A história do desvio
milionário através da Cruz Vermelha
no hospital Ruth Cardoso
A
história encoberta por justificativas, documentos falsos e influência política
se revela hoje nas páginas do DIARINHO. João – nome fictício para preservar a
identidade da pessoa envolvida há mais de três anos nos projetos da Cruz
Vermelha Brasileira – conta tudo o que sabe sobre o esquema milionário de
desvio de dinheiro público que se instalou em Balneário Camboriú, mas que não
se restringe ao município do litoral catarinense. Ele apontou quatro nomes como
sendo os principais responsáveis pela falcatrua: Anderson Marcelo Choucino,
Marcos Roberto Romero Sanches, Fernando José Mesquita e M.F.. Segundo
João, todo o esquema foi facilitado conforme, pelo caminho, cooptavam outras
pessoas. A vaidade, a negligência e a ambição fizeram com que o grupo
aumentasse. E, em Balneário, no comando do hospital municipal Ruth Cardoso, não
foi preciso um ano para que o desfalque tomasse proporções escandalosas: 176
mortes em seis meses, desvio de quase 25% dos mais de R$ 12 milhões injetados
pelo município para serem aplicados na unidade, dois inquéritos instaurados
pelo Ministério Público, decretada a intervenção, aberta uma comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) no legislativo municipal... Colocaram o Ruth
Cardoso na UTI.
Por Cláudio Eduardo
João conta a participação de cada um que transitou pelo esquema em Balneário
Camboriú. Destaca, principalmente, a postura de duas lideranças no município
que acabaram facilitando a ação do grupo: José Roberto Spósito (PMDB) – que era
secretário de Saúde até o fim de março deste ano e ainda presidia a comissão de
Acompanhamento e Avaliação do Ruth Cardoso – e o presidente do conselho
Municipal de Saúde (Comus), Luiz Fernando Brito, que também era membro da
comissão que fiscalizava o hospital. Os dois, além de saberem de tudo,
colaboravam e tiravam vantagens, segundo João. Ele ainda acrescenta que o
gestor do fundo Municipal de Saúde (responsável pela liberação do dinheiro),
Rafael Schroeder (PMDB), que assumiu a pasta depois que Spósito se afastou,
sabia de tudo. E pecou pelo silêncio. Quanto ao prefeito Edson Periquito
(PMDB), João isenta de qualquer culpa com relação ao desvio de dinheiro
público. Diz que a falha do prefeito foi o interesse político, ao forçar a
contratação de pessoas indicadas por ele para ocupar cargos dentro do hospital.
DIARINHO – A Cruz Vermelha gaúcha abriu duas contas bancárias em
Balneário Camboriú, qual o motivo?
João – Dentro desse modelo de
operação que eles fazem, tentam fazer uma grande confusão na movimentação
bancária, para depois deixar brecha para justificar na prestação de contas. Um
grande exemplo disso é aquela nota de R$ 600 mil do Maranhão. É muito simples
apurar. Não interessa para onde foi, mas, aquela nota se refere à compra do
quê? Por que não mostram a nota fiscal do que foi comprado com aquele R$ 600
mil? Disseram que foi um dinheiro de empréstimo, se esse dinheiro foi
emprestado, foi para comprar alguma coisa: comprar o quê? Uma outra mentira que
existe nessa história é que os equipamentos do hospital estavam sucateados. Isso
é mentira. Faltavam alguns equipamentos, mas os que estavam lá, salvo o tempo
parado, estavam em excelente condição. O que aconteceu foi uma festa a partir
da abertura do hospital envolvendo médicos e profissionais que usaram,
detonaram, estragaram, roubaram equipamentos do Ruth Cardoso. Toda tentativa de
organizar um modelo de gestão no Ruth Cardoso, na eminência da abertura ou logo
após, foi rechaçado por Marcos Roberto Romero Sanches, por M.F., José
Roberto Spósito, Luiz Fernando Brito... Porque eles não queriam contratar nada.
Teve quatro trocas de farmacêuticos porque eles não queriam que controlasse
remédios. Teve uma primeira compra enorme onde os remédios que foram comprados
não eram ideais para o atendimento do Ruth, de média complexidade. Eram
adequados para o atendimento do consultório das pessoas que estavam
interessadas em subtrair dali os medicamentos. A primeira compra de
medicamentos, se você pensar que todos os profissionais da saúde envolvidos
(gestor do Fundo, secretário de Saúde) sabiam que era um hospital de média
complexidade, foram alertados e continuaram com a compra, não tem como dizer
que não existiu dolo. [E disso sabia
tanto o gestor, quanto o secretário, quanto o presidente do Conselho?] Sim.
E fizeram juntos. Existia uma rotina de reuniões de M.F. e de Marcos Sanches
com Brito e Spósito. Eu coloco num patamar diferente disso o atual secretário,
o Rafael Schroeder, mas que cometeu o pecado do silêncio. Ele sabia. Mas nunca
o vi envolvido diretamente, querendo ter ele o benefício financeiro. Mas que
ele sabia, ele sabia. O cenário que ele pegou como secretário de saúde nunca
foi novidade pra ele. Então, essa demonstração de surpresa, de que ele vai ter
que arrumar a casa, isso é teatro! Não posso ser leviano de dizer que ele
colocou a mão em algum dinheiro ou que ele tinha interesse nos esquemas. Mas
saber que as coisas aconteciam, ele sabia. Agora, tanto o Brito, sempre como
menino de recados do Spósito, como o Spósito, que estava empolgado vendo que
podia fazer a festa, em vários momentos deu para perceber que eles estavam
interessados num esquema de benefício pessoal. E, para isso, fecharam um grupo
com Marcos Sanches e com M.F.. E aí era cordeiro assado, era
churrasco... Spósito e Brito falavam que podiam tudo porque eles eram da
maçonaria e a maçonaria mandava na cidade.
DIARINHO – Quanto aos atendimentos, existe um responsável pela situação
em que chegou o hospital?
João – Não existe desculpa para o
município de Balneário, porque o secretário de Saúde, o gestor do Fundo, o
presidente do Conselho, o prefeito, tinham que ter feito algo. É um hospital de
média complexidade em que estavam forçando a barra para se tornar de alta
complexidade por causa de interesse do secretário e do M.F.. Do ponto de
vista médico, o que acontecia ali, na direção do M.F.... A orientação não era
prestar um bom atendimento. O paciente era um detalhe para eles.
O
berço do esquema
Ao longo da entrevista, João fala inúmeras vezes do centro Integrado e Apoio Profissional
(Ciap) que, para ele, teria sido o berço do esquema que se instalou em algumas
filiais da Cruz Vermelha Brasileira. Em maio de 2010, a polícia Federal
deflagrou a “Operação Parceria”, que desarticulou um esquema fraudulento de
desvio de recursos públicos federais que deveriam ser empregados pela Oscip
(organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que tinha a principal
sede em Londrina/PR. Além da cidade paranaense, a operação se alastrou para os
estados de Goiás, São Paulo, Pará e Maranhão. Ao todo, foram expedidos 14
mandados de prisão temporária e 40 de busca e apreensão.
O esquema usava a Oscip para firmar parceria com prefeituras. Assim que os
projetos eram aprovados, sempre nas áreas da Saúde e Educação, a organização
recebia os recursos federais, numa movimentação média de R$ 130 milhões por
ano. A investigação conjunta conduzida pela controladoria Geral da União,
Ministério Público Federal e receita Federal, apontou que o Ciap fazia de tudo
para demonstrar que a verba estava sendo aplicada, conforme o contrato. Contudo,
descobriram que 30% dos recursos eram transferidos para uma conta
centralizadora. A desculpa era de que precisavam atender aos custos administrativos.
A operação estimou que os desvios irregulares passaram de R$ 300 milhões em
cinco anos. Depois que o dinheiro estava na conta centralizadora, valores altos
eram sacados sem identificação, outro montante era destinado a pagamento para
empresas que a investigação descobriu, na verdade, pertencerem a familiares e
pessoas de confiança dos responsáveis pelo Ciap.
No dia 30 de agosto do ano passado, a Justiça Federal condenou 12 dos 16
acusados de participarem do esquema de desvio milionário. Dentre os crimes,
peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Um dos que foi julgado é
quem, segundo João, é o consultor de Anderson Marcelo Choucino no esquema da
Cruz Vermelha: Fernando José Mesquita. Ele era responsável pela assistência
jurídica do Ciap e foi condenado a 15 anos e nove meses de reclusão em regime
fechado.
“Ele
se vale das situações agudas
para fazer os grandes desvios”

Anderson Marcelo Choucino - Foto: Cláudio Eduardo
DIARINHO - Como começou o esquema que se instalou na Cruz Vermelha e se
alastrou até Balneário Camboriú?
João – Esse esquema já estava
planejado desde o primeiro projeto feito com a Cruz Vermelha. Foi um esquema
herdado do Ciap. Basta pegar a história que já foi desvendada pela polícia
Federal, o modo de operação dos dirigentes do Ciap, a confusão que faziam na
conta corrente, o modelo de gestão financeira, a rotatividade das pessoas que
administravam os projetos – eles nunca deixavam um supervisor muito tempo num
projeto justamente para não perceber o que estava acontecendo. O esquema de
funcionamento desses desvios é sempre proteger os cabeças. Eles não aparecem.
Você não vai encontrar o cabeça desse esquema com uma conta no nome dele ou com
uma transferência para ele. Você vai encontrar para irmã dele, para o irmão...
As pessoas que estão aplicando este golpe em Balneário não escaparam à toa do
Ciap. Elas escaparam porque realmente são precavidas e estão antenadas nas
situações que podem gerar algum transtorno para elas. O que tem de errado? É a
repetição. Eles não tomaram o cuidado de diversificar as atitudes. Qualquer operação
mais esclarecida vai encontrar no passado exatamente o mesmo modo de agir. A
coisa de Balneário não é nenhuma novidade. E eles sabem direitinho quais são os
passos da CPI, quais são os passos da imprensa, e atuam nos bastidores para
silenciar, para abafar. O tempo gira a favor dessa quadrilha, porque as coisas
vão perdendo força, a revolta popular vai perdendo força. Então, eles têm que
aguentar o furor da revolta naqueles dois primeiros meses. Depois começa a
existir interesse político, derramam dinheiro aqui ou ali, mandam dinheiro para
um deputado, posam de bonzinhos para um vereador, abrem novo diálogo com um
executivo. E daí a coisa acaba perdendo força. E aí fica impune o desvio que
acabou ceifando vidas, desviando remédios, que estragou equipamentos... Isso
vem acontecendo há algum tempo e com quantias enormes de dinheiro. [Na Cruz Vermelha, o esquema começou logo
após estourar o caso do Ciap?] Começou. E uma boa parte da equipe que foi
originalmente para a CVB do Maranhão trabalhava no Ciap. Não julgo que essas
pessoas tinham a consciência que Anderson Marcelo Choucino fazia o que faz. Foram
também vítimas deste golpe.
DIARINHO – O Anderson Marcelo é o cabeça de todo o esquema, desde a
época do Ciap e, principalmente, na questão da CVB?
João – Na questão da Cruz Vermelha,
com certeza absoluta. Eu não posso te dizer, porque eu não vivi lá no Ciap, mas
eu tenho a clareza que o modo de agir dele lá foi o mesmo que na Cruz Vermelha
e que muita gente – não que fossem santos ou que não tivessem culpa, porque
isso a apuração da Justiça que demonstrou a vantagem pessoal que cada um teve –
pagou por ações de Anderson Marcelo.
DIARINHO – Como ele entrou no esquema, tanto do Ciap quanto da CVB?
João – Anderson Marcelo é de uma
família rica, o pai dele é um grande fazendeiro de Londrina, tem fazenda no
Mato Grosso. Lá com seus 20 anos de idade, foi presidente de uma associação de
moradores e agricultores em Londrina. E, já naquela época, ele envolveu essa
organização em campanhas para arrecadação de dinheiro e tentou transformar essa
associação em instituição de utilidade pública. Isso em 1995 ou 1996. Eu
imagino que desde essa época ele vem formatando essa ação que faz hoje. Ele deu
preferência por atuar no Terceiro Setor justamente porque tem uma fiscalização
mais condescendente. Eu acredito que um ser humano normal – e hoje eu não acho
que ele é uma pessoa normal – sempre vai imaginar que alguém, por mais picareta
que seja, vai ter um mínimo de princípio e não vai, por exemplo, roubar
dinheiro das pessoas que foram vítimas da enchente no Rio de Janeiro. Não é o
caso dele. Ele não tem escrúpulos. Ele se vale das situações agudas para fazer
os grandes desvios.
DIARINHO
– Notícia de 2010, da cidade de Sinop/MT, diz que quem apresentou a ideia da
Cruz Vermelha assumir a gestão de um hospital de lá foi um assessor de gabinete
da secretaria estadual de Saúde do Paraná, M.F.. Ele quem fazia esse
trânsito político?
João – M.F. tinha relação
com essas pessoas, com Anderson Marcelo e com Marcos Sanches, desde os tempos
do Ciap. M.F. foi consultor do Ciap para vários projetos que eles
fizeram. O golpe vem acontecendo há bastante tempo... E vem acontecendo com as
mesmas pessoas. Por que M.F. teve muito interesse em Balneário? Porque ele
estava no Paraná, era próximo dele. Mas ele participou de outros: foi para
Porto Velho/RO, ele esteve em Sinop, em todo o interior do Paraná, tentando
achar, com a bandeira da Cruz Vermelha, a oportunidade de aplicar o mesmo golpe
que aplicou com o Ciap, quando ele teve projetos na cidade de São Paulo, no
interior de São Paulo, no Rio de Janeiro. O M.F. sempre teve contato com
empresários que se envolvem em licitações. E o M.F. tinha medo que o nome
dele aparecesse em alguma coisa, era o mais medroso.
DIARINHO – O berço desse esquema então foi o Ciap, no Paraná, e dali
foram para as regionais?
João – Isso. Eu sei que a amizade
entre Anderson Marcelo e Marcos Sanches nasceu porque os dois entraram
praticamente na mesma semana no Ciap. Ao passo que Marcos, num determinado
momento, preferiu ficar onde estava, em Londrina, e Anderson foi para o Norte e
Nordeste, onde praticamente criou um império para o Ciap lá.
DIARINHO – Por que o dinheiro do Ruth Cardoso – conforme confirmado
pela movimentação bancária – era enviado para o Maranhão?
João – Porque era o local de moradia
e de escritório do Anderson Marcelo, que era o chefe da quadrilha e que mandava
em tudo. Toda a estrutura de escritório do Anderson Marcelo estava no Maranhão.
A presidente da filial do Maranhão [Carmem
Moreira Serra], assim como o Nício Brasil Lacorte faz hoje, fazia tudo que
o Anderson Marcelo mandava. Até que ela percebeu o quanto foi usada nessa
situação. Dou a ela o benefício da dúvida se estava envolvida neste envio de
recurso para o Maranhão. Sei dizer que Anderson Marcelo sim, porque no Maranhão
ele tinha tanto o escritório quanto o esquema para fazer os desvios: empresas,
os primos dele que faziam todos os pagamentos de lá, toda a estrutura que ele
tinha para fazer as maracutaias nos cartórios, gráfica... Está tudo no
Maranhão. [Alguma das empresas do
Maranhão que recebeu recursos do Ruth Cardoso prestou serviços em Balneário
Camboriú?] Nunca. Aliás, as empresas sempre foram utilizadas por Anderson
Marcelo para tirar o dinheiro dele. Ele apresentava uma nota de serviços para a
Cruz Vermelha, de um serviço que nunca tinha sido prestado, e tirava o dinheiro
dele disso. Isso em Balneário ficou escancarado. O sacador de tudo isso é ele. Ele
é uma sombra, é sagaz, é esperto. Só que ele tem cometido o pecado de atuar da
mesma maneira há muito tempo. Ele não mudou uma vírgula do golpe dele. O que me
faz questionar o real interesse que existiu até hoje em investigar este
cidadão. Normalmente ele é muito contido. Mas presenciei situações em que falava
uma frase que resumia bem, ele dizia: “todo mundo pode participar, todo mundo
pode fazer, mas só quem sabe a história inteira sou eu”.
DIARINHO – Anderson Marcelo era vice-presidente da CVB nacional e foi
expulso. Qual o motivo?
João – Ele começou a ser muito
pressionado, principalmente por conta do que tinha acontecido com os recursos
da campanha de doação que tinha sido feita na época das enchentes do Rio de
Janeiro – aquela tragédia que matou um monte de gente. A Cruz Vermelha recebeu
muito dinheiro nessa época. E Anderson Marcelo botou esse dinheiro no balaio
de gato dele. E isso foi um dos motivos que
levou a uma cobrança muito grande até que aconteceu uma assembleia
extraordinária da Cruz Vermelha onde ele foi execrado, porque não conseguiu dar
nenhuma explicação plausível do destino que foi dado para esse dinheiro. Somado
a isso, tinha a relação dele com uma pessoa que foi condenada no processo do
Ciap, que é o doutor Fernando José Mesquita, que é cunhado do Marcos Roberto
Romero Sanches. A hora que isso começou a vir à tona, ele começou a ficar numa
situação insustentável dentro da Cruz Vermelha, que vem lutando para se
reerguer. A Cruz Vermelha passou por processos de corrupção e, a partir do
momento que começou a estourar essas maracutaias, estourou a história do
Maranhão, ele começou a ser colocado na parede. Como ele não conseguiu
justificar nada...
DIARINHO – Com a saída dele da nacional, como e por que ele foi parar
na filial do Rio Grande do Sul?
João – Ele foi execrado, mas não
pela totalidade. Ele conseguiu abrigo em algumas filiais: a dos três estados do
Sul. [Por isso então foi firmado aquele
contrato de cooperação técnica entre essas filiais, que foi o documento que
validou a participação da filial gaúcha na licitação ao preencher o quesito
experiência em gestão hospitalar?] Aquele contrato já é uma gambiarra , porque é fato: a Cruz Vermelha do Rio Grande do
Sul não tem experiência em gestão hospitalar. [Fraudaram o processo licitatório?] Fraudaram. O processo
licitatório estava acertado. Tudo o que foi apresentado de documentação foi
orientado pela própria prefeitura. Um processo muito contaminado. [E de quem partia esta orientação da
prefeitura?] Que eu saiba, antes do hospital, Rafael Schroeder tinha uma
participação menor presenciando algumas coisas, muito fortemente o José Roberto
Spósito, mas não sei dizer quem da estrutura da prefeitura dava as informações
para M.F. e Marcos Sanches. Mas davam.
DIARINHO – Na diretoria do Maranhão permanecem as mesmas pessoas que
estavam em 2010, quando, segundo consta em ata, participavam familiares de
Anderson Marcelo?
João – Não. A presidente rompeu com
Anderson Marcelo, pelo que sei. Então, ela trocou toda a diretoria. Anderson
Marcelo nega qualquer envolvimento na Cruz Vermelha. Um grande mentiroso. No
Maranhão eram todas pessoas ligadas a ele, pessoas que não davam um passo sem
perguntar a ele. [Quando Anderson
Marcelo ainda estava na nacional, ele já tinha esse contato com a filial do Rio
Grande do Sul?] Foi Anderson Marcelo que escolheu qual filial que iria
participar em Balneário. E por que ele não colocou a filial do Maranhão? Porque
a do Maranhão não tinha documento em ordem, não tinha certidão negativa de
débito, não poderia se candidatar. [A
gaúcha era a mais limpa?] Documentalmente. Era a que ele conseguiria com
poucas fraudes colocar no processo.
DIARINHO – Quais médicos eram do esquema e como funcionava?
João – O médico do esquema dentro do
hospital era o M.F.. E prostituiu muito a relação com os médicos:
ofereceu vantagens por fora, negociou sem autorização superior, valores,
procedimentos. Num primeiro momento, M.F.esteve muito próximo de Spósito. O
primeiro diretor clínico foi um consenso dos dois. Teve uma situação que foi
muito emblemática. Às vésperas de abrir o hospital, definiram que o médico
Milton Santoro ficaria com uma das clínicas e, quando o nome dele surgiu, um
promotor entregou um dossiê que existia contra ele, dando conta que ele fraudou
(não exame como estava acontecendo no Ruth), cirurgia para pacientes que não
precisavam. O promotor, naquela época, teve o interesse de dizer “olha, eu
estou mostrando para vocês terem cuidado com essa pessoa e ver se querem mesmo
essa pessoa no hospital”. E quando foi apresentado este fato para o M.F., ele
leu o dossiê e disse “desse cara é que eu preciso!”. E depois esse médico virou
diretor no lugar do M.F..
DIARINHO – Dentre as notas de prestação de contas, a dos médicos consta
apenas “prestação de serviços”, ou cobrança relativa ao trabalho de 30 dias por
mês, 24 horas por dia. É o procedimento?
João – Isso foi feito sob orientação
do M.F. e proteção do Marcos Sanches, que é quem tinha procuração para fazer
movimentação financeira. Sanches trouxe o próprio genro, que é um menino, que
trabalha no escritório daquele advogado condenado pelo Ciap que é cunhado do
Marcos. Esse advogado, que é funcionário do Fernando José Mesquita, foi levado
ao hospital para fazer contato com os médicos, isso em novembro, com o hospital
mais de um mês funcionando. Essas notas entraram depois, e entraram para
encobrir o que foi feito. [O M.F. tinha uma equipe que vinha com ele do Paraná?] Não, era ele sozinho. Ele
vinha e cooptava todos. Ele já tinha indicação política. Ele não chegou na cara
dura em Balneário. Ele chegou indicado, com um caminho já traçado. [Ele era quem tinha maior participação
política, então?] Foi ele quem arrumou o projeto. [E o Marcos Sanches, continuou atuando no Ruth Cardoso?] Ele
continuou e até um mês atrás estava em Balneário numa cobertura alugada pela
Cruz Vermelha. Quem alugou essa cobertura para ele foi uma pessoa indicada pelo
Rafael Schroeder. Ele continua no esquema e, mais do que isso, foi ele quem
apresentou o projeto do hospital, pela Cruz Vermelha de Santa Catarina, para o
município de São Francisco do Sul. E que está agora, neste momento, negociando
para o hospital de Biguaçu. [Por que não
mais com a CVB gaúcha?] A presidente da filial de Santa Catarina, Rosângela
Zavarizzi, é hoje a pessoa que está magnetizada pelo Anderson Marcelo. Hoje ela
ocupa o cargo que foi de Carmem, que foi de Nício... Ela é a bola da vez. É por
aí que o esquema está seguindo. [E
quanto ao Nício?] Ele caiu no conto do vigário. Não acho que seja ingênuo.
Já percebeu, mas está preso na teia de Anderson Marcelo. A meu ver, assumiu uma
estratégia errada, que foi de assumir pra si e defender para tentar salvar a
filial.
Participações no município, segundo João:
• Ex-secretário de Saúde, José Roberto Spósito:
“Além de ter absolutamente 100% de influência em tudo que aconteceu, de estar
‘casado com M.F. nas coisas que aconteciam, de estar muito próximo com Marcos
Sanches, de fazer almoço, jantar... Além disto, ele tinha todo o serviço de
diagnóstico por imagem, que ele colocou um laranja mas quem respondia por toda
essa parte era ele. No começo, M.F. abriu a boca sobre isto, disse que a
parte de imagem já estava acertada: era do Spósito. Tudo que era imagem:
raio-x, ultrassonografia, tomografia... Ele disse que já era do Spósito. Tanto
que o índice de realização de exames de imagem nos pacientes que entravam no
pronto-socorro no primeiro mês era coisa de 90% dos que passavam lá tinham que
fazer um raio-x. E sem propósito”
• Presidente do Comus, Luiz Fernando Brito:
“É o menino de recados do Spósito. O Brito era o ponto de cruzamento de todas
as figuras, era quem chamava para churrascos... Ele não tinha sala dentro do
hospital porque ficava o tempo inteiro na dos diretores, que era o que queria,
para saber o que estava acontecendo. [Foi
Brito quem disse “faz uma nota num valor alto que na comissão eu dou jeito de
aprovar a prestação de contas”?] Isso é verdade. Realmente existiu. E foi
daí que surgiu esse argumento do empréstimo. Eu não sei dizer se isso foi uma
ideia do Brito ou se ele assumiu um discurso do Sanches e do Anderson Marcelo. Eu
sei dizer que o beneficiário foi o Anderson Marcelo. [Existia esquema para que empresas que não pagassem propina não
recebessem?] Isso é parte desses golpes do Anderson Marcelo, do Sanches e
desse pessoal todo: recebe quem entra no esquema”
• Gestor do Fundo e atual secretário de Saúde, Rafael Schroeder:
“Não vejo que ele tenha interesse financeiro nisso. Ele não é da quadrilha de
baixo nível de desfalque roubando remédio de doente. Mas existe uma nuvem no
comportamento dele por saber que ele tinha conhecimento das ações do Brito, do
Spósito, dos esquemas do Marcos Sanches, do M.F., e ficou quieto. Ele ficou
em silêncio, se beneficiou em ser escolhido o substituto do Spósito. Mas não
vejo ele com a mesma ganância que todos os outros tinham. O pecado dele foi o
silêncio, foi ser conivente”
• Ex-gerente de Compras do hospital, Carmem Nascimento:
“É uma das coisas que me faz questionar o Rafael, porque era amiga dele, pessoa
recomendada e que ele fez pressão para a contratação. E foi justamente a pessoa
que engatou com Marcos Sanches e abriu a porta para todos os desvios que
aconteceram ali. E tiraram ela de cena quando a coisa degringolou e ela foi de
novo pra debaixo da proteção da prefeitura”
• Prefeito Edson Periquito:
Desde o início, sempre cobrou um bom atendimento, que as pessoas fossem bem
tratadas. Como Rafael teve o pecado do silêncio, Periquito teve o do interesse
político. Ele fez pressão e botou goela abaixo pessoas que eram do interesse
dele que estivessem lá. [E estas pessoas
interfeririam de alguma forma na questão administrativa dentro do esquema?]
Uma ou outra, porque Carmem, por exemplo, foi uma imposição. Mas grande parte
das pessoas, apesar da vinculação política, estava lá para trabalhar. A
intenção era indicar o pessoal dele. É errado? É. Mas perto de tudo que estava
acontecendo, isso era nada. E não foi algo isolado dele. Do mesmo jeito que ele
mandou as pessoas que queria, o Spósito fez a mesma coisa, o Rafael também. E
existia um racha entre o Periquito e o Spósito. A grande situação envolvendo os
dois era o interesse na próxima eleição. O Spósito tinha o sonho de conseguir
criar uma situação política tão grave para o Periquito que inviabilizasse a
reeleição dele. O sonho do Spósito era ser prefeito!”
“A
nota de R$ 600 mil nunca existiu”
Rafael Schroder garante
que não sabia de nada. Quanto à acusação de que indicou a ex-gerente de
Compras, Carmem Nascimento, também nega. Conta que ela era uma servidora na
secretaria de Saúde e que foi convidada pela Cruz Vermelha para trabalhar na
unidade justamente por conhecer muitos fornecedores. “Ela recebeu proposta
melhor e decidiu ir. Foi uma opção dela. Se nós realmente tivéssemos
interferido na contratação, colocado gente de confiança lá, a situação não
teria chego a esse ponto”, justificou o secretário, isentando o município da
acusação de que indicou funcionários para atuar no Ruth Cardoso. Carmem
confirma que pediu exoneração da prefeitura para encarar o desafio no hospital,
principalmente por causa do salário.
Além disso, Rafael disse que, depois de seguidas denúncias de mau atendimento,
ficou em alerta. E ficou ainda mais intrigado quando o conselho Municipal de
Saúde (Comus), que é presidido por Luiz Fernando Brito, apresentou parecer
aprovando as contas do hospital. “O Comus nunca analisou minhas contas do Fundo
alegando que não tinham estrutura. Como é que fizeram isso com a do hospital?”,
indagou o secretário – que assumiu o posto deixado por José Roberto Spósito em
30 de março deste ano.
Brito também se isenta de qualquer culpa. “Se existir algum erro financeiro por
parte da Cruz Vermelha, e eu como membro da comissão não vi, não vou defender
erro de desvio financeiro de ninguém”, ressaltou. Ele negou ter participado de
qualquer jantar com a diretoria da Cruz Vermelha pago com dinheiro público e de
ter tirado qualquer vantagem por ocupar a presidência do Comus. Quanto à nota
de R$ 600 mil da CVB/MA, assume ter participação. “O repasse já existia. O que
foi discutido é que não havia como analisar passagens aéreas, quanto ganhou
cada um... Por isso só apresentar a nota global que no teor tivesse isso
escrito”, defendeu.
Carmem conta que Brito estava quase todos os dias no hospital, pedindo,
inclusive, acesso às notas fiscais. Entretanto, ele mesmo assume que depois da
intervenção do município, mesmo ainda sendo presidente do Comus, não pisou mais
na unidade. Como gerente de compras desde agosto – dois meses antes da abertura
do Ruth Cardoso – Carmem assegurou nunca ter visto o tal documento fiscal. “A
nota de R$ 600 mil nunca existiu. Diziam que era para implantar o sistema
informatizado. Esse sistema não existe até hoje”, destacou. Carmem ainda
confirmou que a contratação da equipe médica era feita por M.F. e que
as contas eram pagas pelo Rio de Janeiro e que quem operava a movimentação era
um assessor de Anderson Marcelo Choucino, que ainda estava na vice-presidência
da Cruz Vermelha nacional.
Quanto à participação de M.F. e Marcos Sanches no hospital municipal, o
presidente da filial gaúcha da Cruz Vermelha, Nício Brasil Lacorte, diz não
haver vínculos entre eles e a entidade. Apenas Anderson Marcelo é ligado à
organização por ter participado da diretoria no Rio de Janeiro. “Anderson
Marcelo é do movimento, ex-vice-presidente nacional (ainda sub judice). O órgão
central da Cruz Vermelha estava presente com a filial do Rio Grande do Sul
nesse projeto de Balneário Camboriú. Agimos orientando e buscando a construção
de um diálogo mais efetivo com a municipalidade. M.F. é médico no
hospital, não é do movimento de Cruz Vermelha, nunca fez parte da direção da
instituição, e Marcos Sanches foi um colaborador na implantação do projeto e
recebeu por isto”.
“Não
temos que proteger nenhum criminoso”

Depoimento de Spósito na CPI - Foto: Cláudio Eduardo
Depois de dois meses de trabalho, a comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que
investigou as irregularidades na administração do hospital Ruth Cardoso
finalizou a fase de depoimentos. Na última sexta-feira, às 19h, o relator
Marcos Kurtz (PMDB) concluiu o relatório e protocolou na câmara. Amanhã deve
entrar na pauta o texto para que os vereadores possam, caso achem necessário,
apresentar emendas e, por fim, aprovem o documento produzido pelo inquérito
legislativo.
“No relatório apontamos tudo que foi apurado e que teve provas. A quebra do
sigilo bancário, por exemplo, nos ajudou a esclarecer muitas coisas. Valeu mais
os documentos do que os depoimentos”, comentou Kurtz, que também é líder da
base governista. Mesmo assim, garante que não misturou as funções e que o
relatório não vai excluir quem merece ser punido. “Apontamos os nomes de quem
estava envolvido. E a conclusão é que teve desvio de finalidade do gasto do
dinheiro público”, adiantou.
O presidente da CPI, Claudir Maciel (PSD), disse que espera que nenhum nome
seja poupado no relatório da comissão. “Espero que haja imparcialidade
política, porque não temos que proteger nenhum criminoso”, salientou o vereador
– que compõe a bancada de oposição. Claudir defende que os envolvidos respondam
criminalmente. “A conclusão é que se instaurou uma quadrilha no Ruth Cardoso
com a finalidade de obter lucro com o sofrimento do povo”, finalizou o
parlamentar.
Reportagem publicada no jornal Diário do Litoral - DIARINHO
em 25 de junho de 2012