabi - parada da Volvo Ocean Race


Ver para crer... Depois escrever!

 


A beleza de Abu Dhabi é tanta que, por fotos, parece mentira que um deserto tenha se transformado nesta potência econômica mundial. A capital dos Emirados Árabes é o ponto de parada da Volvo Ocean Race da vez. E o DIARINHO está lá, do outro lado do mundo, conferindo de perto a grandeza do evento que vai chegar em Itajaí em abril.

“A etapa da Nova Zelândia pra Itajaí, realmente , é o ápice da volta ao mundo”, garante Joca Signorini, único brasileiro a competir nesta edição da Volvo Ocean Race

 

Por Cláudio Eduardo


 Numa mesma vila, a Volvo Ocean Race reúne pessoas das mais diferentes culturas, aparências e idiomas. Até o próximo sábado, a parada é Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes. Nessa torre de babel, depois de uns cumprimentos forçados num árabe aprendido em cartilha de hotel, umas enrolações num inglês enferrujado e umas conversas no já famoso jeitinho brasileiro de achar que domina o espanhol, enfim encontro um tupiniquim. Quando chego à vila, depois de passar por umas apresentações de homens e meninos vestidos de branco jogando lanças – ou algum objeto pontiagudo similar – percebo que o barco do Telefónica atraca no mar cor de esmeralda da capital árabe. Sigo para lá na tentativa de uma entrevista com o único representante do Brasil competindo na VOR: João Signorini, o Joca.
Para quem não conhece muito desse esporte e ainda não ouviu falar deste nome, Joca tem histórico nas regatas mundo afora. Para compor o time da Telefónica – equipe espanhola que está liderando a VOR – abriu mão de disputar os jogos olímpicos de Londres. No entanto, o currículo dele registra uma passagem pela disputa olímpica, apesar da medalha não ter vindo. Em Atenas, no ano de 2004, Joca foi o décimo colocado na classe Finn. Mas foi realmente na competição de longa distância que Joca consolidou seu nome no esporte marítimo. A convite do campeão olímpico Torben Grael, encarou o desafio de cruzar os mares na VOR. Primeiro no Brasil 1, depois no Ericsson, no qual foi sagrado campeão, na disputa que começou em 2008 e terminou no ano seguinte.


Entrevista com Joca Signorini, representante do Brasil na VOR



DIARINHO – O título de bicampeão está mais próximo? Tem chance da Telefónica perder esta liderança da VOR que parece tão consolidada?
Joca Signorini – Falta muito ainda. A regata é muito grande. A gente teve um bom começo, mas falta muito – estamos na segunda etapa de nove, sendo que ainda tem as regatas locais em todos os portos. A gente fez um trabalho muito bom de preparação e eu acho que temos velejado bem, temos dado sorte, porque as coisas têm dado certo pro nosso lado. Então continuamos confiantes no bom resultado. Mas outros barcos também estão velejando muito bem, o Camper tem sempre estado na nossa cola. Tem sido bem difícil. Sempre que conseguimos um bom resultado eles ficam em segundo. Por isso é muito importante manter essa constância, trabalhando duro no desenvolvimento do barco pra no final ver o que vai dar.

DIARINHO – E hoje qual o trecho mais difícil que vocês têm pela frente?
Joca – Cada etapa tem a sua característica, sua dificuldade e seu momento de glória. Esta próxima etapa é um pouco complicada. Toda essa situação por causa da pirataria acabou dividindo a etapa e a gente já começa aqui em Abu Dhabi disputando parte dos pontos, 20% dos pontos vão ser nesse sprint inicial. E o importante agora é o que já temos como objetivo, que é na regata local, na sexta-feira, se manter entre os três primeiros nesse sprint, porque sabemos que quando a regata tá curta, tudo pode acontecer. Todas as equipes têm bons tripulantes, bons barcos e eles podem conseguir bons resultados. E a partir daí continua complicado. Não vai ser um trecho muito fácil de velejar, mas as condições devem ser favoráveis ao nosso barco. Acreditamos muito no contra-vento. A gente gosta de ir nessa condição em relação aos outros barcos e nessa próxima etapa temos bastante contra-vento.

DIARINHO – Numa prova como a VOR, qual a maior dificuldade: a preparação física ou as condições climáticas?
Joca – Acho que o conjunto de tudo. É uma regata muito dura, muito longa e você tem que estar bem preparado psicologicamente, fisicamente e o barco também tem que estar bem preparado, porque um pequeno detalhe muda tudo. A gente viu, por exemplo, o Abu Dhabi venceu a regata local em Alicante, na Espanha, e depois, logo na primeira noite, quebrou o mastro. O pessoal mesmo do Abu Dhabi falou que se vai de herói à nada em muito pouco tempo. Acho que a gente tenta manter sempre o ritmo e o desenvolvimento do barco, além de coisas que tentamos fazer pra manter o desempenho e a segurança no barco. Quanto a isso tem que se ir, pouco a pouco, fazendo o dever de casa e quem sabe conseguimos a vitória.

DIARINHO – E a expectativa quanto à parada no Brasil, algum recado para o povo de Itajaí?
Joca – Pessoal de Itajaí, muito obrigado por toda a torcida, todo o apoio. Nós do Telefónica estamos bastante ansiosos pela chegada. A etapa da Nova Zelândia pra Itajaí, realmente é o ápice da volta ao mundo, já que a gente cruza o temido e tão falado cabo Horn. E chegar em Itajaí vai ser uma emoção muito grande pra todo mundo, e especialmente pra mim, que sou brasileiro. Itajaí vai viver alguns dias bastante intensos. Na Volvo Ocean Race os barcos realmente são impressionantes. Dificilmente você encontra barcos como esses em marinas de qualquer lugar do mundo e ter a oportunidade de trazer a regata, os barcos e os velejadores pro Brasil é realmente incrível. Estou bastante satisfeito da regata continuar fazendo parte do calendário brasileiro. E a gente espera bastante festa em Itajaí, porque a recepção é sempre bem calorosa. Com certeza o pessoal do Telefónica espera que a torcida brasileira esteja com a gente.


Líder da Camper promete ultrapassar Telefónica até a etapa de Itajaí

 

 

 

Neil Cox assumiu realmente a bandeira de principal time pra derrubar a equipe espanhola

Joca Signorini reconheceu a Camper como principal adversária do Telefónica na luta pelo título da Volvo Ocean Race. E um dos líderes da equipe que só fica em terra, Neil Cox, não se fez de rogado e assumiu realmente a bandeira de principal time pra derrubar a equipe espanhola que tem levado a melhor na maioria das etapas da regata. Mesmo que os membros das duas equipes não confirmassem, a tabela já demonstra que Telefónica e Camper já travam, mesmo que adiantado, uma batalha pelo campeonato. Hoje os espanhóis (onde o único brasileiro da prova compete) lideram a VOR com 66 pontos. Mas a Camper vem logo atrás, com 58 pontos.
E ontem a reportagem do DIARINHO teve acesso ao barco da Nova Zelândia. Primeiramente deu pra ter melhor noção de como é sofrido o trabalho dos atletas marítimos nessa competição de trajeto longo e complicado. Dentro do barco – fora os solavancos que ficam por conta do oceano – os velejadores se ajeitam num espaço que, além de muito quente (ao menos enquanto está atracado), é extremamente úmido.
Durante a apresentação do barco, Neil Cox não revelou muita coisa quanto à estratégia da equipe, mas adiantou o objetivo: chegar ao Brasil já como líder da VOR. “A nossa estratégia muda de acordo com as condições climáticas, chuva e vento”, comenta com discrição um dos líderes da Camper. Questionado sobre a possibilidade do time pular para o topo da tabela, nem pensou muito antes de responder. “Claro que sim, não é só possível como vamos ultrapassar o Telefónica. Em Itajaí já devemos ter passado eles”, afirma, numa declaração de guerra ao barco espanhol – por vezes brasileiro.



Reportagem publicada no DIARINHO na edição de 12 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reportagem Especial de Abu Dhabi



Uma ilha de progresso rodeada por um mar de velhos costumes

A geografia não é a maior distância entre Itajaí e Abu Dhabi. Estar no calendário de paradas da Volvo Ocean Race é um dos poucos pontos em comum entre as duas cidades. Reportagem do DIARINHO desbrava a capital dos Emirados Árabes e conta o que viu e sentiu do outro lado do mapa



Texto e fotos: Cláudio Eduardo

Abu Dhabi é um emaranhado de cartões-postais. Para cada canto que se olha, há algo surpreendentemente lindo – ao menos no prisma de um ocidental. Na capital dos Emirados Árabes, as construções antigas convivem em harmonia com os gigantescos prédios de arquitetura arrojada. Tudo parece ser projetado numa precisão atípica para alguém acostumado com os cenários brasileiros onde hoje uma rua vai para um lado e no dia seguinte, sem explicações, muda de sentido. Em Abu Dhabi não há remendos. Em alguns locais não é exagero afirmar: é uma maquete futurista em tamanho real.
É a primeira vez que Abu Dhabi recebe uma etapa da Volvo Ocean Race. Contudo, a regata de volta ao mundo não é o único investimento da cidade em eventos esportivos de alto nível. Muita gente não se recorda, mas já deve ter ouvido falar o nome da capital árabe. Em 2009, por exemplo, foi palco do último grande prêmio de Fórmula 1, onde o alemão Sebastian Vettel se sagrou o mais jovem campeão mundial na história da prova. Também foi em Abu Dhabi que o Internacional decepcionou os torcedores colorados ao ser eliminado do campeonato mundial de Clubes da Fifa. A derrota por dois a zero foi para o Mazembe, um desconhecido time do Congo.
E não é só no mundo dos esportes que Abu Dhabi luta para atrair os holofotes. A cidade que é impulsionada pelo mar de dinheiro do petróleo busca se tornar um centro para turistas de todos os lugares do planeta. O cenário é realmente perfeito. Enche os olhos. E a infraestrutura corresponde. Dificilmente um turista – mesmo que não fale o inglês, que substitui o idioma árabe na hora da conversa com pessoas de outros países – passa dificuldades para se locomover pela cidade.
Com dinheiro e boa vontade, até apelar para coisas artificiais é válido. Apesar do clima desértico, Abu Dhabi tenta se tornar a localidade mais verde do Golfo Pérsico. E quem vê confirma: estão conseguindo transformar o visual arenoso em arborizado. Exportam plantas, flores e gramados de tudo quanto é país e para que o verde não morra com o calor forte – que geralmente só alivia um mês a cada ano – eles usam da tecnologia. Um complexo sistema puxa a água do mar e faz o processo de dessalinização antes de usá-la para regar as plantas.

TRADIÇÃO
Mulheres se cobrem da cabeça aos pés para poder sair de casa



Antes de embarcar para Abu Dhabi, recebo instruções: nada de encarar as mulheres, fazer comentários próximo a elas ou sequer fotografá-las. São intocáveis. Esse alerta se tornou um receio ainda maior quando chego à cidade e percebo que outros homens que não são nativos têm o mesmo temor. Não quero deixar brecha para problemas numa terra em que as tradições se sobrepõem a qualquer preceito jurídico aos quais nós ocidentais estamos acostumados.
Elas parecem fantasmas. Desviam olhares, abaixam a cabeça e parecem infelizes pela aparente submissão. Aos poucos, percebo que meu conceito está errado. Numa conversa com um taxista do Paquistão, pergunto sobre as mulheres dos árabes. Ele ri quando percebe resquícios de compaixão no meu olhar. Garante que elas quem mandam em casa. Depois disso paro para observar e percebo que, realmente, as mulheres parecem satisfeitas.
Pelo principal shopping de Abu Dhabi, o Marina Mall, circulam cheias de orgulho, entrando de loja em loja para esbanjar o poder financeiro. Pelas ruas, vira e mexe as burcas pretas se destacam nos cenários estupidamente claros devido às condições climáticas da região. Não satisfeitas, há mulheres que radicalizam. Escondem até o rosto atrás do pano escuro, deixando de fora apenas os olhos. Outras ostentam. Andam todas faceiras com uma burca tão negra quanto a das demais, só que cheia de pedras bordadas. Em Abu Dhabi parece lei: nativos precisam exibir suas riquezas.

PROCURA DA FELICIDADE
Brasileiros vão para Abu Dhabi em busca de mais qualidade de vida



Conheço Solange por acaso. No meio de uma multidão de turistas, ela identifica minha nacionalidade. E a conversa começa. Fui conhecer um dos principais pontos turísticos de Abu Dhabi, a majestosa “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo. Despreparado, chego de bermuda. Preciso colocar um roupão branco para poder entrar no prédio. Como traços europeus passam longe da minha aparência, acho que vou ser facilmente confundido com um árabe. O disfarce não durou muito tempo.
“É brasileiro?”, diz a voz, num carregado sotaque carioca, ecoando no interior da mesquita. Me viro e vejo uma jovem senhora vestindo a burca preta conforme os seguranças obrigam as mulheres que queiram entrar na igreja muçulmana. Começa o bate-papo. “Que bom ouvir o nosso bom português em terras estrangeiras”, penso.
Solange Barros tem 57 anos. Desde 2006 largou o Rio de Janeiro para morar nos Emirados Árabes. Ela sentiu o impacto da mudança, mas não se arrependeu. “Meu marido era piloto da Varig. E viemos para cá porque ele começou a trabalhar na Emirates Airlines [uma das maiores empresas aéreas do mundo]. Só aqui conseguimos a tão sonhada estabilidade financeira”, conta. Enquanto o marido sobrevoa, a carioca ocupa os dias como guia turística. E era justamente isso que ela estava fazendo na mesquita: apresentando o lugar a um casal de visitantes. Mesmo assim, não se fez de rogada para conceder uma “conversa-entrevista”.
Só um dos dois filhos de Solange veio para Abu Dhabi, o caçula. O outro, já com 35 anos, continua em terras brasileiras. Ela se diz ainda mais tranquila por trazer o filho de 16 anos para morar numa cidade completamente oposta ao Rio de Janeiro. “O maior impacto que senti desde que cheguei aqui foi a questão da segurança, que é máxima em qualquer horário. Você sabe que pode deixar um objeto destrancado, andar tranquilamente com uma joia cara ou até mesmo deixar o vidro do carro aberto. Aqui ninguém vai te roubar. Agora experimenta fazer isso no Brasil”, provoca.
A guia turística garante que as condições de vida estão melhores para ela e para a família. “O salário não é dos maiores, mas o pacote vale a pena. Você tem todo tipo de assistência. Além de mim, existem pelo menos mais 100 famílias de pilotos brasileiros vivendo aqui”, comenta Solange. Ela diz que há demanda: são 17 vôos diários com destino aos Emirados Árabes e na semana que vem a Emirates lança mais uma conexão, justamente para o Rio de Janeiro. E Solange vai estar entre as primeiras a embarcar. Vem para o Brasil matar a saudade dos que ficaram para trás.
Na mesquita, ela usa a burca preta, mas não por ter se rendido às tradições locais. Apenas por ser obrigatório para as visitantes. Apesar de parecer óbvio a rejeição às mulheres estrangeiras que se instalam no território das árabes, Solange nunca se sentiu desrespeitada. “Nós somos a maioria. Os nativos são minoria, representam apenas 11% da população. Bem menos que os indianos, que são 40%”, exemplifica.

Foto: Gabriela Bepler

Mão de obra estrangeira
Essa desproporcionalidade na população destacada por Solange é facilmente visível. Chama a atenção de quem passa por Abu Dhabi: nativos não trabalham na prestação de serviços. Enquanto os árabes esbanjam os bens adquiridos com o petróleo e transbordam a empáfia típica de milionários emergentes, imigrantes fazem o trabalho braçal.
De todas as vezes que entrei num táxi, nunca o motorista era nativo – um era do Paquistão, deixou a família lá e veio tentar juntar dinheiro, mas ainda não conseguiu trazer a mulher e filhos para Abu Dhabi; outro era de Bangladesh, e pouco descubro, pois ele é dos que prefere dirigir calado; um terceiro, de Filipinas, com inglês não tão treinado ao ponto de me contar o motivo que o trouxe para a capital dos Emirados. E o exemplo dos táxis vale para garçons, vendedores, operários... No trabalho percebe-se muitos orientais de olhos puxados e praticamente nenhum de burca. As nativas parecem ter apenas duas tarefas: se dedicarem aos maridos e se exibirem da forma menos provável, escondidas atrás de metros de pano.

CENSURA
Segurança proíbe fotografia de mulher sem burca no lado de fora da mesquita

Foto: Diego Gomes

Mulheres não precisam estar dentro do templo islã para serem obrigadas a seguir as tradições. Mesmo do lado de fora, não pode fotografá-las caso estejam vestindo “roupas ocidentais”. A mesquita só pode dividir o mesmo espaço na foto com uma mulher caso ela esteja com a veste negra escondendo até o último fiapo de cabelo.
E eu sabia disso. Confesso. Mesmo assim, atendo ao pedido de uma jornalista que visitava a “Sheikh Zayed Mosque”. Ela senta na beira de uma espécie de piscina, na frente da mesquita, e me pede para bater uma foto. Minha missão é ser discreto. Não posso deixar que os seguranças (que não são poucos!) percebam que estava burlando a regra. Ninguém parecia estar me olhando. Ela sorri, eu clico. Imagem capturada. Finjo que nada aconteceu, mas não vou muito longe.
Mal dei três passos e ouço, num inglês carregado, os gritos de “por favor, senhor!”. Paro e ouço o que o segurança, que vem apressado em minha direção, tem a falar. “Posso ver a última foto?”, me questiona fazendo cara de poucos amigos. Não me deixa saída. Mostro a última imagem da câmera e lá está o registro de uma mulher, de calça jeans e camiseta, posando sorridente na frente da mesquita. Prevejo o problema, mas não dimensiono as conseqüências.
Olhando para a foto, o árabe – tão franzino quanto eu – ordena que eu a apague. Nem penso em contrariá-lo. Não queria saber qual seria a outra opção, caso eu ignorasse a ordem. Apago. Ele acompanha cada botão que eu aperto e olha pelo monitor da câmera até a foto se dissipar. E me dá as costas. Depois percebo que, mesmo de longe, o mesmo segurança vigia cada passo meu ao redor da mesquita. Até que vou embora. Continuo meu passeio turístico e as belezas da cidade me fazem esquecer da situação constrangedora.


Reportagem publicada no jornal DIARINHO em 16 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE ABU DHABI


Os primeiros dias de um repórter na fascinante capital dos Emirados Árabes

Por Cláudio Eduardo

Foto na "Sheikh Zayed Mosque", em Abu Dhabi. Crédito: Gabriela Bepler

 
O cansaço da viagem longa e da troca de fuso ainda não foi superado. Faz quatro dias que saí de Itajaí – sendo que dois ficaram enterrados entre espera em aeroporto e vôos que pareciam eternos. Perco o maior tempo no trajeto entre Florianópolis e Doha, capital do Qatar, cruzando o continente africano depois de deixar para trás o oceano Atlântico e, por fim, sobrevoando o Oriente Médio após a travessia aérea sobre o lendário Mar Vermelho.
O relógio enlouquece. Eu não. Depois de instalado em Abu Dhabi, começa a peregrinação. O sono não vem, a fome se foi, mas nada disso aplaca a vontade de conhecer cada canto possível da capital dos Emirados Árabes. No primeiro dia em que estou na cidade, parto para a vila da regata Volvo Ocean Race. No caminho, um mundaréu de prédios inacreditavelmente arrojados. Mas as edificações mais antigas permanecem preservadas entre as novas construções. Não há como recusar uma foto. Só olhar é pouco. Tudo vira cartão-postal nos meus olhos, então preciso registrar.
E com essa curiosidade típica de qualquer jornalista, somado ao espírito de turista que me permito nessa viagem (tão longa!), desbravo os principais pontos turísticos de Abu Dhabi. Dentre as tantas construções, a “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo e a mais importante da capital árabe – enche meus olhos... E a memória da minha câmera. Registro cada passo. E toda essa experiência está sendo cautelosamente armazenada para servir de material para a reportagem especial que sai na segunda-feira, nas páginas do DIARINHO, agora mais internacionais do que nunca.

(Texto publicado no jornal DIARINHO em 13/01/2012)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz (e desafiador) ano novo!


Queria escrever uma mensagem linda para ressaltar o quão maravilhoso e desafiador foi meu 2011. Mas foram tantos milhares de caracteres digitados ao longo deste ano que o teclado parece me implorar: “chega, Cláudio!”. E eu obedeço.

2011 se abriu para mim acompanhado de um desafio – ser editor de Política no Diarinho. Precisei superar minha inexperiência e a falta de conhecimento desta área, onde não sabia nem o nome do presidente da câmara, menos ainda das lideranças locais. Juro que lutei a cada dia para que minhas dificuldades não pudessem ser percebidas pelos leitores.
E encerro este ano com um super sorriso. Um sorriso de “bem-vindo, 2012!” – mais um ano que já nasce (para mim) aliado a um monte de desafios e, novamente, vou lutar para encará-los a cada dia. E sigo... Para dias cada vez melhores (e mais desafiadores)! Que todos tenham um ano tão prazeroso quanto será o meu. E vamos felizes ao encontro das novidades.

FELIZ ANO NOVO!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Reportagem sobre os 32 anos da Novembrada


30 DE NOVEMBRO DE 1979

O dia em que SC encarou a ditadura militar

 

32 anos depois, personagens da Novembrada revivem a data histórica

nas páginas do DIARINHO

 

 

Texto: Cláudio Eduardo 

Reportagem publicada no Jornal DIARINHO, em 30/11/2011

 


A ditadura militar calava. Ao final da década de 1970, ainda sob a fama dos “Anos de Chumbo”, a possibilidade de um presidente ser rechaçado em público beirava o insano. Com a certeza de receber sorrisos, mesmo que descontentes, João Figueiredo veio para Santa Catarina. O roteiro do general que comandava o país incluía visitas e homenagens. Ao lado do governador Jorge Bornhausen, o presidente começaria a saga por Florianópolis na busca por aplausos. Entretanto, não foi o que recebeu naquele 30 de novembro de 1979.
O manifesto organizado por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) se somou ao descontentamento do povo. Todos estavam fartos, cansados da liberdade de expressão estrangulada e dos preços que aumentavam descontroladamente. A Novembrada libertou o grito de “basta” entalado na garganta dos milhões de brasileiros descontentes com o regime militar.

Jorge Bornhausen e Esperidião Amin (dois políticos da Arena, na época) recepcionaram o presi­dente. Há quem atribua à dupla a tentativa de maquiar o clima hos­til que predominava na cidade. No entanto, Amin desmente esta tese. Ao contrário, garante que alertou para a possibilidade de manifesta­ções. “Em função das circunstân­cias sociais, econômicas – inflação e carestia –, previ que iria aconte­cer algum protesto, julgando que o clima festivo que se pretendia dar à visita estava dissociado da realida­de”, comenta.
Em 1979, Amin era deputado federal e secretário estadual dos Transportes e Obras. Ele diz que, na noite de véspera, durante um jantar com Marco Antônio Kram­mer, secretário de imprensa da Presidência da República, alertou sobre a possibilidade do manifes­to e que jornalistas presentes no evento foram testemunhas disso. O alerta de Amin pode ter diminuído o fator surpresa do ato. Mas a par­ticipação maciça dos jovens deve ter deixado descrente parte do staff do governo. “As reações foram di­versas. Prefiro não comentar a dos outros. A minha foi de espanto pe­las dimensões e prolongamentos do episódio”, recorda.
Político experiente, Amin – que hoje é deputado federal pelo PP – já enxerga o evento de forma mais amadurecida. “Minhas impressões sobre a Novembrada têm evoluído ao longo do tempo. Na época, com 31 anos de idade, mesmo já tendo experiência política e administra­tiva, o episódio tinha um cunho romântico. Hoje percebo que fez parte do ciclo histórico que vive­mos”, salienta. Além disso, Amin assegura que não houve qualquer precedente no país. “Foi o primeiro grande protesto popular que o Bra­sil daqueles anos testemunhou. No Brasil inteiro espalharam-se avisos do tipo ‘catarina que é macho!’, inclusive em parachoques de cami­nhão”, lembra o deputado.
Em entrevista a uma emissora de televisão local logo após o protesto, Amin afirmou que o ato, além, de previsível, era legítimo. Ele conta que, pela posição que tinha no go­verno, a fala caiu feito uma bomba. “Tenho muito orgulho de ter man­tido minha postura. Coloquei o cargo de secretário à disposição do governador e fui indicado para ser testemunha de defesa dos estudantes que foram detidos, na época. Meu depoimento na Auditoria Militar, em Curiti­ba, os ajudou decisivamente, especialmente porque contex­tualizei o protesto referindo a situação política, econômica e social a uma decisão autoritá­ria do governo federal”, relata. A tal decisão autoritária foi colocar uma placa de homena­gem a Floriano Peixoto na pra­ça 15 de Novembro, mesmo sabendo o quanto é polêmica (ainda hoje!) a troca do nome Desterro por Florianópolis – para reverenciar o “Marechal de Ferro”.



“Foi o primeiro grande protesto popular que o Brasil daqueles anos testemunhou. No Brasil inteiro espalharam-se avisos do tipo ‘catarina que é macho!’, inclusive em parachoques de caminhão”
Esperidião Amin


Organizador do manifesto recebe voz de prisão por chamar prefeito da capital de corrupto

Em 1979, Amilton Alexandre estu­dava Administração na UFSC. Hoje é jornalista, o popular Mosquito. Mas se a área de atuação não é a mesma de 32 anos atrás, o engajamento em questões políticas não mudou. Ele foi um dos organizadores da Novembrada. Amil­ton foi o responsável pela confecção de panfletos e faixas. “Sabíamos que já ti­nham ocorrido algumas manifestações contra o aumento da gasolina. Então resolvemos protestar também pedindo eleições e contra a situação de carestia da época. Era um movimento do tipo reivindicatório”, destaca.
Amilton foi um dos sete estudantes enquadrados e julgados pela Lei de Se­gurança Nacional. Ele foi preso no dia 30 de novembro. A prisão gerou uma série de outros manifestos nos dias seguintes. “Ficamos 10 dias presos. Recordo do primeiro dia, ainda na car­ceragem da polícia Federal, no bairro Estreito. Foram mais de 10 horas tran­cado num cubículo, incomunicável”, lembra.
Na visão do jornalista, hoje prevale­ce o individualismo – o que minimiza as chances de qualquer manifestação semelhante à que foi a Novembrada. “Os movimentos políticos migraram para as redes sociais. Tem muito estudante preocupado com o meio ambiente e com a desigualdade so­cial. Mas falta unidade e lideranças que assumam a dianteira dos mo­vimentos estudantis”, avalia. Três décadas depois do protesto, o cená­rio político mudou. “Hoje vivemos num regime democrático. Apesar de algumas distorções, existe liberdade política”, conclui.
História repetida
Aos 52 anos, Amilton não perdeu o ímpeto. Na última sexta-feira, ele teve a prisão decretada. Só não foi para a cadeia no mesmo instan­te porque a prisão foi relaxada na mesma hora, por ser considerado um crime de efeito menor. O crime: chamar o prefeito de Florianópolis, Dário Berger (PMDB), de corrupto. “Foi só um circo que os caras mon­taram. O promotor perguntou se eu confirmava que o Dário era corrupto e eu disse que sim. Aí o promotor pediu a prisão em flagrante. Como o processo em que ele foi condenado não está transitado em julgado, eles não consideram que ele seja cor­rupto. O que é um absurdo”, opina. Mesmo assim, Amilton não preten­de se calar.



Adolescentes de Itajaí acabaram presos durante as manifestações na capital
De curiosos, quatro estudantes de 17 anos foram parar num cam­burão. E depois, nos autos da his­tória catarinense. Os adolescentes tinham deixado Itajaí fazia duas semanas. Eles se hospedaram numa pensão no centro de Floria­nópolis para ficar no período em que fariam um cursinho pré-ves­tibular. Todos queriam entrar na UFSC. Aristides Umbelino da Cos­ta Júnior era um deles. “Naquele dia 30 fomos para a aula, mas nos dispensaram por causa da vinda do presidente. Então fui com um amigo lá ver. E foi isso, só olha­mos o tumulto”, conta.
Mas com a prisão dos sete estu­dantes – o grupo em que Amilton Alexandre estava incluído e do qual Esperidião Amin foi teste­munha de defesa – aconteceram protestos depois daquele último dia de novembro. Foi num destes manifestos posteriores que Aristi­des e os outros três estudantes de Itajaí foram parar numa saleta do DOPS – o temido Departamento de Ordem Política e Social. Hoje com 49 anos, ele ainda recorda os detalhes, desde a prisão até a li­berdade horas depois.
“Vimos na televisão que estava acontecendo mais um protesto. Já era noite, mesmo assim fomos dar uma olhada, porque adolescente não tem medo. Quando chega­mos, a praça já estava cercada. Tinha faixas caídas na escadaria da igreja matriz. Conseguimos uma brecha e passamos pela ca­valaria. Queríamos ler o que es­tava escrito nas faixas largadas na escadaria”, conta. Assim que os quatro encostaram nas faixas, alguém gritou: “eles vão começar de novo!”. Não foi preciso gritar duas vezes. Jogaram os estudan­tes no camburão. A curiosidade custou caro.
Aristides lembra que a madru­gada que passaram no DOPS foi terrível. “Um policial pergun­tou quantos anos nós tínhamos. Depois disse que a gente tinha sorte por só termos 17 anos. Nós estávamos tremendo. Lá a gente ouvia gritos, era horrível”, ressal­ta. Ele disse que foi separado dos amigos. Cada um teria de explicar a situação, mas em depoimentos individuais. “Lembro da fatídica entrevista com o delegado. Uma sala escura, com luz na cabeça. Foi uma pressão psicológica ter­rível. Ele ficou cinco minutos em silêncio, apenas olhando pra mi­nha identidade, o que aumentava a pressão”. Antes mesmo de ouvir o ríspido “o que tu tava fazendo lá?”, Aristides já tremia.
“Apareceu o deputado Murilo Canto e outro do MDB pra de­fender a gente. Eles serviram de advogados para nós, que estáva­mos perdidos em Florianópolis. Depois de toda a pressão, nos soltaram durante a madruga­da”, relata. Aristides conta que, no dia seguinte, o nome deles estava estampado num jornal es­tadual. Em Itajaí, a notícia era repetida o tempo todo na rádio. “Quando voltei para Itajaí, no fim de semana, achei que iam me xingar. No final, o pessoal me parava na rua para parabeni­zar”, relembra.
Passado aquele período, Aris­tides acabou o cursinho e con­seguiu entrar para a mesma universidade daqueles que orga­nizaram os protestos. Ele se for­mou em Computação, chegou a trabalhar em departamentos do governo estadual – pondo fim à desconfiança de que seria perse­guido – e hoje é empresário em Itajaí. Da Novembrada ficaram as memórias. Mesmo que ele es­queça, o nome não será apagado da história recente: ele foi um dos milhares de jovens de Santa Catarina que romperam o silên­cio durante o regime militar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Reportagem em série sobre doação de órgãos (3)


Último dia:
O trabalho de quem pede autorização da família para a captação de órgãos




Você é um doador?

Milene Aparecida Machado tem a difícil missão de abordar os familiares, minutos após a morte do possível doador de órgãos e tecidos. Aos 47 anos, ela é a enfermeira que coordena a Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí. “Procuro dar informações e apoio à família. Por mais que já faça esse trabalho há bastante tempo, sempre me coloco no lugar dos parentes”, comenta Milene. A frieza clínica só disfarça o quanto a enfermeira é emotiva. Mas, ela não se deixa abalar pelos sentimentos. Afinal, no momento trágico,
tem a missão de garantir a felicidade de quem aguarda na fila por um transplante. “Alguém que morre por falência cerebral pode salvar pelo menos oito pessoas”, destaca Milene.
Das 56 famílias que Milene abordou neste ano, 25 recusaram doar os órgãos. “O índice de pessoas que não autorizam, infelizmente, é muito alto”, afirma a enfermeira. Ela diz que a alta taxa de recusa se deve à esperança que as pessoas têm na cura. “Apesar do cérebro já estar morto, algumas pessoas acham que o paciente ainda está vivo. E, às vezes, é tarde para eu fazer a captação, os órgãos já estão comprometidos”, afirma Milene. Antes de se mudar para Itajaí, a enfermeira já trabalhava na mesma comissão, no Estado do Paraná. Por 15 anos ela lidou com transplantes. Há cinco anos, quando
começou no Marieta, ela passou a trabalhar apenas com a captação dos órgãos. “Troquei as salas de cirurgia pelo diálogo com familiares em momento tão delicado”, ressalta Milene.

Abordagens feitas em
Santa Catarina neste ano:

Notificações – 619
Doação – 256

58,64%
dos abordados no Estado
não autorizaram a doação de
órgãos e tecidos


Famílias negam a doação

Hoje, Milene só imagina a dor das pessoas que ela aborda. Entretanto, ela já provou da sensação de quem recebe a doação. “Meu primo sofreu um acidente e ficou cego. Para voltar a enxergar, estava na fila de transplante. No dia em que ele conseguiu voltar a ver,
percebi como o trabalho que eu faço muda a vida de uma pessoa”, conta, emocionada. Ao falar sobre o reconhecimento do ofício, Milene não demonstra tanto orgulho
quanto deveria. Mas, por dentro, deve se encher de satisfação pela tarefa diária frente ao programa de captação. “Quando trabalhamos no transplante, é normal que as pessoas agradeçam. No entanto, ganhar presentes de familiares que doaram órgãos é algo ainda mais gratificante”, comenta a enfermeira.
Hoje, 1.866 pessoas aguardam na fila pelo transplante em Santa Catarina. De acordo com Milene, se todas as famílias abordadas em Itajaí autorizassem a captação, em três anos a cidade conseguiria, sozinha, zerar a fila no Estado. “É fundamental que as pessoas falem com a família sobre a vontade de doar ou não os órgãos. Isso facilita a decisão na hora da morte e pode salvar vidas”, enfatiza Milene.
A solidariedade de um doador salvou a vida do aposentado Valmir Nunes. Ele esperava havia seis anos por um transplante de coração. É pouco provável que tenha sido Milene quem captou o órgão que foi transplantado em Nunes. No entanto, o gesto que ela repete com tanta frequência representa o bem que o aposentado de Tijucas recebeu: uma segunda chance para viver. E a vida continua.



Série publicada no fim de agosto do 2010 no jornal Notícias do Dia - Vale do Rio Tijucas e Costa Esmeralda. E publicada novamente no ND da Grande Florianópolis no início de setembro do mesmo ano.

Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Allex W. Farias