segunda-feira, 26 de novembro de 2012

TIJUCAS - onde morar de frente para o mar é sinônimo de pobreza


MAR DE LAMA
Onde morar de frente para a praia é sinônimo de pobreza


Por Cláudio Eduardo
Fotos: Flávio Tin

No mapa de belas praias de Santa Catarina, Tijucas é um ponto escuro. A cidade – que pertence à Grande Florianópolis – contraria os demais municípios litorâneos do estado em que morar de frente para o mar é sinônimo de poder. Um fenômeno social causado pelo meio ambiente: de frente para a praia (que, cheia de lama, não é própria para banho), quem mora é pobre. Hoje já é possível encontrar casas mais caprichadas entre as que se enfileiram na via paralela à orla. Contudo, os barracos erguidos sobre as áreas invadidas ainda predominam. A ordem das construções é completamente oposta à dos balneários vizinhos.



Como crer que, num estado de litoral turístico feito Santa Catarina, um aposentado que recebe apenas um salário mínimo tem o privilégio de ver, da janela de casa, o pôr do sol refletido na água sem nenhuma barreira atrapalhando a vista? O pescador aposentado Gelci da Costa Amaral, que deixa o nome de batismo apenas para os documentos, se sente um privilegiado. Banga, como se apresenta, tem 68 anos e mora com a mulher e um filho numa casinha – já de alvenaria e cheia dos caprichos – de frente para o ponto em que o mar se esbarra com o rio Tijucas. E jura que não troca de endereço. Prefere a simplicidade ao asfalto da parte central do município.
“Faz uns 15 anos que mudei para a praia. Tinha pouco dinheiro, e só dava para comprar terreno aqui. Era isso ou ficar no aluguel”, conta. Além de fugir dos preços inacessíveis para o bolso de quem recebe apenas o suficiente para sobreviver, Banga conseguiu conquistar o prazer da vida de aposentado de frente para o mar. Para ele, a lama não é impedimento nas pescarias de tarrafa. “É o que eu faço para passar meu tempo. Eu mesmo faço a tarrafa e depois já posso ir ali testar. Aqui é uma maravilha”, destaca.
Tem morador que, há cinco anos, pagou apenas R$ 3 mil por um terreno de frente para a orla. Essa facilitação do preço baixo, logicamente, ressalta um ponto negativo daquela área: o aumento descontrolado na densidade demográfica, que dá espaço para a violência. Mesmo assim, Banga reluta. Acredita que, na simplicidade e no sossego, conseguiu criar um paraíso particular. “A gente sabe que tem muito bandido, mas para poder viver bem, tem coisas que temos que deixar passar despercebido”, afirma, vigiado de perto pela mulher, que apenas concorda com as respostas do marido com sorrisos orgulhosos e gestos de aprovação.

Condomínio de casas populares bem pertinho do mar? Só em Tijucas!



Acredite. Em Tijucas, famílias retiradas de área de risco ganharam, há três anos, casas na praia. A aposentada Maria dos Santos Fagundes Souza curte os 69 anos de idade na calmaria de um conjunto habitacional feito por um projeto social entre a prefeitura e o instituto Ressoar, da Rede Record. Ela morava em um bairro do interior do município. Mas, com a casa condenada pela Defesa Civil, recebeu, em setembro de 2009, um novo lar. E de frente para o mar. “Nunca imaginei que moraria tão perto da praia. Muito menos ganhando a casa”, comenta, garantindo que está mais que satisfeita com as surpresas da vida. Hoje, onde ela mora, consegue driblar o calor do verão com o vento que vem direto do mar. E não nega ter a vida que, anos antes, nem ousara sonhar.
Enseada é um paraíso esquecido

Tijucas/SC - População estimada: 32.087 PIB per capita: R$ 18.425,83 Incidência de pobreza: 29,45%


De ponta a ponta, a praia de Tijucas tem quase 13 quilômetros de extensão – mais que quatro vezes o tamanho da praia Brava de Itajaí, por exemplo. Mas apenas ao longo de três quilômetros há casas. Da areia, é possível avistar ao longe, numa cruel ironia àqueles que vivem de frente para o mar lamacento, o verde da água. Ainda, é possível visualizar os morros das praias vizinhas, que são pontos turísticos disputados no verão (enquanto Tijucas continua desprezada, por não ter condições de balneabilidade): Governador Celso Ramos, Porto Belo e Bombinhas. Fora a ilha do Arvoredo, num horizonte bem distante.
E justamente os paraísos que rodeiam que são considerados parte das causas de tanta lama. O professor do curso de Oceanografia da Univali e doutor em Geologia Marinha, João Thadeu de Menezes, estuda a região desde 2004. Ele explica que o rio Tijucas deposita grande quantidade de sedimentos finos no mar – como qualquer rio daquele porte. Contudo, a diferença está na geografia. Por estar completamente circulada por morros, a praia de Tijucas não consegue receber ondas influenciadas pelos ventos, que seriam a energia para rebater a deposição dos sedimentos finos. E, por ser uma enseada completamente fechada, a lama estaria se acumulando ao longo de mais de cinco mil anos. Menezes diz que, numa medição feita para o estudo da área, concluíram que a camada de lama tem 17 metros de profundidade.
Junto com a explicação, vem a triste notícia para os que têm esperança de que um dia a praia ficará própria para o banho. “Não há como mudar. É a característica natural do ambiente. Existe a possibilidade de tirar a lama? Não sei, talvez alguma tecnologia da engenharia possa fazer isto. Mas a característica do ambiente é a deposição de lama. Se tirarem, um dia vai voltar”, afirma o especialista.
Planície rara no país
De acordo com Menezes, a característica do mar se estende, na verdade, da planície terrestre do município. Ele diz que, no Brasil, só há uma praia do Norte com a mesma característica de Tijucas, que classifica como Planície de Chenier. “Basicamente, as árvores só crescem enfileiradas aos cordões arenosos. Na praia, essa parte de areia fica mais evidente: são 300 metros de lama, depois uns 50 ou 100 metros de areia, depois mais 300 metros de lama... E assim por diante”, explica o especialista. Ele ainda ressalta que não basta criar um molhe para conter os sedimentos finos. A praia de Tijucas está condenada pelas características da superfície. “É a dinâmica do meio ambiente. Deveriam, sim, pensar no rio, que transporta muita sujeira, e também na criação de políticas públicas para a limpeza da praia”, aconselha. Como o mar não é próprio para banho, ao longo dos anos há quem encare a orla como depósito de dejetos: jogam lixo e até animais mortos, evidenciando ainda mais o abandono de uma enseada que, não fosse a lama, inverteria o mapa urbanístico da cidade.

Projeto de construção de molhes prevê gasto de R$ 26 milhões



Entre os moradores de Tijucas, a praia tem nome. Numa alusão irônica à carioca Copacabana, chamam a versão lamacenta de “Copalama”. Tão velhas quanto o apelido são as promessas de limpeza do mar, que aumentam a esperança dos tijucanos de, um dia, crescerem a partir do turismo de verão, como os municípios vizinhos. Contudo, nenhuma promessa com relação à enseada saiu do papel até hoje.
No entanto, pelo que diz o prefeito Elmis Mannrich, há projetos mais perto de chegarem à execução. “Temos encaminhado o desassoreamento do rio e o projeto de afixação dos molhes, inclusive com licenças prévias”, comenta. O orçamento para que a obra saia está na casa dos R$ 26 milhões. O prefeito garante que o projeto já está inscrito em dois Ministérios e que, como a arrecadação do município é pequena, está atrás de apoio dos governos federal e estadual para que vire realidade.
Mesmo com a execução do desassoreamento do rio Tijucas e com o molhe, Mannrich não arrisca afirmar que o município terá um mar próprio para banho. “Uns dizem que não tem jeito. Outros dizem que, com o molhe, uma parte da praia ficará boa para banho. O projeto é para beneficiar o tráfego no rio. Quanto à praia, só depois da obra executada para saber se teve ou não algum impacto favorável”, explica o prefeito. Independentemente da qualidade da água, ele promete a revitalização dos arredores. “O projeto contempla a orla, com urbanização de parte da praia, que hoje é uma área muito feia”, reconhece.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ataques e mortes em Tijucas e Itapema


Microempresário de Tijucas perdeu o único ônibus da empresa

Dos 22 ônibus incendiados esta semana no estado, três foram numa mesma noite e em menos de duas horas


Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Flávio Tin
Reportagem publicada no jornal Diarinho de 16/11/2012





Desde o começo da semana, 22 ônibus foram alvo de ataques em Santa Catarina. Nesta lista, três são de Tijucas, todos numa mesma noite e em menos de duas horas. Ontem os veículos incendiados atraíram curiosos. Quem passava dava uma paradinha para ver o estrago. Outros, menos discretos, faziam questão de fotografar a desgraça.
O último dos três ônibus a ser alvo de atentado estava estacionado na rua Justino Soares, no bairro da Praça, bem ao lado da escola municipal Deputado Walter Vicente Gomes. Era por volta das 23h de quarta-feira quando o dono do veículo soube que haviam atacado outros dois ônibus na cidade. Quando pensou em ir tirá-lo da rua, já viu as chamas. De acordo com a esposa dele, a costureira Djane Letícia Vill, 20 anos, o fogo era tanto que o marido chegou a tentar fazer algo, mas ficou sufocado com a fumaça e teve de esperar pelos bombeiros.
“Ele está sem chão no momento. Não dormiu a noite toda... Mas vai conseguir tudo de novo!”, acredita Djane, que não quis acordar o marido ontem à tarde pra falar com o DIARINHO, justificando que, enfim, ele tinha conseguido dormir. E o desespero dele é justificado. O ônibus da Rony Tur ficou completamente destruído. Os bombeiros usaram três mil litros de água pra conter as chamas, mas o veículo já estava detonado. “Quando eu vi na internet que já tinham colocado fogo em um, ele pensou em levar o ônibus pra outro lugar, só que eu não deixei porque fiquei com medo que eles tacassem fogo com ele dentro”, conta a costureira. Na firma de Rony, esse era o único ônibus e ele usava pra transportar funcionários pra uma empresa de malhas no bairro Nova Descoberta. E não tinha seguro.
Outros dois...
O segundo ônibus atacado não sofreu muito estrago. Era um da empresa Juliva, que estava estacionado na rua 13 de maio, no centro de Tijucas. Deu tempo de moradores apagarem as chamas antes que se alastrassem. Depois, foi levado pro pátio da empresa.
Em compensação, lá pelas 21h30 de quarta-feira, o primeiro veículo atacado em Tijucas ficou na carcaça. O ataque foi no final da rua Alvina Simas Reis – que fica próximo a dois pontos considerados perigosos pela polícia: o Casarão e o Jardim Progresso. Pra conter as chamas do ônibus de transporte escolar da prefeitura de Porto Belo, os bombeiros usaram 3,5 mil litros de água. Mas o fogo já havia destruído o ônibus. Uma carreta que estava estacionada ao lado teve a pintura e os para-lamas danificados.

PM prende suspeito com três bananas de dinamite e diesel um dia após ele sair do presídio



Na manhã seguinte aos três atentados que deixaram a população de Tijucas assustada, a polícia Militar conseguiu prender um suspeito de ter participação desta onda de ataques. Robson Willian Oliveira, 22 anos, foi preso menos de 24 horas depois de ter sido solto do presídio de Tijucas. Com ele foram encontrados uma garrafa pet com óleo diesel e três bananas de dinamite. Ontem à tarde ele foi encaminhado pro presídio da Canhanduba, em Itajaí. Na delegacia, ele não assumiu participação nos atentados e nem revelou o que fazia com os explosivos em casa.
De acordo com a PM, uma viatura fazia rondas na localidade do Jardim Progresso quando achou um homem suspeito. E o cara resolveu fugir ao avistar os policiais. “Nós fomos atrás dele, porque não era normal estar fugindo. Mas quando entramos, nos deparamos com o Robson. Fomos averiguar e encontramos o diesel e as bananas de dinamite escondidas num armário”, comenta um dos soldados envolvidos na prisão, que aconteceu por volta das 9h30 de ontem. Os policiais ainda encontraram um aparelho de celular com mensagens e números de telefones que consideraram suspeitos – que serão investigados pela polícia Civil. Robson tem passagem por tráfico e roubo.


PRIMEIRA MORTE
Tacou fogo na Praiana, trocou tiros com a PM e acabou no IML

Dupla de bandidos parou um ônibus, mandou os passageiros descerem e atearam o fogo. Confusão rolou em plena luz do dia, em Itapema

 



Itapema estava, até ontem à tarde, na lista de cidades da região que tinham ficado de fora dos atentados. Nenhum veículo tinha sido queimado. Nenhum tiro tinha sido disparado. Contudo, às 16h, isto mudou. Dois homens armados abordaram um ônibus, jogaram gasolina sobre o motorista, expulsaram os passageiros e tacaram fogo no buso. Depois, na perseguição com a polícia, rolou troca de tiros. Um deles foi atingido por dois disparos, levado ao hospital e morreu pouco depois. O outro conseguiu fugir por um matagal. O motorista, apesar de ter ficado em estado de choque, saiu ileso. Foi a primeira morte nesta guerra declarada que começou no início da semana.
Um ônibus da Viação Praiana seguia pela rua 406, no bairro Morretes, rumo ao Sertão do Trombudo. Além do motorista, seis passageiros estavam no veículo quando uma moto escura os interceptou e, armados, ordenaram que a porta fosse aberta. Depois, mandaram todo mundo sair, enquanto uma arma era apontada pra cabeça do motorista. A dupla começou a encharcar os bancos com gasolina. E, pra aterrorizar ainda mais, ensoparam o motorista com o combustível. Ele só não se machucou porque fugiu tão logo eles acenderam o fogo dentro do ônibus.
De acordo com o gerente de tráfego da Praiana, Aldo Mário Leite, o motorista teve de ser levado para o hospital de Itapema por duas razões: tinha passado mal com o cheiro da gasolina e também estava em estado de choque. “O que fizeram com ele foi um terrorismo. Ele pensou que ia morrer”, comenta. Aldo diz que o ônibus não ficou completamente detonado porque um homem que morava perto de onde aconteceu o atentado tinha um jato d’água e controlou as chamas antes que se alastrassem. Mesmo assim, fez estrago na parte da frente do veículo. “Os motoristas estão assustados. Acho que sem um policial dentro do ônibus não vamos poder trabalhar. Paralisação total é uma possibilidade”, afirma o gerente de tráfego.
Perseguição e tiros
Logo depois do atentado, a polícia Militar saiu em perseguição à dupla, que fugia numa moto Honda CG 150 cinza escuro. Num determinado ponto da rua 406 B, começou a troca de tiros. O vidro traseiro de uma das viaturas foi estilhaçado, além de alguns furos atingirem a parte da frente. Mas nenhum policial foi atingido. Em compensação, um dos homens que fugia levou dois tiros: um no antebraço e outro no peito. Com a rua lotada de curiosos, começaram a chegar mais viaturas da PM e, por fim, ambulâncias do corpo de Bombeiros. O carinha chegou a ser levado pro hospital de Itapema, entretanto, morreu pouco depois. Foi a primeira morte no estado por causa dos atentados desta semana.
Mais tarde, a polícia identificou o homem que morreu na troca de tiros. Era Jeferson Belo. Segundo informações da delegacia, apesar de ter apenas 23 anos, o rapaz tinha uma ficha de veterano do crime, com passagens por presídios de vários municípios catarinenses, quase todas as vezes por roubo. Jeferson era natural de Foz do Iguaçu/PR, mas morava em Itapema. O corpo foi levado no fim da tarde pro instituto Médico Legal (IML) de Balneário Camboriú.
Conseguiu fugir...
O outro homem que teria participado do atentado à Praiana conseguiu fugir. Pouco depois que o corpo do comparsa tinha sido levado pro hospital, a polícia foi pra um matagal no bairro Morretes onde o foragido teria se escondido. Não acharam o cara, mas encontraram a moto da fuga lá, abandonada. Minutos depois descobriram que era roubada. Pertencia a um mototaxista do bairro que tinha sido assaltado à mão armada fazia uns 15 dias. As buscas pelo foragido continuaram naquela região. Até ontem à noite, ele não tinha sido detido.

PM mata dois suspeitos de tramarem vingança contra policiais
A morte de um envolvido nos atentados em Itapema, ontem à tarde, teria motivado mais duas mortes ontem à noite, só que na vizinha Tijucas. Os serviços de inteligência das polícias Militar e Civil receberam denúncia, pelas 21h, de que dois homens estavam indo pra Itapema com a missão de vingar a morte de Jeferson Belo. O alvo seria qualquer policial militar – não necessariamente o mesmo que atirou no rapaz que foi pro além depois de tacar fogo num ônibus da Praiana. E passava das 22h quando dois suspeitos foram mortos pela polícia, após troca de tiros.
De acordo com informações do comando estadual da PM, os militares do município estavam fazendo abordagens junto com o grupamento de Choque de Floripa, no loteamento Jardim Progresso, quando foram parar a dupla – que não tinha sido identificada. Eles teriam reagido e disparado contra os policiais. Nenhum fardado foi atingido. No entanto, os dois suspeitos sim. Um morreu no local, outro no caminho pro hospital. Os corpos foram pro IML de Balneário Camboriú.
O delegado Weidson da Silva disse que aguardaria ter a identificação da dupla para, então, poder analisar se havia relação deles com os atentados ou se eram apenas criminosos foragidos que se sentiram acuados e, portanto, reagiram. “Não sei se tem vinculação direta com os ataques. Mas sei que naquela localidade tem muitos egressos do sistema prisional ou foragidos. Podem ter se sentido ameaçados”, avalia.

sábado, 6 de outubro de 2012

VAI VOTAR POR QUÊ?


Candidato de mentira flagra eleitor que vende o voto em Itajaí


“Quem me ajudar, eu ajudo”, disse o eleitor, que já admitiu ter ganho um poste de uma candidata, mas que estava disposto a mudar o voto por uma carrada de barro





Por Cláudio Eduardo
claudio@diarinho.com.br



Quer pagar quanto? Entra eleição, sai eleição, e a compra de voto está em pauta. Nas mesas de bar, uns falam orgulhosos: “se me pagar, eu voto”. Há os que não querem dinheiro, mas usam o voto como barganha por cargos públicos ou vantagens. E muitos dos candidatos já traçam toda a estratégia de campanha pensando em como usar do poder econômico para se darem bem nas urnas. Por isso tudo, não são raras as denúncias de compra de votos estampando as páginas dos jornais. Entretanto, cabe um questionamento: a culpa é só do político?
Para olhar este assunto de um prisma diferente, o DIARINHO criou um candidato falso para – misturado aos 267 candidatos a vereador devidamente registrados em Itajaí – ir às ruas pedir votos. Devidamente munida com material de campanha, a equipe escolheu uma via na região da Fazendinha para abordar possíveis eleitores. E numa saída de apenas 10 minutos, encontrou três casos bem distintos e que demonstram as diferentes posturas do eleitor, que não é algo exclusivo de Itajaí. Se algum candidato ler esta reportagem, vai pensar: “isso não é nada! Já vi coisa muito mais emblemática”. E com certeza deve mesmo ter visto.
Na primeira abordagem, parecia que a tão repetida tese de que o eleitor se corrompe iria cair. O “eleitor 1” olhou as propostas expostas no santinho. Foi além. Demonstrou curiosidade sobre o partido (o PMN – Partido do Movimento Social – inventado pela reportagem para não se apropriar de sigla já existente) e ainda questionou o fato do candidato não ter apresentado coligação apoiando algum dos três prefeituráveis do município. Numa investida da equipe para saber se ele queria algo, comentou o que o bairro precisava: segurança e atenção aos problemas de trânsito. E resistiu mesmo quando a pergunta foi mais direta: “o senhor ou alguém da sua família não precisa de nada?”. Foi exemplar.
Na segunda casa, a equipe disfarçada foi atendida por um senhor que estava trabalhando. Ele recebeu p material, ouviu o pedido de voto e apenas informou que morava havia pouco tempo na região e, portanto, não votava em Itajaí. Contudo, revelou que o domicílio eleitoral dos três filhos e da esposa era no município. Pediu que o candidato passasse outra hora para conversar com a família. Questionado sobre a possibilidade de colocar placas na frente da casa ou de botar adesivos no carro, disse que não faria isso porque trabalhava em algo ligado ao público e não gostaria de demonstrar compromisso com nenhum político para não espantar os clientes.
Metros depois, um homem que trabalhava na frente de uma residência – o “eleitor 2” – não demorou muito para soltar um “quem me ajudar, eu ajudo!”. E abriu no diálogo a brecha para dizer o que queria em troca do voto. Ele afirmou que já havia ganho um poste de outra candidata. Mas reforçou que o voto era secreto e, portanto, estava disposto a não ser fiel à pessoa que já o tinha pago. Só que, para isso, também tinha um preço: queria uma carrada de barro. Além disso, informou que tinha um vizinho que também precisava de um poste. Seria mais um voto que garantiria ao aspirante de parlamentar. Entretanto, nem o “eleitor 2” e nem o vizinho ganharam algo do falso candidato – que também não iria ganhar o voto. Sem contrapartida, nada feito!

Material feito em menos de meia hora




Tão rápido quanto os 10 minutos da saída para ouvir os três eleitores foi a preparação do material de campanha. Em menos de meia hora deu tempo do fotógrafo fazer o clique do falso candidato; do arte finalista do DIARINHO criar o logotipo do partido e produzir o santinho; e, neste processo, o mais rápido foi a criação das propostas da coligação – também inventada – “Mais, melhor e para todos”.
Da mesma forma que muitos candidatos fazem ao se lançar na campanha, a reportagem ficou nas generalidades. Porque ver se algo é viável se, para o momento, só o que quer é impressionar o eleitor e conquistar o voto? Propostas com verbos “lutar”, “apoiar” e “fiscalizar” parecem fortalecer o material – mesmo que, na prática, a luta e o apoio não possam ser medidos e a fiscalização seja uma obrigação. E há ainda o “criar”. Que, no caso específico do candidato do DIARINHO, se apropriou de um assunto que esteve recentemente na mídia para incrementar no discurso político: as capivaras no Saco da Fazenda, com a promessa de criar uma área de proteção aos roedores.
Como o candidato não existe, as propostas não vão sair do papel. Não se depender da eleição dele. Contudo, se algum dos políticos da região se interessar, pode sim se apropriar de qualquer uma das ideias. Só não pode se apoderar se for apenas para ludibriar o eleitor. Disto, o povo já está cheio.



Olhou, questionou e ficou de analisar as propostas



Assessoria: O que o bairro tá precisando?
Eleitor 1: Sempre precisa de alguma melhoria, né?
Assessora: Mas tem alguma coisa específica que vocês estão precisando, que não estão sendo ouvidos?
Eleitor 1: Acho que o principal, e que todo mundo pede, é a segurança. O bairro aqui é calmo, mas pensando no geral. E o trânsito, que é problema de anos, e não é só problema de Itajaí. É de Balneário também.
(...)
Eleitor 1: Mas esse partido veio de onde?
Candidato: De jovens. Tanto que estamos com poucos candidatos... Formado por jovens, com propostas novas.
Assessora: Pra dar uma nova cara pra política.
Candidato: Justamente agora que estamos com 21 vagas sendo disputadas, então estamos com esperança de que pelo menos um suba. Por isso a gente  está com chapa pura, para tentar imprimir...Por isso que a gente não tá apoiando nenhum prefeito. Que aí, independente de quem ganha, a gente vai lá pra fiscalizar. Pra não ter rabo preso com nenhuma chapa.
Eleitor 1: Sim, claro.
(...)
Assessora: E pra tua família, tem algo que tu precise? Alguma coisa que a gente possa te ajudar pra ti ajudar o candidato?
Eleitor 1: Não. A princípio tá tudo dentro dos conformes. Não tá tudo, mas dá pra levar. Eu entendo a situação de vocês que são de partido novo... Mas é isso aí. O que vocês estão fazendo é certo: não ter coligação, rabo preso pra poder chegar lá e bater de frente.
Candidato: É a melhor coisa. Senão, chega lá, fica amarrado e não faz nada.


Até vota...
Mas se ganhar pelo menos uma carrada de barro do candidato



Assessora: Olá, boa tarde. Queria apresentar aqui o nosso candidato.
Candidato: O senhor mora aqui mesmo?
Eleitor 2: Moro nos Cordeiros.
Assessora: E o senhor já tem candidato?
Eleitor 2: Já. Já tenho porque me ajudou a colocar luz, né! Ajudou a colocar o poste lá.
Assessora: Mas o que mais o senhor tá precisando? Não é só de luz que o senhor precisa..
Candidato: E a família, tá toda decidida? Não tem nenhum votinho sobrando?
Eleitor 2: Dai eu não sei.
Candidato: e não tem mais nada lá que está precisando? Eu tô precisando desse voto, agora eu quero saber o que o senhor tá precisando.
Eleitor 2: Tem um cara lá que tá precisando pra colocar a luz que cortaram, porque o relógio dele tá estourado.
Assessora: E o teu também?
Eleitor 2: O meu eu consegui botar.
Assessora: Tu falou que o candidato ajudou, né? No que ele ajudou?
Eleitor 2: Ela ajudou a colocar a luz, porque era área invadida, né? Aí eu consegui botar luz. Aí ela fez um papel lá, um cadastro.
Assessora: E o que tu precisa, além de luz, que a gente possa te ajudar? Porque tua família é grande, sempre dá pra dividir o voto.
Eleitor 2: Foi o que eu falei: quem me ajudar, eu ajudo"
Candidato: E o que tás precisando?
Eleitor 2: Barro. Porque lá, quando dá maré, enche. sabe que o voto é secreto, né?
Candidato: E quanto de barro precisaria?
Eleitor 2: Uma carrada.
Assessora: E com uma carrada o senhor consegue quantos votos pra gente?
Eleitor 2: Sabe que o voto é secreto, né cara? Se me ajudar... Eu falei pra votar, mas, me ajudando...

Só para refletir!
A reportagem não quis expor ninguém e nem atrapalhar o eleitor no processo de escolha. Portanto, as três pessoas que receberam o santinho do falso candidato foram avisadas por telefone que se tratava de uma reportagem e que o político era, na verdade, um jornalista do DIARINHO.

sábado, 29 de setembro de 2012

DEBATE EM TIJUCAS - QUEM GANHOU?

Candidatos de Tijucas se enfrentam faltando uma semana para o fim da campanha


Texto e fotos: Cláudio Eduardo

Enquanto do lado de fora da câmara de vereadores de Tijucas “periquitos” e “canários” travavam uma disputa de gritos – aplausos e vaias – e na caixa de som, os candidatos Adalto Gomes (PT) e Valério Tomazi (PMDB) se alfinetavam dentro da sede do poder legislativo. Restando apenas uma semana para se fazer campanha eleitoral, os dois prefeituráveis tentaram, à base da saliva, ganhar o voto do eleitor indeciso no debate da Rádio Vale.
Cada um dos candidatos tinha o direito de convidar um político para assessorá-lo ao longo do embate. E, como já previsto, por trás de Valério estava o atual prefeito Elmis Mannrich (PMDB); e com Adalto estava justamente o adversário de Elmis na eleição de 2008, Roberto Vailati (PT). Contudo, com os microfones ligados, os dois políticos que faziam as vezes de assessores, colaboravam no máximo com olhares – que em alguns momentos eram vagos e em outros provocativos.
De um lado, respaldado pelo fato de ser o candidato do único prefeito já reeleito em Tijucas, Valério usava o discurso da continuidade: “já fizemos, vamos fazer mais!”. Por outro lado, Adalto usava o partido como argumento favorável: “apoiamos o governo federal, e lá vamos ter vez e voz!”. Quem venceu? Quem convenceu? Que venha o dia 7 de outubro para responder.


Valério: O senhor diz que construirá a Estação de Tratamento de Esgoto. Mais uma razão para não ser eleito, porque fala que vai construir algo que já está sendo construído. O que acha do saneamento do nosso município?
Adalto: A questão da construção da Estação de Tratamento de Esgoto é uma luta que já vem lá de trás. A administração que o senhor faz parte titubeou várias vezes em buscar recursos. Foi o vice-prefeito da época, o Roberto Vailati, quem lutou para sair essa Estação. O senhor enquanto engenheiro deveria estar preocupado porque estão construindo numa região onde alaga. Como vão fazer quando tiver uma enchente e a Estação ficar no meio da água?
Valério: O projeto está protocolado em Brasília, em dois ministérios. Foi obra do prefeito Elmis, quando o vice que o senhor mencionou já tinha largado o barco, em 2008.
Adalto: O senhor está mal informado. O projeto aconteceu em 2005, eu estava no ministério quando foi anunciado.


Adalto: Primeiro, o que o senhor propõe para uma situação que vem se arrastando no município, que são os andarilhos? E o que propõe para mobilidade urbana? Porque os deficientes físicos estão sofrendo muito...
Valério: Sobre os andarilhos, a Assistência Social tem feito um trabalho muito forte. E vamos construir uma casa de passagem. Esse problema não é só de Tijucas, mas aqui tem cidades turísticas que desovam estes cidadãos. E nós vamos respeitar essas pessoas. Quanto à mobilidade urbana, a parte de acessibilidade é algo que vem de outros governos, jamais foram feitas obras respeitando isso. Mas já se avançou muito.
Adalto: Quero lamentar essa sua posição. Eu sou contra a casa de passagem em Tijucas, porque a maioria dos andarilhos é dependente químico e muitos saíram do presídio. Temos que mandar essas pessoas para casas de tratamento de dependentes químicos, de preferência bem longe de Tijucas.
Valério: ele pode discordar de qualquer coisa, porque ele só lamenta mesmo. Só lamenta!


Valério: No seu programa eleitoral o senhor citou como compromisso a ponte da Itinga. Como ficou sua principal proposta se o problema já está sendo resolvido?
Adalto: Não vote em candidato que faz vocês sofrerem! O sofrimento de um ano esperando por uma obra caracteriza até falta de respeito com vocês. As condições daquela ponte não têm futuro. Não vai muito longe aquela ponte.
Valério: O senhor faltou com a verdade para com o povo da Itinga, porque já sabia que o processo licitatório estava aberto quando falou para o povo que ia atrás de recursos. Esforço do prefeito Elmis não faltou.
Adalto: Não sou acostumado com a inverdade, até porque sou um político ficha limpa.


Adalto: Qual sua proposta para um grande drama que temos hoje em Tijucas, que é o transporte de pessoas que precisam de atendimento na saúde para Florianópolis?
Valério: Nós vamos continuar dando atenção. Já fizemos muito por saúde e vamos continuar. Quanto à questão do transporte, não é responsabilidade do município. Atendimentos de alta complexidade são de responsabilidade do governo federal e do estado. Mas nós não vamos negar. Jamais. Vamos buscar em casa, levar, trazer e devolver em casa.
Adalto: Durante esses oito anos, muita coisa deixou de ser feita, o que faz com que muitas pessoas tenham que ir para Florianópolis. E o seu programa é continuar maltratando as pessoas, tendo que ir para a estrada atrás de tratamento? Essa semana teve mais um acidente com ambulância de Tijucas que levava pacientes para Florianópolis.
Valério: Acidente ocorre todos os dias e com quem estiver na estrada. Não é por isso que vamos nos retrair.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CPI DO RUTH: Indiciado vira presidente nacional da Cruz Vermelha


Nício Lacorte conta que entidade internacional vai bancar auditoria para investigar denúncias de dinheiro público desviado – inclusive em Balneário Camboriú.


Foto: Martha Kienast/DIARINHO


Suspeitas de desvio de dinheiro público abalaram a diretoria nacional da Cruz Vermelha Brasileira (CVB). E derrubaram o presidente e o vice. Denúncias publicadas no DIARINHO há meses, nos últimos dias estiveram em pauta em grandes veículos de comunicação do país – como a revista Veja e o jornal Folha de S. Paulo. O escândalo do grupo que, supostamente usava a bandeira de entidade internacional para acumular fortuna, fez com que o presidente nacional da CVB, o maranhense Walmir de Jesus Moreira Serra, e o vice dele, Anderson Marcelo Choucino, pedissem demissão do cargo. E, em assembleia, ficou decidido que no lugar dos dois que estão na lista de indiciados pela CPI Ruth Cardoso, entrasse outro que também foi apontado como culpado pelo inquérito parlamentar: o até então presidente da filial gaúcha da Cruz Vermelha, Nício Brasil Lacorte.
Agora no comando nacional da entidade, Nício diz que Balneário Camboriú ainda está nos planos. A Cruz Vermelha gaúcha está entre as organizações sociais que disputam o novo processo licitatório para assumir o comando do hospital municipal Ruth Cardoso – que está sob o comando da prefeitura desde que o município rescindiu o contrato com a entidade internacional após desgastantes entraves de denúncia e defesa. “Se ganharmos a licitação, vamos fazer um trabalho diferente”, afirma o novo presidente da CVB. Nício conta que o vice dele na nova diretoria é o médico psiquiatra Manoel Garcia Júnior. Quanto ao comando da filial gaúcha, está preparando a renúncia, conforme prevê o estatuto, e vai convocar uma assembleia do conselho deliberativo para escolher o presidente que irá substituí-lo.
Mesmo após tantas denúncias, Nício afirma que ainda não constata irregularidades na forma como foi gerido o Ruth Cardoso. Mas diz que, se aconteceram desvios, irão ser identificados e reconhecidos pela entidade. “Na época, eu não assinava nenhum cheque. Só recebi uns R$ 30 mil que era da parte administrativa. Quem administrava era o órgão central, capitaneado pelo presidente e pelo vice [Walmir e Anderson Marcelo]”, assegura, informando que, com a renúncia da dupla, eles agora não terão qualquer participação na Cruz Vermelha nacional ou nas filiais.
Vão investigar tudo!
Uma das novidades que Nício – agora como presidente nacional da CVB – anunciou é que, numa parceria com o comitê e a federação internacional da entidade, serão feitas auditorias nas contas do órgão central e de todas as filiais. Nesta remessa, também serão investigadas as denúncias de desvio do dinheiro de Balneário que deveria ser investido no Ruth Cardoso e acabou indo para outras contas bancárias, principalmente para o Maranhão. “Firmamos este acordo porque a Cruz Vermelha está no fundo do poço e a nossa meta é fazer com que a entidade seja, novamente, destaque positivo”.
Quer falar com o prefeito
Nício diz que, tomando por base o que a contabilidade da filial gaúcha apresentava a ele, todo o dinheiro que era repassado pela prefeitura realmente era aplicado no hospital. Mesmo assim, vai aguardar o resultado da auditoria. “Se a Cruz Vermelha errou, então a comissão de avaliação também errou, o Comus errou, e o prefeito também! Caso tenha erro, eu faço a minha culpa e cada um que faça a sua”, provoca. Ele diz que pretende se encontrar com o Edson Periquito (PMDB) para esclarecer o que ficou pendente entre a entidade e o município. “Assim que passar a turbulência política da eleição, vou sentar com o prefeito para conversar. Isto se ele quiser me receber”, finaliza.
Para quem não lembra...
Nem faz um ano que o hospital municipal de Balneário Camboriú foi aberto. E, em tão pouco tempo, vieram as denúncias de mau atendimento e de desvio de dinheiro público por parte da entidade que administrava a unidade. Em abril deste ano, a prefeitura assinou o decreto de intervenção que tirou a Cruz Vermelha gaúcha do comando do hospital. O Ministério Público instaurou três inquéritos civis e o legislativo, a CPI. Ao final, a comissão parlamentar indiciou 16 pessoas: entre eles o próprio prefeito e o presidente da filial gaúcha da Cruz Vermelha – que agora assume a entidade nacional.
Em reportagens exclusivas, no mês de junho o DIARINHO publicou entrevista com uma pessoa do alto escalão da CVB e que contou detalhes do que ele classificou como uma quadrilha especializada em aplicar golpes usando o terceiro setor – e no caso de Balneário, usou a bandeira da Cruz Vermelha para fazer os desvios do dinheiro público. Também com exclusividade, o DIARINHO apresentou os números que foram revelados pela quebra do sigilo bancário. Dos mais de R$ 12 milhões pagos pelos cofres públicos, 25% foram desviados para uma segunda conta da entidade e quase R$ 1,5 milhão transferido para o Maranhão.
Matéria publicada no DIARINHO
Em 18 de setembro de 2012.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O HOSPITAL RUTH CARDOSO (4)


 A história do desvio milionário através da Cruz Vermelha 
no hospital Ruth Cardoso


A história encoberta por justificativas, documentos falsos e influência política se revela hoje nas páginas do DIARINHO. João – nome fictício para preservar a identidade da pessoa envolvida há mais de três anos nos projetos da Cruz Vermelha Brasileira – conta tudo o que sabe sobre o esquema milionário de desvio de dinheiro público que se instalou em Balneário Camboriú, mas que não se restringe ao município do litoral catarinense. Ele apontou quatro nomes como sendo os principais responsáveis pela falcatrua: Anderson Marcelo Choucino, Marcos Roberto Romero Sanches, Fernando José Mesquita e M.F.. Segundo João, todo o esquema foi facilitado conforme, pelo caminho, cooptavam outras pessoas. A vaidade, a negligência e a ambição fizeram com que o grupo aumentasse. E, em Balneário, no comando do hospital municipal Ruth Cardoso, não foi preciso um ano para que o desfalque tomasse proporções escandalosas: 176 mortes em seis meses, desvio de quase 25% dos mais de R$ 12 milhões injetados pelo município para serem aplicados na unidade, dois inquéritos instaurados pelo Ministério Público, decretada a intervenção, aberta uma comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no legislativo municipal... Colocaram o Ruth Cardoso na UTI.

Por Cláudio Eduardo

João conta a participação de cada um que transitou pelo esquema em Balneário Camboriú. Destaca, principalmente, a postura de duas lideranças no município que acabaram facilitando a ação do grupo: José Roberto Spósito (PMDB) – que era secretário de Saúde até o fim de março deste ano e ainda presidia a comissão de Acompanhamento e Avaliação do Ruth Cardoso – e o presidente do conselho Municipal de Saúde (Comus), Luiz Fernando Brito, que também era membro da comissão que fiscalizava o hospital. Os dois, além de saberem de tudo, colaboravam e tiravam vantagens, segundo João. Ele ainda acrescenta que o gestor do fundo Municipal de Saúde (responsável pela liberação do dinheiro), Rafael Schroeder (PMDB), que assumiu a pasta depois que Spósito se afastou, sabia de tudo. E pecou pelo silêncio. Quanto ao prefeito Edson Periquito (PMDB), João isenta de qualquer culpa com relação ao desvio de dinheiro público. Diz que a falha do prefeito foi o interesse político, ao forçar a contratação de pessoas indicadas por ele para ocupar cargos dentro do hospital.



DIARINHO – A Cruz Vermelha gaúcha abriu duas contas bancárias em Balneário Camboriú, qual o motivo?
João – Dentro desse modelo de operação que eles fazem, tentam fazer uma grande confusão na movimentação bancária, para depois deixar brecha para justificar na prestação de contas. Um grande exemplo disso é aquela nota de R$ 600 mil do Maranhão. É muito simples apurar. Não interessa para onde foi, mas, aquela nota se refere à compra do quê? Por que não mostram a nota fiscal do que foi comprado com aquele R$ 600 mil? Disseram que foi um dinheiro de empréstimo, se esse dinheiro foi emprestado, foi para comprar alguma coisa: comprar o quê? Uma outra mentira que existe nessa história é que os equipamentos do hospital estavam sucateados. Isso é mentira. Faltavam alguns equipamentos, mas os que estavam lá, salvo o tempo parado, estavam em excelente condição. O que aconteceu foi uma festa a partir da abertura do hospital envolvendo médicos e profissionais que usaram, detonaram, estragaram, roubaram equipamentos do Ruth Cardoso. Toda tentativa de organizar um modelo de gestão no Ruth Cardoso, na eminência da abertura ou logo após, foi rechaçado por Marcos Roberto Romero Sanches, por M.F., José Roberto Spósito, Luiz Fernando Brito... Porque eles não queriam contratar nada. Teve quatro trocas de farmacêuticos porque eles não queriam que controlasse remédios. Teve uma primeira compra enorme onde os remédios que foram comprados não eram ideais para o atendimento do Ruth, de média complexidade. Eram adequados para o atendimento do consultório das pessoas que estavam interessadas em subtrair dali os medicamentos. A primeira compra de medicamentos, se você pensar que todos os profissionais da saúde envolvidos (gestor do Fundo, secretário de Saúde) sabiam que era um hospital de média complexidade, foram alertados e continuaram com a compra, não tem como dizer que não existiu dolo. [E disso sabia tanto o gestor, quanto o secretário, quanto o presidente do Conselho?] Sim. E fizeram juntos. Existia uma rotina de reuniões de M.F. e de Marcos Sanches com Brito e Spósito. Eu coloco num patamar diferente disso o atual secretário, o Rafael Schroeder, mas que cometeu o pecado do silêncio. Ele sabia. Mas nunca o vi envolvido diretamente, querendo ter ele o benefício financeiro. Mas que ele sabia, ele sabia. O cenário que ele pegou como secretário de saúde nunca foi novidade pra ele. Então, essa demonstração de surpresa, de que ele vai ter que arrumar a casa, isso é teatro! Não posso ser leviano de dizer que ele colocou a mão em algum dinheiro ou que ele tinha interesse nos esquemas. Mas saber que as coisas aconteciam, ele sabia. Agora, tanto o Brito, sempre como menino de recados do Spósito, como o Spósito, que estava empolgado vendo que podia fazer a festa, em vários momentos deu para perceber que eles estavam interessados num esquema de benefício pessoal. E, para isso, fecharam um grupo com Marcos Sanches e com M.F.. E aí era cordeiro assado, era churrasco... Spósito e Brito falavam que podiam tudo porque eles eram da maçonaria e a maçonaria mandava na cidade.

DIARINHO – Quanto aos atendimentos, existe um responsável pela situação em que chegou o hospital?
João – Não existe desculpa para o município de Balneário, porque o secretário de Saúde, o gestor do Fundo, o presidente do Conselho, o prefeito, tinham que ter feito algo. É um hospital de média complexidade em que estavam forçando a barra para se tornar de alta complexidade por causa de interesse do secretário e do M.F.. Do ponto de vista médico, o que acontecia ali, na direção do M.F.... A orientação não era prestar um bom atendimento. O paciente era um detalhe para eles.

O berço do esquema

Ao longo da entrevista, João fala inúmeras vezes do centro Integrado e Apoio Profissional (Ciap) que, para ele, teria sido o berço do esquema que se instalou em algumas filiais da Cruz Vermelha Brasileira. Em maio de 2010, a polícia Federal deflagrou a “Operação Parceria”, que desarticulou um esquema fraudulento de desvio de recursos públicos federais que deveriam ser empregados pela Oscip (organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que tinha a principal sede em Londrina/PR. Além da cidade paranaense, a operação se alastrou para os estados de Goiás, São Paulo, Pará e Maranhão. Ao todo, foram expedidos 14 mandados de prisão temporária e 40 de busca e apreensão.
O esquema usava a Oscip para firmar parceria com prefeituras. Assim que os projetos eram aprovados, sempre nas áreas da Saúde e Educação, a organização recebia os recursos federais, numa movimentação média de R$ 130 milhões por ano. A investigação conjunta conduzida pela controladoria Geral da União, Ministério Público Federal e receita Federal, apontou que o Ciap fazia de tudo para demonstrar que a verba estava sendo aplicada, conforme o contrato. Contudo, descobriram que 30% dos recursos eram transferidos para uma conta centralizadora. A desculpa era de que precisavam atender aos custos administrativos.
A operação estimou que os desvios irregulares passaram de R$ 300 milhões em cinco anos. Depois que o dinheiro estava na conta centralizadora, valores altos eram sacados sem identificação, outro montante era destinado a pagamento para empresas que a investigação descobriu, na verdade, pertencerem a familiares e pessoas de confiança dos responsáveis pelo Ciap.
No dia 30 de agosto do ano passado, a Justiça Federal condenou 12 dos 16 acusados de participarem do esquema de desvio milionário. Dentre os crimes, peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Um dos que foi julgado é quem, segundo João, é o consultor de Anderson Marcelo Choucino no esquema da Cruz Vermelha: Fernando José Mesquita. Ele era responsável pela assistência jurídica do Ciap e foi condenado a 15 anos e nove meses de reclusão em regime fechado.

“Ele se vale das situações agudas
para fazer os grandes desvios”

 
                                                               Anderson Marcelo Choucino - Foto: Cláudio Eduardo


DIARINHO - Como começou o esquema que se instalou na Cruz Vermelha e se alastrou até Balneário Camboriú?
João – Esse esquema já estava planejado desde o primeiro projeto feito com a Cruz Vermelha. Foi um esquema herdado do Ciap. Basta pegar a história que já foi desvendada pela polícia Federal, o modo de operação dos dirigentes do Ciap, a confusão que faziam na conta corrente, o modelo de gestão financeira, a rotatividade das pessoas que administravam os projetos – eles nunca deixavam um supervisor muito tempo num projeto justamente para não perceber o que estava acontecendo. O esquema de funcionamento desses desvios é sempre proteger os cabeças. Eles não aparecem. Você não vai encontrar o cabeça desse esquema com uma conta no nome dele ou com uma transferência para ele. Você vai encontrar para irmã dele, para o irmão... As pessoas que estão aplicando este golpe em Balneário não escaparam à toa do Ciap. Elas escaparam porque realmente são precavidas e estão antenadas nas situações que podem gerar algum transtorno para elas. O que tem de errado? É a repetição. Eles não tomaram o cuidado de diversificar as atitudes. Qualquer operação mais esclarecida vai encontrar no passado exatamente o mesmo modo de agir. A coisa de Balneário não é nenhuma novidade. E eles sabem direitinho quais são os passos da CPI, quais são os passos da imprensa, e atuam nos bastidores para silenciar, para abafar. O tempo gira a favor dessa quadrilha, porque as coisas vão perdendo força, a revolta popular vai perdendo força. Então, eles têm que aguentar o furor da revolta naqueles dois primeiros meses. Depois começa a existir interesse político, derramam dinheiro aqui ou ali, mandam dinheiro para um deputado, posam de bonzinhos para um vereador, abrem novo diálogo com um executivo. E daí a coisa acaba perdendo força. E aí fica impune o desvio que acabou ceifando vidas, desviando remédios, que estragou equipamentos... Isso vem acontecendo há algum tempo e com quantias enormes de dinheiro. [Na Cruz Vermelha, o esquema começou logo após estourar o caso do Ciap?] Começou. E uma boa parte da equipe que foi originalmente para a CVB do Maranhão trabalhava no Ciap. Não julgo que essas pessoas tinham a consciência que Anderson Marcelo Choucino fazia o que faz. Foram também vítimas deste golpe.

DIARINHO – O Anderson Marcelo é o cabeça de todo o esquema, desde a época do Ciap e, principalmente, na questão da CVB?
João – Na questão da Cruz Vermelha, com certeza absoluta. Eu não posso te dizer, porque eu não vivi lá no Ciap, mas eu tenho a clareza que o modo de agir dele lá foi o mesmo que na Cruz Vermelha e que muita gente – não que fossem santos ou que não tivessem culpa, porque isso a apuração da Justiça que demonstrou a vantagem pessoal que cada um teve – pagou por ações de Anderson Marcelo.

DIARINHO – Como ele entrou no esquema, tanto do Ciap quanto da CVB?
João – Anderson Marcelo é de uma família rica, o pai dele é um grande fazendeiro de Londrina, tem fazenda no Mato Grosso. Lá com seus 20 anos de idade, foi presidente de uma associação de moradores e agricultores em Londrina. E, já naquela época, ele envolveu essa organização em campanhas para arrecadação de dinheiro e tentou transformar essa associação em instituição de utilidade pública. Isso em 1995 ou 1996. Eu imagino que desde essa época ele vem formatando essa ação que faz hoje. Ele deu preferência por atuar no Terceiro Setor justamente porque tem uma fiscalização mais condescendente. Eu acredito que um ser humano normal – e hoje eu não acho que ele é uma pessoa normal – sempre vai imaginar que alguém, por mais picareta que seja, vai ter um mínimo de princípio e não vai, por exemplo, roubar dinheiro das pessoas que foram vítimas da enchente no Rio de Janeiro. Não é o caso dele. Ele não tem escrúpulos. Ele se vale das situações agudas para fazer os grandes desvios.

DIARINHO – Notícia de 2010, da cidade de Sinop/MT, diz que quem apresentou a ideia da Cruz Vermelha assumir a gestão de um hospital de lá foi um assessor de gabinete da secretaria estadual de Saúde do Paraná, M.F.. Ele quem fazia esse trânsito político?
João – M.F. tinha relação com essas pessoas, com Anderson Marcelo e com Marcos Sanches, desde os tempos do Ciap. M.F. foi consultor do Ciap para vários projetos que eles fizeram. O golpe vem acontecendo há bastante tempo... E vem acontecendo com as mesmas pessoas. Por que M.F. teve muito interesse em Balneário? Porque ele estava no Paraná, era próximo dele. Mas ele participou de outros: foi para Porto Velho/RO, ele esteve em Sinop, em todo o interior do Paraná, tentando achar, com a bandeira da Cruz Vermelha, a oportunidade de aplicar o mesmo golpe que aplicou com o Ciap, quando ele teve projetos na cidade de São Paulo, no interior de São Paulo, no Rio de Janeiro. O M.F. sempre teve contato com empresários que se envolvem em licitações. E o M.F. tinha medo que o nome dele aparecesse em alguma coisa, era o mais medroso.

DIARINHO – O berço desse esquema então foi o Ciap, no Paraná, e dali foram para as regionais?
João – Isso. Eu sei que a amizade entre Anderson Marcelo e Marcos Sanches nasceu porque os dois entraram praticamente na mesma semana no Ciap. Ao passo que Marcos, num determinado momento, preferiu ficar onde estava, em Londrina, e Anderson foi para o Norte e Nordeste, onde praticamente criou um império para o Ciap lá.

DIARINHO – Por que o dinheiro do Ruth Cardoso – conforme confirmado pela movimentação bancária – era enviado para o Maranhão?
João – Porque era o local de moradia e de escritório do Anderson Marcelo, que era o chefe da quadrilha e que mandava em tudo. Toda a estrutura de escritório do Anderson Marcelo estava no Maranhão. A presidente da filial do Maranhão [Carmem Moreira Serra], assim como o Nício Brasil Lacorte faz hoje, fazia tudo que o Anderson Marcelo mandava. Até que ela percebeu o quanto foi usada nessa situação. Dou a ela o benefício da dúvida se estava envolvida neste envio de recurso para o Maranhão. Sei dizer que Anderson Marcelo sim, porque no Maranhão ele tinha tanto o escritório quanto o esquema para fazer os desvios: empresas, os primos dele que faziam todos os pagamentos de lá, toda a estrutura que ele tinha para fazer as maracutaias nos cartórios, gráfica... Está tudo no Maranhão. [Alguma das empresas do Maranhão que recebeu recursos do Ruth Cardoso prestou serviços em Balneário Camboriú?] Nunca. Aliás, as empresas sempre foram utilizadas por Anderson Marcelo para tirar o dinheiro dele. Ele apresentava uma nota de serviços para a Cruz Vermelha, de um serviço que nunca tinha sido prestado, e tirava o dinheiro dele disso. Isso em Balneário ficou escancarado. O sacador de tudo isso é ele. Ele é uma sombra, é sagaz, é esperto. Só que ele tem cometido o pecado de atuar da mesma maneira há muito tempo. Ele não mudou uma vírgula do golpe dele. O que me faz questionar o real interesse que existiu até hoje em investigar este cidadão. Normalmente ele é muito contido. Mas presenciei situações em que falava uma frase que resumia bem, ele dizia: “todo mundo pode participar, todo mundo pode fazer, mas só quem sabe a história inteira sou eu”.

DIARINHO – Anderson Marcelo era vice-presidente da CVB nacional e foi expulso. Qual o motivo?
João – Ele começou a ser muito pressionado, principalmente por conta do que tinha acontecido com os recursos da campanha de doação que tinha sido feita na época das enchentes do Rio de Janeiro – aquela tragédia que matou um monte de gente. A Cruz Vermelha recebeu muito dinheiro nessa época. E Anderson Marcelo botou esse dinheiro no balaio de gato dele. E isso foi um dos motivos que levou a uma cobrança muito grande até que aconteceu uma assembleia extraordinária da Cruz Vermelha onde ele foi execrado, porque não conseguiu dar nenhuma explicação plausível do destino que foi dado para esse dinheiro. Somado a isso, tinha a relação dele com uma pessoa que foi condenada no processo do Ciap, que é o doutor Fernando José Mesquita, que é cunhado do Marcos Roberto Romero Sanches. A hora que isso começou a vir à tona, ele começou a ficar numa situação insustentável dentro da Cruz Vermelha, que vem lutando para se reerguer. A Cruz Vermelha passou por processos de corrupção e, a partir do momento que começou a estourar essas maracutaias, estourou a história do Maranhão, ele começou a ser colocado na parede. Como ele não conseguiu justificar nada...

DIARINHO – Com a saída dele da nacional, como e por que ele foi parar na filial do Rio Grande do Sul?
João – Ele foi execrado, mas não pela totalidade. Ele conseguiu abrigo em algumas filiais: a dos três estados do Sul. [Por isso então foi firmado aquele contrato de cooperação técnica entre essas filiais, que foi o documento que validou a participação da filial gaúcha na licitação ao preencher o quesito experiência em gestão hospitalar?] Aquele contrato já é uma gambiarra , porque é fato: a Cruz Vermelha do Rio Grande do Sul não tem experiência em gestão hospitalar. [Fraudaram o processo licitatório?] Fraudaram. O processo licitatório estava acertado. Tudo o que foi apresentado de documentação foi orientado pela própria prefeitura. Um processo muito contaminado. [E de quem partia esta orientação da prefeitura?] Que eu saiba, antes do hospital, Rafael Schroeder tinha uma participação menor presenciando algumas coisas, muito fortemente o José Roberto Spósito, mas não sei dizer quem da estrutura da prefeitura dava as informações para M.F. e Marcos Sanches. Mas davam.

DIARINHO – Na diretoria do Maranhão permanecem as mesmas pessoas que estavam em 2010, quando, segundo consta em ata, participavam familiares de Anderson Marcelo?
João – Não. A presidente rompeu com Anderson Marcelo, pelo que sei. Então, ela trocou toda a diretoria. Anderson Marcelo nega qualquer envolvimento na Cruz Vermelha. Um grande mentiroso. No Maranhão eram todas pessoas ligadas a ele, pessoas que não davam um passo sem perguntar a ele. [Quando Anderson Marcelo ainda estava na nacional, ele já tinha esse contato com a filial do Rio Grande do Sul?] Foi Anderson Marcelo que escolheu qual filial que iria participar em Balneário. E por que ele não colocou a filial do Maranhão? Porque a do Maranhão não tinha documento em ordem, não tinha certidão negativa de débito, não poderia se candidatar. [A gaúcha era a mais limpa?] Documentalmente. Era a que ele conseguiria com poucas fraudes colocar no processo.

DIARINHO – Quais médicos eram do esquema e como funcionava?
João – O médico do esquema dentro do hospital era o M.F.. E prostituiu muito a relação com os médicos: ofereceu vantagens por fora, negociou sem autorização superior, valores, procedimentos. Num primeiro momento, M.F.esteve muito próximo de Spósito. O primeiro diretor clínico foi um consenso dos dois. Teve uma situação que foi muito emblemática. Às vésperas de abrir o hospital, definiram que o médico Milton Santoro ficaria com uma das clínicas e, quando o nome dele surgiu, um promotor entregou um dossiê que existia contra ele, dando conta que ele fraudou (não exame como estava acontecendo no Ruth), cirurgia para pacientes que não precisavam. O promotor, naquela época, teve o interesse de dizer “olha, eu estou mostrando para vocês terem cuidado com essa pessoa e ver se querem mesmo essa pessoa no hospital”. E quando foi apresentado este fato para o M.F., ele leu o dossiê e disse “desse cara é que eu preciso!”. E depois esse médico virou diretor no lugar do M.F..

DIARINHO – Dentre as notas de prestação de contas, a dos médicos consta apenas “prestação de serviços”, ou cobrança relativa ao trabalho de 30 dias por mês, 24 horas por dia. É o procedimento?
João – Isso foi feito sob orientação do M.F. e proteção do Marcos Sanches, que é quem tinha procuração para fazer movimentação financeira. Sanches trouxe o próprio genro, que é um menino, que trabalha no escritório daquele advogado condenado pelo Ciap que é cunhado do Marcos. Esse advogado, que é funcionário do Fernando José Mesquita, foi levado ao hospital para fazer contato com os médicos, isso em novembro, com o hospital mais de um mês funcionando. Essas notas entraram depois, e entraram para encobrir o que foi feito. [O M.F. tinha uma equipe que vinha com ele do Paraná?] Não, era ele sozinho. Ele vinha e cooptava todos. Ele já tinha indicação política. Ele não chegou na cara dura em Balneário. Ele chegou indicado, com um caminho já traçado. [Ele era quem tinha maior participação política, então?] Foi ele quem arrumou o projeto. [E o Marcos Sanches, continuou atuando no Ruth Cardoso?] Ele continuou e até um mês atrás estava em Balneário numa cobertura alugada pela Cruz Vermelha. Quem alugou essa cobertura para ele foi uma pessoa indicada pelo Rafael Schroeder. Ele continua no esquema e, mais do que isso, foi ele quem apresentou o projeto do hospital, pela Cruz Vermelha de Santa Catarina, para o município de São Francisco do Sul. E que está agora, neste momento, negociando para o hospital de Biguaçu. [Por que não mais com a CVB gaúcha?] A presidente da filial de Santa Catarina, Rosângela Zavarizzi, é hoje a pessoa que está magnetizada pelo Anderson Marcelo. Hoje ela ocupa o cargo que foi de Carmem, que foi de Nício... Ela é a bola da vez. É por aí que o esquema está seguindo. [E quanto ao Nício?] Ele caiu no conto do vigário. Não acho que seja ingênuo. Já percebeu, mas está preso na teia de Anderson Marcelo. A meu ver, assumiu uma estratégia errada, que foi de assumir pra si e defender para tentar salvar a filial.

Participações no município, segundo João:

• Ex-secretário de Saúde, José Roberto Spósito:
“Além de ter absolutamente 100% de influência em tudo que aconteceu, de estar ‘casado com M.F. nas coisas que aconteciam, de estar muito próximo com Marcos Sanches, de fazer almoço, jantar... Além disto, ele tinha todo o serviço de diagnóstico por imagem, que ele colocou um laranja mas quem respondia por toda essa parte era ele. No começo, M.F. abriu a boca sobre isto, disse que a parte de imagem já estava acertada: era do Spósito. Tudo que era imagem: raio-x, ultrassonografia, tomografia... Ele disse que já era do Spósito. Tanto que o índice de realização de exames de imagem nos pacientes que entravam no pronto-socorro no primeiro mês era coisa de 90% dos que passavam lá tinham que fazer um raio-x. E sem propósito”

• Presidente do Comus, Luiz Fernando Brito:
“É o menino de recados do Spósito. O Brito era o ponto de cruzamento de todas as figuras, era quem chamava para churrascos... Ele não tinha sala dentro do hospital porque ficava o tempo inteiro na dos diretores, que era o que queria, para saber o que estava acontecendo. [Foi Brito quem disse “faz uma nota num valor alto que na comissão eu dou jeito de aprovar a prestação de contas”?] Isso é verdade. Realmente existiu. E foi daí que surgiu esse argumento do empréstimo. Eu não sei dizer se isso foi uma ideia do Brito ou se ele assumiu um discurso do Sanches e do Anderson Marcelo. Eu sei dizer que o beneficiário foi o Anderson Marcelo. [Existia esquema para que empresas que não pagassem propina não recebessem?] Isso é parte desses golpes do Anderson Marcelo, do Sanches e desse pessoal todo: recebe quem entra no esquema”

• Gestor do Fundo e atual secretário de Saúde, Rafael Schroeder:
“Não vejo que ele tenha interesse financeiro nisso. Ele não é da quadrilha de baixo nível de desfalque roubando remédio de doente. Mas existe uma nuvem no comportamento dele por saber que ele tinha conhecimento das ações do Brito, do Spósito, dos esquemas do Marcos Sanches, do M.F., e ficou quieto. Ele ficou em silêncio, se beneficiou em ser escolhido o substituto do Spósito. Mas não vejo ele com a mesma ganância que todos os outros tinham. O pecado dele foi o silêncio, foi ser conivente”

• Ex-gerente de Compras do hospital, Carmem Nascimento:
“É uma das coisas que me faz questionar o Rafael, porque era amiga dele, pessoa recomendada e que ele fez pressão para a contratação. E foi justamente a pessoa que engatou com Marcos Sanches e abriu a porta para todos os desvios que aconteceram ali. E tiraram ela de cena quando a coisa degringolou e ela foi de novo pra debaixo da proteção da prefeitura”

• Prefeito Edson Periquito:
Desde o início, sempre cobrou um bom atendimento, que as pessoas fossem bem tratadas. Como Rafael teve o pecado do silêncio, Periquito teve o do interesse político. Ele fez pressão e botou goela abaixo pessoas que eram do interesse dele que estivessem lá. [E estas pessoas interfeririam de alguma forma na questão administrativa dentro do esquema?] Uma ou outra, porque Carmem, por exemplo, foi uma imposição. Mas grande parte das pessoas, apesar da vinculação política, estava lá para trabalhar. A intenção era indicar o pessoal dele. É errado? É. Mas perto de tudo que estava acontecendo, isso era nada. E não foi algo isolado dele. Do mesmo jeito que ele mandou as pessoas que queria, o Spósito fez a mesma coisa, o Rafael também. E existia um racha entre o Periquito e o Spósito. A grande situação envolvendo os dois era o interesse na próxima eleição. O Spósito tinha o sonho de conseguir criar uma situação política tão grave para o Periquito que inviabilizasse a reeleição dele. O sonho do Spósito era ser prefeito!”

“A nota de R$ 600 mil nunca existiu”

Rafael Schroder garante que não sabia de nada. Quanto à acusação de que indicou a ex-gerente de Compras, Carmem Nascimento, também nega. Conta que ela era uma servidora na secretaria de Saúde e que foi convidada pela Cruz Vermelha para trabalhar na unidade justamente por conhecer muitos fornecedores. “Ela recebeu proposta melhor e decidiu ir. Foi uma opção dela. Se nós realmente tivéssemos interferido na contratação, colocado gente de confiança lá, a situação não teria chego a esse ponto”, justificou o secretário, isentando o município da acusação de que indicou funcionários para atuar no Ruth Cardoso. Carmem confirma que pediu exoneração da prefeitura para encarar o desafio no hospital, principalmente por causa do salário.
Além disso, Rafael disse que, depois de seguidas denúncias de mau atendimento, ficou em alerta. E ficou ainda mais intrigado quando o conselho Municipal de Saúde (Comus), que é presidido por Luiz Fernando Brito, apresentou parecer aprovando as contas do hospital. “O Comus nunca analisou minhas contas do Fundo alegando que não tinham estrutura. Como é que fizeram isso com a do hospital?”, indagou o secretário – que assumiu o posto deixado por José Roberto Spósito em 30 de março deste ano.
Brito também se isenta de qualquer culpa. “Se existir algum erro financeiro por parte da Cruz Vermelha, e eu como membro da comissão não vi, não vou defender erro de desvio financeiro de ninguém”, ressaltou. Ele negou ter participado de qualquer jantar com a diretoria da Cruz Vermelha pago com dinheiro público e de ter tirado qualquer vantagem por ocupar a presidência do Comus. Quanto à nota de R$ 600 mil da CVB/MA, assume ter participação. “O repasse já existia. O que foi discutido é que não havia como analisar passagens aéreas, quanto ganhou cada um... Por isso só apresentar a nota global que no teor tivesse isso escrito”, defendeu.
Carmem conta que Brito estava quase todos os dias no hospital, pedindo, inclusive, acesso às notas fiscais. Entretanto, ele mesmo assume que depois da intervenção do município, mesmo ainda sendo presidente do Comus, não pisou mais na unidade. Como gerente de compras desde agosto – dois meses antes da abertura do Ruth Cardoso – Carmem assegurou nunca ter visto o tal documento fiscal. “A nota de R$ 600 mil nunca existiu. Diziam que era para implantar o sistema informatizado. Esse sistema não existe até hoje”, destacou. Carmem ainda confirmou que a contratação da equipe médica era feita por M.F. e que as contas eram pagas pelo Rio de Janeiro e que quem operava a movimentação era um assessor de Anderson Marcelo Choucino, que ainda estava na vice-presidência da Cruz Vermelha nacional.
Quanto à participação de M.F. e Marcos Sanches no hospital municipal, o presidente da filial gaúcha da Cruz Vermelha, Nício Brasil Lacorte, diz não haver vínculos entre eles e a entidade. Apenas Anderson Marcelo é ligado à organização por ter participado da diretoria no Rio de Janeiro. “Anderson Marcelo é do movimento, ex-vice-presidente nacional (ainda sub judice). O órgão central da Cruz Vermelha estava presente com a filial do Rio Grande do Sul nesse projeto de Balneário Camboriú. Agimos orientando e buscando a construção de um diálogo mais efetivo com a municipalidade. M.F. é médico no hospital, não é do movimento de Cruz Vermelha, nunca fez parte da direção da instituição, e Marcos Sanches foi um colaborador na implantação do projeto e recebeu por isto”.

“Não temos que proteger nenhum criminoso”

                                                                   Depoimento de Spósito na CPI - Foto: Cláudio Eduardo

Depois de dois meses de trabalho, a comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou as irregularidades na administração do hospital Ruth Cardoso finalizou a fase de depoimentos. Na última sexta-feira, às 19h, o relator Marcos Kurtz (PMDB) concluiu o relatório e protocolou na câmara. Amanhã deve entrar na pauta o texto para que os vereadores possam, caso achem necessário, apresentar emendas e, por fim, aprovem o documento produzido pelo inquérito legislativo.
“No relatório apontamos tudo que foi apurado e que teve provas. A quebra do sigilo bancário, por exemplo, nos ajudou a esclarecer muitas coisas. Valeu mais os documentos do que os depoimentos”, comentou Kurtz, que também é líder da base governista. Mesmo assim, garante que não misturou as funções e que o relatório não vai excluir quem merece ser punido. “Apontamos os nomes de quem estava envolvido. E a conclusão é que teve desvio de finalidade do gasto do dinheiro público”, adiantou.
O presidente da CPI, Claudir Maciel (PSD), disse que espera que nenhum nome seja poupado no relatório da comissão. “Espero que haja imparcialidade política, porque não temos que proteger nenhum criminoso”, salientou o vereador – que compõe a bancada de oposição. Claudir defende que os envolvidos respondam criminalmente. “A conclusão é que se instaurou uma quadrilha no Ruth Cardoso com a finalidade de obter lucro com o sofrimento do povo”, finalizou o parlamentar.


Reportagem publicada no jornal Diário do Litoral - DIARINHO
em 25 de junho de 2012