quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reportagem Especial de Abu Dhabi



Uma ilha de progresso rodeada por um mar de velhos costumes

A geografia não é a maior distância entre Itajaí e Abu Dhabi. Estar no calendário de paradas da Volvo Ocean Race é um dos poucos pontos em comum entre as duas cidades. Reportagem do DIARINHO desbrava a capital dos Emirados Árabes e conta o que viu e sentiu do outro lado do mapa



Texto e fotos: Cláudio Eduardo

Abu Dhabi é um emaranhado de cartões-postais. Para cada canto que se olha, há algo surpreendentemente lindo – ao menos no prisma de um ocidental. Na capital dos Emirados Árabes, as construções antigas convivem em harmonia com os gigantescos prédios de arquitetura arrojada. Tudo parece ser projetado numa precisão atípica para alguém acostumado com os cenários brasileiros onde hoje uma rua vai para um lado e no dia seguinte, sem explicações, muda de sentido. Em Abu Dhabi não há remendos. Em alguns locais não é exagero afirmar: é uma maquete futurista em tamanho real.
É a primeira vez que Abu Dhabi recebe uma etapa da Volvo Ocean Race. Contudo, a regata de volta ao mundo não é o único investimento da cidade em eventos esportivos de alto nível. Muita gente não se recorda, mas já deve ter ouvido falar o nome da capital árabe. Em 2009, por exemplo, foi palco do último grande prêmio de Fórmula 1, onde o alemão Sebastian Vettel se sagrou o mais jovem campeão mundial na história da prova. Também foi em Abu Dhabi que o Internacional decepcionou os torcedores colorados ao ser eliminado do campeonato mundial de Clubes da Fifa. A derrota por dois a zero foi para o Mazembe, um desconhecido time do Congo.
E não é só no mundo dos esportes que Abu Dhabi luta para atrair os holofotes. A cidade que é impulsionada pelo mar de dinheiro do petróleo busca se tornar um centro para turistas de todos os lugares do planeta. O cenário é realmente perfeito. Enche os olhos. E a infraestrutura corresponde. Dificilmente um turista – mesmo que não fale o inglês, que substitui o idioma árabe na hora da conversa com pessoas de outros países – passa dificuldades para se locomover pela cidade.
Com dinheiro e boa vontade, até apelar para coisas artificiais é válido. Apesar do clima desértico, Abu Dhabi tenta se tornar a localidade mais verde do Golfo Pérsico. E quem vê confirma: estão conseguindo transformar o visual arenoso em arborizado. Exportam plantas, flores e gramados de tudo quanto é país e para que o verde não morra com o calor forte – que geralmente só alivia um mês a cada ano – eles usam da tecnologia. Um complexo sistema puxa a água do mar e faz o processo de dessalinização antes de usá-la para regar as plantas.

TRADIÇÃO
Mulheres se cobrem da cabeça aos pés para poder sair de casa



Antes de embarcar para Abu Dhabi, recebo instruções: nada de encarar as mulheres, fazer comentários próximo a elas ou sequer fotografá-las. São intocáveis. Esse alerta se tornou um receio ainda maior quando chego à cidade e percebo que outros homens que não são nativos têm o mesmo temor. Não quero deixar brecha para problemas numa terra em que as tradições se sobrepõem a qualquer preceito jurídico aos quais nós ocidentais estamos acostumados.
Elas parecem fantasmas. Desviam olhares, abaixam a cabeça e parecem infelizes pela aparente submissão. Aos poucos, percebo que meu conceito está errado. Numa conversa com um taxista do Paquistão, pergunto sobre as mulheres dos árabes. Ele ri quando percebe resquícios de compaixão no meu olhar. Garante que elas quem mandam em casa. Depois disso paro para observar e percebo que, realmente, as mulheres parecem satisfeitas.
Pelo principal shopping de Abu Dhabi, o Marina Mall, circulam cheias de orgulho, entrando de loja em loja para esbanjar o poder financeiro. Pelas ruas, vira e mexe as burcas pretas se destacam nos cenários estupidamente claros devido às condições climáticas da região. Não satisfeitas, há mulheres que radicalizam. Escondem até o rosto atrás do pano escuro, deixando de fora apenas os olhos. Outras ostentam. Andam todas faceiras com uma burca tão negra quanto a das demais, só que cheia de pedras bordadas. Em Abu Dhabi parece lei: nativos precisam exibir suas riquezas.

PROCURA DA FELICIDADE
Brasileiros vão para Abu Dhabi em busca de mais qualidade de vida



Conheço Solange por acaso. No meio de uma multidão de turistas, ela identifica minha nacionalidade. E a conversa começa. Fui conhecer um dos principais pontos turísticos de Abu Dhabi, a majestosa “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo. Despreparado, chego de bermuda. Preciso colocar um roupão branco para poder entrar no prédio. Como traços europeus passam longe da minha aparência, acho que vou ser facilmente confundido com um árabe. O disfarce não durou muito tempo.
“É brasileiro?”, diz a voz, num carregado sotaque carioca, ecoando no interior da mesquita. Me viro e vejo uma jovem senhora vestindo a burca preta conforme os seguranças obrigam as mulheres que queiram entrar na igreja muçulmana. Começa o bate-papo. “Que bom ouvir o nosso bom português em terras estrangeiras”, penso.
Solange Barros tem 57 anos. Desde 2006 largou o Rio de Janeiro para morar nos Emirados Árabes. Ela sentiu o impacto da mudança, mas não se arrependeu. “Meu marido era piloto da Varig. E viemos para cá porque ele começou a trabalhar na Emirates Airlines [uma das maiores empresas aéreas do mundo]. Só aqui conseguimos a tão sonhada estabilidade financeira”, conta. Enquanto o marido sobrevoa, a carioca ocupa os dias como guia turística. E era justamente isso que ela estava fazendo na mesquita: apresentando o lugar a um casal de visitantes. Mesmo assim, não se fez de rogada para conceder uma “conversa-entrevista”.
Só um dos dois filhos de Solange veio para Abu Dhabi, o caçula. O outro, já com 35 anos, continua em terras brasileiras. Ela se diz ainda mais tranquila por trazer o filho de 16 anos para morar numa cidade completamente oposta ao Rio de Janeiro. “O maior impacto que senti desde que cheguei aqui foi a questão da segurança, que é máxima em qualquer horário. Você sabe que pode deixar um objeto destrancado, andar tranquilamente com uma joia cara ou até mesmo deixar o vidro do carro aberto. Aqui ninguém vai te roubar. Agora experimenta fazer isso no Brasil”, provoca.
A guia turística garante que as condições de vida estão melhores para ela e para a família. “O salário não é dos maiores, mas o pacote vale a pena. Você tem todo tipo de assistência. Além de mim, existem pelo menos mais 100 famílias de pilotos brasileiros vivendo aqui”, comenta Solange. Ela diz que há demanda: são 17 vôos diários com destino aos Emirados Árabes e na semana que vem a Emirates lança mais uma conexão, justamente para o Rio de Janeiro. E Solange vai estar entre as primeiras a embarcar. Vem para o Brasil matar a saudade dos que ficaram para trás.
Na mesquita, ela usa a burca preta, mas não por ter se rendido às tradições locais. Apenas por ser obrigatório para as visitantes. Apesar de parecer óbvio a rejeição às mulheres estrangeiras que se instalam no território das árabes, Solange nunca se sentiu desrespeitada. “Nós somos a maioria. Os nativos são minoria, representam apenas 11% da população. Bem menos que os indianos, que são 40%”, exemplifica.

Foto: Gabriela Bepler

Mão de obra estrangeira
Essa desproporcionalidade na população destacada por Solange é facilmente visível. Chama a atenção de quem passa por Abu Dhabi: nativos não trabalham na prestação de serviços. Enquanto os árabes esbanjam os bens adquiridos com o petróleo e transbordam a empáfia típica de milionários emergentes, imigrantes fazem o trabalho braçal.
De todas as vezes que entrei num táxi, nunca o motorista era nativo – um era do Paquistão, deixou a família lá e veio tentar juntar dinheiro, mas ainda não conseguiu trazer a mulher e filhos para Abu Dhabi; outro era de Bangladesh, e pouco descubro, pois ele é dos que prefere dirigir calado; um terceiro, de Filipinas, com inglês não tão treinado ao ponto de me contar o motivo que o trouxe para a capital dos Emirados. E o exemplo dos táxis vale para garçons, vendedores, operários... No trabalho percebe-se muitos orientais de olhos puxados e praticamente nenhum de burca. As nativas parecem ter apenas duas tarefas: se dedicarem aos maridos e se exibirem da forma menos provável, escondidas atrás de metros de pano.

CENSURA
Segurança proíbe fotografia de mulher sem burca no lado de fora da mesquita

Foto: Diego Gomes

Mulheres não precisam estar dentro do templo islã para serem obrigadas a seguir as tradições. Mesmo do lado de fora, não pode fotografá-las caso estejam vestindo “roupas ocidentais”. A mesquita só pode dividir o mesmo espaço na foto com uma mulher caso ela esteja com a veste negra escondendo até o último fiapo de cabelo.
E eu sabia disso. Confesso. Mesmo assim, atendo ao pedido de uma jornalista que visitava a “Sheikh Zayed Mosque”. Ela senta na beira de uma espécie de piscina, na frente da mesquita, e me pede para bater uma foto. Minha missão é ser discreto. Não posso deixar que os seguranças (que não são poucos!) percebam que estava burlando a regra. Ninguém parecia estar me olhando. Ela sorri, eu clico. Imagem capturada. Finjo que nada aconteceu, mas não vou muito longe.
Mal dei três passos e ouço, num inglês carregado, os gritos de “por favor, senhor!”. Paro e ouço o que o segurança, que vem apressado em minha direção, tem a falar. “Posso ver a última foto?”, me questiona fazendo cara de poucos amigos. Não me deixa saída. Mostro a última imagem da câmera e lá está o registro de uma mulher, de calça jeans e camiseta, posando sorridente na frente da mesquita. Prevejo o problema, mas não dimensiono as conseqüências.
Olhando para a foto, o árabe – tão franzino quanto eu – ordena que eu a apague. Nem penso em contrariá-lo. Não queria saber qual seria a outra opção, caso eu ignorasse a ordem. Apago. Ele acompanha cada botão que eu aperto e olha pelo monitor da câmera até a foto se dissipar. E me dá as costas. Depois percebo que, mesmo de longe, o mesmo segurança vigia cada passo meu ao redor da mesquita. Até que vou embora. Continuo meu passeio turístico e as belezas da cidade me fazem esquecer da situação constrangedora.


Reportagem publicada no jornal DIARINHO em 16 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE ABU DHABI


Os primeiros dias de um repórter na fascinante capital dos Emirados Árabes

Por Cláudio Eduardo

Foto na "Sheikh Zayed Mosque", em Abu Dhabi. Crédito: Gabriela Bepler

 
O cansaço da viagem longa e da troca de fuso ainda não foi superado. Faz quatro dias que saí de Itajaí – sendo que dois ficaram enterrados entre espera em aeroporto e vôos que pareciam eternos. Perco o maior tempo no trajeto entre Florianópolis e Doha, capital do Qatar, cruzando o continente africano depois de deixar para trás o oceano Atlântico e, por fim, sobrevoando o Oriente Médio após a travessia aérea sobre o lendário Mar Vermelho.
O relógio enlouquece. Eu não. Depois de instalado em Abu Dhabi, começa a peregrinação. O sono não vem, a fome se foi, mas nada disso aplaca a vontade de conhecer cada canto possível da capital dos Emirados Árabes. No primeiro dia em que estou na cidade, parto para a vila da regata Volvo Ocean Race. No caminho, um mundaréu de prédios inacreditavelmente arrojados. Mas as edificações mais antigas permanecem preservadas entre as novas construções. Não há como recusar uma foto. Só olhar é pouco. Tudo vira cartão-postal nos meus olhos, então preciso registrar.
E com essa curiosidade típica de qualquer jornalista, somado ao espírito de turista que me permito nessa viagem (tão longa!), desbravo os principais pontos turísticos de Abu Dhabi. Dentre as tantas construções, a “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo e a mais importante da capital árabe – enche meus olhos... E a memória da minha câmera. Registro cada passo. E toda essa experiência está sendo cautelosamente armazenada para servir de material para a reportagem especial que sai na segunda-feira, nas páginas do DIARINHO, agora mais internacionais do que nunca.

(Texto publicado no jornal DIARINHO em 13/01/2012)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Feliz (e desafiador) ano novo!


Queria escrever uma mensagem linda para ressaltar o quão maravilhoso e desafiador foi meu 2011. Mas foram tantos milhares de caracteres digitados ao longo deste ano que o teclado parece me implorar: “chega, Cláudio!”. E eu obedeço.

2011 se abriu para mim acompanhado de um desafio – ser editor de Política no Diarinho. Precisei superar minha inexperiência e a falta de conhecimento desta área, onde não sabia nem o nome do presidente da câmara, menos ainda das lideranças locais. Juro que lutei a cada dia para que minhas dificuldades não pudessem ser percebidas pelos leitores.
E encerro este ano com um super sorriso. Um sorriso de “bem-vindo, 2012!” – mais um ano que já nasce (para mim) aliado a um monte de desafios e, novamente, vou lutar para encará-los a cada dia. E sigo... Para dias cada vez melhores (e mais desafiadores)! Que todos tenham um ano tão prazeroso quanto será o meu. E vamos felizes ao encontro das novidades.

FELIZ ANO NOVO!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Reportagem sobre os 32 anos da Novembrada


30 DE NOVEMBRO DE 1979

O dia em que SC encarou a ditadura militar

 

32 anos depois, personagens da Novembrada revivem a data histórica

nas páginas do DIARINHO

 

 

Texto: Cláudio Eduardo 

Reportagem publicada no Jornal DIARINHO, em 30/11/2011

 


A ditadura militar calava. Ao final da década de 1970, ainda sob a fama dos “Anos de Chumbo”, a possibilidade de um presidente ser rechaçado em público beirava o insano. Com a certeza de receber sorrisos, mesmo que descontentes, João Figueiredo veio para Santa Catarina. O roteiro do general que comandava o país incluía visitas e homenagens. Ao lado do governador Jorge Bornhausen, o presidente começaria a saga por Florianópolis na busca por aplausos. Entretanto, não foi o que recebeu naquele 30 de novembro de 1979.
O manifesto organizado por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) se somou ao descontentamento do povo. Todos estavam fartos, cansados da liberdade de expressão estrangulada e dos preços que aumentavam descontroladamente. A Novembrada libertou o grito de “basta” entalado na garganta dos milhões de brasileiros descontentes com o regime militar.

Jorge Bornhausen e Esperidião Amin (dois políticos da Arena, na época) recepcionaram o presi­dente. Há quem atribua à dupla a tentativa de maquiar o clima hos­til que predominava na cidade. No entanto, Amin desmente esta tese. Ao contrário, garante que alertou para a possibilidade de manifesta­ções. “Em função das circunstân­cias sociais, econômicas – inflação e carestia –, previ que iria aconte­cer algum protesto, julgando que o clima festivo que se pretendia dar à visita estava dissociado da realida­de”, comenta.
Em 1979, Amin era deputado federal e secretário estadual dos Transportes e Obras. Ele diz que, na noite de véspera, durante um jantar com Marco Antônio Kram­mer, secretário de imprensa da Presidência da República, alertou sobre a possibilidade do manifes­to e que jornalistas presentes no evento foram testemunhas disso. O alerta de Amin pode ter diminuído o fator surpresa do ato. Mas a par­ticipação maciça dos jovens deve ter deixado descrente parte do staff do governo. “As reações foram di­versas. Prefiro não comentar a dos outros. A minha foi de espanto pe­las dimensões e prolongamentos do episódio”, recorda.
Político experiente, Amin – que hoje é deputado federal pelo PP – já enxerga o evento de forma mais amadurecida. “Minhas impressões sobre a Novembrada têm evoluído ao longo do tempo. Na época, com 31 anos de idade, mesmo já tendo experiência política e administra­tiva, o episódio tinha um cunho romântico. Hoje percebo que fez parte do ciclo histórico que vive­mos”, salienta. Além disso, Amin assegura que não houve qualquer precedente no país. “Foi o primeiro grande protesto popular que o Bra­sil daqueles anos testemunhou. No Brasil inteiro espalharam-se avisos do tipo ‘catarina que é macho!’, inclusive em parachoques de cami­nhão”, lembra o deputado.
Em entrevista a uma emissora de televisão local logo após o protesto, Amin afirmou que o ato, além, de previsível, era legítimo. Ele conta que, pela posição que tinha no go­verno, a fala caiu feito uma bomba. “Tenho muito orgulho de ter man­tido minha postura. Coloquei o cargo de secretário à disposição do governador e fui indicado para ser testemunha de defesa dos estudantes que foram detidos, na época. Meu depoimento na Auditoria Militar, em Curiti­ba, os ajudou decisivamente, especialmente porque contex­tualizei o protesto referindo a situação política, econômica e social a uma decisão autoritá­ria do governo federal”, relata. A tal decisão autoritária foi colocar uma placa de homena­gem a Floriano Peixoto na pra­ça 15 de Novembro, mesmo sabendo o quanto é polêmica (ainda hoje!) a troca do nome Desterro por Florianópolis – para reverenciar o “Marechal de Ferro”.



“Foi o primeiro grande protesto popular que o Brasil daqueles anos testemunhou. No Brasil inteiro espalharam-se avisos do tipo ‘catarina que é macho!’, inclusive em parachoques de caminhão”
Esperidião Amin


Organizador do manifesto recebe voz de prisão por chamar prefeito da capital de corrupto

Em 1979, Amilton Alexandre estu­dava Administração na UFSC. Hoje é jornalista, o popular Mosquito. Mas se a área de atuação não é a mesma de 32 anos atrás, o engajamento em questões políticas não mudou. Ele foi um dos organizadores da Novembrada. Amil­ton foi o responsável pela confecção de panfletos e faixas. “Sabíamos que já ti­nham ocorrido algumas manifestações contra o aumento da gasolina. Então resolvemos protestar também pedindo eleições e contra a situação de carestia da época. Era um movimento do tipo reivindicatório”, destaca.
Amilton foi um dos sete estudantes enquadrados e julgados pela Lei de Se­gurança Nacional. Ele foi preso no dia 30 de novembro. A prisão gerou uma série de outros manifestos nos dias seguintes. “Ficamos 10 dias presos. Recordo do primeiro dia, ainda na car­ceragem da polícia Federal, no bairro Estreito. Foram mais de 10 horas tran­cado num cubículo, incomunicável”, lembra.
Na visão do jornalista, hoje prevale­ce o individualismo – o que minimiza as chances de qualquer manifestação semelhante à que foi a Novembrada. “Os movimentos políticos migraram para as redes sociais. Tem muito estudante preocupado com o meio ambiente e com a desigualdade so­cial. Mas falta unidade e lideranças que assumam a dianteira dos mo­vimentos estudantis”, avalia. Três décadas depois do protesto, o cená­rio político mudou. “Hoje vivemos num regime democrático. Apesar de algumas distorções, existe liberdade política”, conclui.
História repetida
Aos 52 anos, Amilton não perdeu o ímpeto. Na última sexta-feira, ele teve a prisão decretada. Só não foi para a cadeia no mesmo instan­te porque a prisão foi relaxada na mesma hora, por ser considerado um crime de efeito menor. O crime: chamar o prefeito de Florianópolis, Dário Berger (PMDB), de corrupto. “Foi só um circo que os caras mon­taram. O promotor perguntou se eu confirmava que o Dário era corrupto e eu disse que sim. Aí o promotor pediu a prisão em flagrante. Como o processo em que ele foi condenado não está transitado em julgado, eles não consideram que ele seja cor­rupto. O que é um absurdo”, opina. Mesmo assim, Amilton não preten­de se calar.



Adolescentes de Itajaí acabaram presos durante as manifestações na capital
De curiosos, quatro estudantes de 17 anos foram parar num cam­burão. E depois, nos autos da his­tória catarinense. Os adolescentes tinham deixado Itajaí fazia duas semanas. Eles se hospedaram numa pensão no centro de Floria­nópolis para ficar no período em que fariam um cursinho pré-ves­tibular. Todos queriam entrar na UFSC. Aristides Umbelino da Cos­ta Júnior era um deles. “Naquele dia 30 fomos para a aula, mas nos dispensaram por causa da vinda do presidente. Então fui com um amigo lá ver. E foi isso, só olha­mos o tumulto”, conta.
Mas com a prisão dos sete estu­dantes – o grupo em que Amilton Alexandre estava incluído e do qual Esperidião Amin foi teste­munha de defesa – aconteceram protestos depois daquele último dia de novembro. Foi num destes manifestos posteriores que Aristi­des e os outros três estudantes de Itajaí foram parar numa saleta do DOPS – o temido Departamento de Ordem Política e Social. Hoje com 49 anos, ele ainda recorda os detalhes, desde a prisão até a li­berdade horas depois.
“Vimos na televisão que estava acontecendo mais um protesto. Já era noite, mesmo assim fomos dar uma olhada, porque adolescente não tem medo. Quando chega­mos, a praça já estava cercada. Tinha faixas caídas na escadaria da igreja matriz. Conseguimos uma brecha e passamos pela ca­valaria. Queríamos ler o que es­tava escrito nas faixas largadas na escadaria”, conta. Assim que os quatro encostaram nas faixas, alguém gritou: “eles vão começar de novo!”. Não foi preciso gritar duas vezes. Jogaram os estudan­tes no camburão. A curiosidade custou caro.
Aristides lembra que a madru­gada que passaram no DOPS foi terrível. “Um policial pergun­tou quantos anos nós tínhamos. Depois disse que a gente tinha sorte por só termos 17 anos. Nós estávamos tremendo. Lá a gente ouvia gritos, era horrível”, ressal­ta. Ele disse que foi separado dos amigos. Cada um teria de explicar a situação, mas em depoimentos individuais. “Lembro da fatídica entrevista com o delegado. Uma sala escura, com luz na cabeça. Foi uma pressão psicológica ter­rível. Ele ficou cinco minutos em silêncio, apenas olhando pra mi­nha identidade, o que aumentava a pressão”. Antes mesmo de ouvir o ríspido “o que tu tava fazendo lá?”, Aristides já tremia.
“Apareceu o deputado Murilo Canto e outro do MDB pra de­fender a gente. Eles serviram de advogados para nós, que estáva­mos perdidos em Florianópolis. Depois de toda a pressão, nos soltaram durante a madruga­da”, relata. Aristides conta que, no dia seguinte, o nome deles estava estampado num jornal es­tadual. Em Itajaí, a notícia era repetida o tempo todo na rádio. “Quando voltei para Itajaí, no fim de semana, achei que iam me xingar. No final, o pessoal me parava na rua para parabeni­zar”, relembra.
Passado aquele período, Aris­tides acabou o cursinho e con­seguiu entrar para a mesma universidade daqueles que orga­nizaram os protestos. Ele se for­mou em Computação, chegou a trabalhar em departamentos do governo estadual – pondo fim à desconfiança de que seria perse­guido – e hoje é empresário em Itajaí. Da Novembrada ficaram as memórias. Mesmo que ele es­queça, o nome não será apagado da história recente: ele foi um dos milhares de jovens de Santa Catarina que romperam o silên­cio durante o regime militar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Reportagem em série sobre doação de órgãos (3)


Último dia:
O trabalho de quem pede autorização da família para a captação de órgãos




Você é um doador?

Milene Aparecida Machado tem a difícil missão de abordar os familiares, minutos após a morte do possível doador de órgãos e tecidos. Aos 47 anos, ela é a enfermeira que coordena a Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí. “Procuro dar informações e apoio à família. Por mais que já faça esse trabalho há bastante tempo, sempre me coloco no lugar dos parentes”, comenta Milene. A frieza clínica só disfarça o quanto a enfermeira é emotiva. Mas, ela não se deixa abalar pelos sentimentos. Afinal, no momento trágico,
tem a missão de garantir a felicidade de quem aguarda na fila por um transplante. “Alguém que morre por falência cerebral pode salvar pelo menos oito pessoas”, destaca Milene.
Das 56 famílias que Milene abordou neste ano, 25 recusaram doar os órgãos. “O índice de pessoas que não autorizam, infelizmente, é muito alto”, afirma a enfermeira. Ela diz que a alta taxa de recusa se deve à esperança que as pessoas têm na cura. “Apesar do cérebro já estar morto, algumas pessoas acham que o paciente ainda está vivo. E, às vezes, é tarde para eu fazer a captação, os órgãos já estão comprometidos”, afirma Milene. Antes de se mudar para Itajaí, a enfermeira já trabalhava na mesma comissão, no Estado do Paraná. Por 15 anos ela lidou com transplantes. Há cinco anos, quando
começou no Marieta, ela passou a trabalhar apenas com a captação dos órgãos. “Troquei as salas de cirurgia pelo diálogo com familiares em momento tão delicado”, ressalta Milene.

Abordagens feitas em
Santa Catarina neste ano:

Notificações – 619
Doação – 256

58,64%
dos abordados no Estado
não autorizaram a doação de
órgãos e tecidos


Famílias negam a doação

Hoje, Milene só imagina a dor das pessoas que ela aborda. Entretanto, ela já provou da sensação de quem recebe a doação. “Meu primo sofreu um acidente e ficou cego. Para voltar a enxergar, estava na fila de transplante. No dia em que ele conseguiu voltar a ver,
percebi como o trabalho que eu faço muda a vida de uma pessoa”, conta, emocionada. Ao falar sobre o reconhecimento do ofício, Milene não demonstra tanto orgulho
quanto deveria. Mas, por dentro, deve se encher de satisfação pela tarefa diária frente ao programa de captação. “Quando trabalhamos no transplante, é normal que as pessoas agradeçam. No entanto, ganhar presentes de familiares que doaram órgãos é algo ainda mais gratificante”, comenta a enfermeira.
Hoje, 1.866 pessoas aguardam na fila pelo transplante em Santa Catarina. De acordo com Milene, se todas as famílias abordadas em Itajaí autorizassem a captação, em três anos a cidade conseguiria, sozinha, zerar a fila no Estado. “É fundamental que as pessoas falem com a família sobre a vontade de doar ou não os órgãos. Isso facilita a decisão na hora da morte e pode salvar vidas”, enfatiza Milene.
A solidariedade de um doador salvou a vida do aposentado Valmir Nunes. Ele esperava havia seis anos por um transplante de coração. É pouco provável que tenha sido Milene quem captou o órgão que foi transplantado em Nunes. No entanto, o gesto que ela repete com tanta frequência representa o bem que o aposentado de Tijucas recebeu: uma segunda chance para viver. E a vida continua.



Série publicada no fim de agosto do 2010 no jornal Notícias do Dia - Vale do Rio Tijucas e Costa Esmeralda. E publicada novamente no ND da Grande Florianópolis no início de setembro do mesmo ano.

Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Allex W. Farias

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Reportagem em série sobre doação de órgãos (2)


Segundo dia:
A história de um doador de órgãos que sabia que morreria nas estradas
 

Paixão por carros e pela vida
Luciano Casali sabia que morreria na estrada e, apesar de ser doador, só teve os rins retirados

Luciano Casali, morador de Nova Trento, viajou por todo o Brasil de carro. Mas, foi perto de casa que ele sofreu o acidente em que perdeu a vida. No ano passado, depois de perder o controle do veículo na rodovia SC-411, Casali ficou internado por uma semana no Hospital Celso Ramos, na Capital. Aos 34 anos, não resistiu. “Ele sabia que morreria na estrada, pois adorava andar de carro. E sempre comentava que, se em um acidente sobrasse algo inteiro, era para doar”, recorda a comerciante Adriana Casali, 33, irmã de Luciano. 
A família atendeu ao último desejo do único filho homem. No entanto, Adriana diz que foram retirados apenas os rins do irmão. “Não sei se por qual motivo, mas o Luciano foi enterrado com vários órgãos intactos. As partes que poderiam salvar outras vidas agora apodrecem no túmulo”, afirma a comerciante. Dirigindo um Ômega, Luciano destruiu um ponto de ônibus durante a madrugada de 18 de abril de 2009. Pai de dois filhos, Casali era apaixonado por automóveis. Ele trabalhava com negociação de veículos, por isso viajava tanto.
Na carteira de identidade de todos os membros da família Casali consta: “não-doador de órgãos e tecido”. Porém, todos são assumidamente doadores. “Tenho um primo que é médico e nos disse para colocar que não doávamos por questão de segurança. O Luciano, por exemplo, estava sempre nas estradas. Então, tínhamos medo que ele sofresse um acidente em algum lugar do Brasil em que não pudéssemos participar da decisão da doação de órgãos”, explica Adriana. Ela diz se orgulhar da atitude do irmão e garante que o exemplo será seguido por todos os membros da família. “Não entendo como há pessoas que preferem enterrar o corpo a doar. É uma forma de fazer uma última boa ação”, questiona a irmã de Luciano Casali. Com a decisão da família, ele passou de vítima a doador.



Sem controle, motoristas andam à vontade na 411

Quando o Corpo de Bombeiros recebe um chamado de acidente na SC-411, já sabem que deve ser algo grave. Osnildo Olávio Porto, subtenente da corporação em Tijucas, diz que a gravidade dos impactos se justifica pelo desrespeito ao limite de velocidade. “Ao longo da rodovia, no trecho que vai de Tijucas a Nova Trento, só existem três lombadas eletrônicas. No resto do trajeto, os motoristas estão livres para acelerar”, destaca Porto. Ele diz que a proibição dos redutores de velocidade, conhecidos como pardais, facilita a falta de controle.
Segundo o subtenente, sempre que acontece um acidente na SC-411, os bombeiros encaminham as vítimas ao hospital mais próximo. Depois, cabe ao médico que atende decidir se o paciente deve ser transferido para outra cidade. “Nosso compromisso é garantir a vida do acidentado. Lamentamos quando a pessoa morre no local e não podemos fazer mais nada para salvá-la”, afirma Porto.

No total, 1.866 pessoas aguardam transplantes em Santa Catarina

68,32%
esperam por tecidos,
principalmente córneas

31,67%
precisam de órgãos sólidos
(coração, pulmão, fígado, rim
e pâncreas)



Amanhã coloco terceiro (e último) dia da reportagem!


Série publicada no fim de agosto do 2010 no jornal Notícias do Dia - Vale do Rio Tijucas e Costa Esmeralda. E publicada novamente no ND da Grande Florianópolis no início de setembro do mesmo ano.

Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Allex W. Farias



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Reportagem em série sobre doação de órgãos

Primeiro dia:
Das tragédias da SC-411 surge a vida através da doação de órgãos e tecidos


Da morte à vida

Somente um gesto de amor é capaz de transformar a tragédia em alegria. Aos 64 anos, Valmir Nunes é a prova viva disto. No peito dele bate um coração de outra pessoa. Há quase quatro anos o aposentado fez um transplante cardíaco. Ele não conhece a identidade ou história do Doador. A única coisa que sabe é a causa da morte: um acidente na Rodovia que liga os Municípios do Vale do Rio Tijucas, a SC-411. Da estrada, que acumula desgraça, Nunes recebeu uma segunda chance. Do ato de doação, o exemplo da solidariedade.

A Rodovia SC-411 não é temida à toa. Só este ano, no trecho que vai de Tijucas a Nova Trento, 14 mortes instântaneas foram registradas. Entretanto nas estatísticas de vítimas fatais não estão incluídos aqueles que foram levados ainda com vida ao Hospital. E são justamente essas pessoas que podem ser doadores de órgãos e tecidos. "A captação só pode ser feita em casos de morte assistida, ou seja, o paciente precisa estar internado", explica a coordenadora de enfermagem do Hospital São José de Tijucas, Maria Aparecida Roselindo.
De acordo com a enfermeira, nos casos de acidentes mais graves, como são os que ocorrem na SC-411, o paciente já chega morto no Hospital, ou precisa ser internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). "Como não temos UTI em Tijucas, encaminhamos o paciente para outras cidades, geralmente Florianópolis", destaca Maria Aparecida, justificando o motivo do Hospital São José não captar órgãos e tecidos. "A maioria das transferências de pacientes são para Florianópolis, pois lá estão os hospitais de referência em Traumatologia", afirma a coordenadora de Enfermagem. No entanto,o coração que Nunes recebeu em 2006 foi captado em outra cidade de Santa Catarina.


Depois de seis anos na angustiante fila de espera por um coração, Valmir Nunes recebeu o tão aguardado telefonema. "Quando me ligaram para eu ir às pressas para o Hospital porque tinham um coração novo para mim, fiquei feliz. Mas tentei não me empolgar muito, para não me decepcionar casonão desse certo", salienta o aposentado. O receio de Nunes é que ocorresse o mesmo que em Outubro de 2003. "Quando se precisa de uma doação, ficamos apegados à esperança. Há sete anos eu estava numa mesa de cirurgia para receber um novo coração. Mas não deu certo", recorda. Segundo o aposentado o médico cardiologista percebeu uma infecção no órgão que seria transplantado. Mais uma vez Nunes voltou para a Fila.
Com todos os motivos para desanimar, o aposentado que mora no bairro Universitário, em Tijucas, superou a fase difícil com muito bom humor. Hoje então, já com coração novo, ele tem motivos de sobra para comemorar. "Digo com toda a certeza que nasci de novo. Sei que é difícil para a família decidir pela doação dos órgãos no momento da perda, mas esse gesto salvou minha vida", ressalta Nunes. Pai de sete filhos, o aposentado conta que, antes do transplante, não conseguia andar três quadras. Hoje, Nunes circula de bicicleta pela cidade sem se cansar. Ele transborda vivacidade. "Quando eu morrer, podem retirar todo órgão que possa ser aproveitado para ajudar outra pessoa", retribui, dando sequência à mesma corrente do bem que lhe devolveu o dom da vida.




Amanhã coloco segundo dia da reportagem!


Série publicada no fim de agosto do 2010 no jornal Notícias do Dia - Vale do Rio Tijucas e Costa Esmeralda. E publicada novamente no ND da Grande Florianópolis no início de setembro do mesmo ano.

Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Allex W. Farias