segunda-feira, 21 de maio de 2012

O HOSPITAL RUTH CARDOSO NA UTI


 

Quando o dinheiro é mais importante que a vida


 Por Cláudio Eduardo
 
Nos seis meses em que a filial gaúcha da Cruz Vermelha Brasileira administrou o hospital municipal Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, foram registrados 176 óbitos. Destas mortes, 22 envolveram crianças de até três meses de idade – metade apontada como fetos, por não terem sobrevivido fora do ventre materno. Esses números levantam a hipótese de que o entupimento das artérias do setor administrativo teve sequelas graves na área clínica do hospital. Se as suspeitas de desvios milionários de dinheiro público pelos administradores do hospital ainda estão sendo investigadas, quem viveu na pele o mau atendimento faz questão de mostrar que o seu sofrimento é real. E, nestes casos, não há mais o que remediar. Na paradisíaca Balneário Camboriú, dita a capital do Turismo de Santa Catarina, a Saúde pede socorro.


Foto: David T. Silva

“Mesmo que aconteça algo que eu não tenha opção, 
não penso em ir naquele hospital de novo”

Desde que perdeu um bebê poucas horas depois do parto, a dona de casa Iara Senem já não consegue mais sair de casa. Aos 36 anos, largou o emprego de diarista e mal pode fazer os serviços domésticos. E não são as consequências psicológicas da perda que impedem Iara de seguir a vida. O problema é físico. Um parto normal forçado acabou resultando na morte do nono filho e deixando marcas que, passados seis meses, Iara ainda luta para superar: ela sofre de incontinência urinária e fecal e não pode dispensar o uso diário de fraldas.
Numa casinha humilde no alto de um morro de Balneário Camboriú, Iara guarda – do lado de uma bíblia de páginas amareladas – a única lembrança que restou de Alex, o filho caçula que não sobreviveu sequer um dia: uma foto em que ela exibe a barriga com o nome do bebê escrito, tirada antes do nascimento. E foi só. Ainda hoje lamenta não ter podido tirar uma fotografia do último dos nove filhos. Ele é uma das 22 crianças que morreram na maternidade do hospital municipal Ruth Cardoso durante os seis meses em que a Cruz Vermelha Brasileira, filial do Rio Grande do Sul, administrou a unidade.
Entre cesarianas e partos normais, o Ruth Cardoso realizou 760 atendimentos na maternidade de outubro do ano passado até abril deste ano – quando houve o decreto de intervenção do município no hospital e o afastamento da Cruz Vermelha. E 22 mães choraram suas perdas. Em metade dos casos são apontados como fetos, por já terem nascidos mortos, outros 11 chegaram a sobreviver por um curto período. Portanto, o Ruth Cardoso atingiu o índice de 28,94 óbitos por mil atendimentos. Um número 44,7% maior que os 20 óbitos por mil atendimentos do hospital Marieta Konder Bornhausen, na vizinha Itajaí, cidade ainda mais populosa que Balneário.
Contudo, pouco importam os números para quem viveu a agonia do mau atendimento. Iara não consegue esquecer nenhum dos minutos que passou internada no Ruth Cardoso. A dona de casa estava grávida de nove meses. Sentiu dores, por isso correu para o hospital. No entanto, a bolsa não tinha se rompido. Era dia 13 de novembro de 2011. Mesmo assim, os médicos a deixaram internada. Segundo Iara, começaram a estimular as contrações. “Dos meus outros filhos, sempre optei pelo parto normal porque a recuperação é mais rápida. Mas pedi umas quatro vezes para ser cesariana, porque eu sabia que ele não ia nascer de parto normal. Um médico me disse que ali não tinha como, se fosse em outro hospital ele até atenderia meu pedido”, recorda.
Já na mesa de parto, novamente Iara teria pedido para o médico que fizesse cesariana e tentou explicar que não estava com as dores do parto. “Eles nem me ouviam e começaram a forçar minha barriga para o bebê nascer. Quando ele saiu, já não se mexia. Mas levaram dizendo que estava vivo”, conta.
Em menos de 24 horas, voltaram com a notícia de que Alex tinha falecido.“Eu fiz todos os exames e fui para lá sabendo que estava tudo bem. Mesmo assim, saí sem meu filho. A médica me disse que ele era todo perfeitinho”, afirma Iara. No atestado de óbito que ela guarda numa pastinha junto com todos os exames da gestação, consta que o bebê morreu de falência múltipla dos órgãos. Entretanto, a mãe ressalta que no velório viu muitas manchas roxas no corpo da criança e, inclusive, um afundamento na testa. Ela não tem dúvidas de que, se não tivessem forçado o parto normal, o filho estaria vivo. “Uma sobrinha e uma cunhada também estavam grávidas e foram ganhar o bebê no Marieta. Por medo de voltar lá. Mesmo que aconteça algo que eu não tenha opção, não penso em ir naquele hospital de novo”, confirma, traumatizada.
Hoje, a Cruz Vermelha já não se pronuncia sobre nenhum dos casos. No entanto, há seis meses, emitiu nota culpando Iara pela própria tragédia. “Durante o trabalho de parto o bebê desenvolveu distócia de ombros, ou seja, encravamento de ombros. A mãe, que não estava no momento colaborativa, fechou as pernas no período impulsivo, agravando mais a situação”, justificou. Na mesma nota oficial, foi informado que não realizaram cesariana porque a paciente já tinha passado por outros oito partos naturais. Iara não pensa em ter mais filhos. Não quer correr o risco de passar pelo mesmo sofrimento. “Minha barriga ainda está inchada. Por isso, às vezes, as pessoas me perguntam se eu estou grávida: aí vem toda a lembrança. Depois desse dia, não tive mais paz!”, afirma, emocionada.


Daphyne ainda procura pelo corpo do filho que sumiu do hospital

O dia 11 de março de 2012 tinha tudo para ser uma data comemorada todos os anos pela estudante Daphyne Kethy Souza, de 23 anos. No entanto, é uma data que ela quer esquecer. Família e amigos lotaram a recepção do Ruth Cardoso: todos queriam ver o pequeno Lucas. Mas não foi o que aconteceu. “Eu estava de oito meses. Fui para o hospital achando que estava tudo bem, que nasceria prematuro, mas que sairia de lá com meu filho. Não tinha nenhum médico na sala e as duas parteiras que me atenderam disseram que ele tinha nascido morto”, relata.
No turbilhão das emoções, perguntaram se Daphyne preferia enterrar o bebê ou doar para uma universidade fazer estudos e, ao mesmo tempo, apontar o motivo da morte. Mesmo sem assinar qualquer documento, ela autorizou o envio para a universidade do Vale do Itajaí (Univali). Entretanto, o corpo nunca chegou lá. De maneira informal, ela foi comunicada pelo Ruth Cardoso de que a instituição não aceitou o bebê, por isso teria sido enterrado como indigente. Contudo, a versão foi desmentida pelo técnico do laboratório de anatomia da Univali, Fábio Aureliano Rafael. “Esse material é muito importante, de grande valor. Jamais negaríamos”, garantiu.
Na época, através de assessoria de imprensa, o Ruth Cardoso tentou mais uma vez justificar. “A mãe colocou à disposição da Univali, que não teve interesse. Então a funerária levou o corpo e o hospital não tem nada a ver com isso”. Lucas teria sido enterrado no cemitério da Barra, em Balneário. Mas não há confirmação oficial. A funerária São Jorge não quis se pronunciar sobre quem teria realmente autorizado o enterro. Daphyne já denunciou o caso à polícia, prestou depoimento e aguarda resposta.

Morreu porque não tinha dinheiro


Foto: David T. Silva

“Foi uma negligência muito grande. Ele 
queria ganhar dinheiro, mas eu não tinha como pagar”

Alexandra da Silva coloca na mesma dosagem o sofrimento pela morte da mãe e a indignação com um médico que teria pedido dinheiro para fazer a cirurgia que salvaria a vida da dona de casa Adriana Teixeira da Silva, 56 anos. “Minha mãe acordou de madrugada com dor abdominal. Levamos para o Ruth Cardoso. Eles medicaram e mandaram embora”, recorda.
A auxiliar de laboratório de 30 anos conta que a situação se repetiu várias vezes. A mãe ia mal, medicavam e mandavam para casa. No entanto, numa dessas idas e vindas, Adriana teria recebido uma proposta de um médico – a filha ainda guarda o papel em que consta o telefone e endereço que foi entregue para Adriana junto com o pedido de R$ 3 mil para a realização da cirurgia. “Foi uma negligência muito grande. Ele queria ganhar dinheiro, mas eu não tinha como pagar, por isso fui num hospital do SUS [Sistema Único de Saúde]”, afirma.
A cobrança seria para tirar Adriana do Ruth Cardoso para fazer o procedimento de forma menos invasiva numa clínica particular. “Ele disse que ali daria para fazer, só que ficaria uma cicatriz enorme. E mandou ela para casa. Mas como a dor voltou, fomos para o hospital e eu falei que não importava a cicatriz, que eu queria a minha mãe viva”, relembra. Entretanto, não adiantou. Segundo a filha, Adriana estava com pedra na vesícula, indo para o pâncreas. A solução era a cirurgia. Antes que isso acontecesse, Adriana faleceu. Era 27 de fevereiro de 2012, e a causa da morte apontada pelo médico foi infarto agudo do miocárdio.
“Falaram que fizeram mais de 30 exames na minha mãe. Pedi para ver e não tinha. Não conseguiram comprovar”, conta Alexandra. Dentre as irregularidades já denunciadas, inclusive em reportagens do DIARINHO, está o superfaturamento de exames laboratoriais. Durante o depoimento na comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o hospital no período em que era administrado pela Cruz Vermelha, o farmacêutico bioquímico Renato Santângelo de Souza garantiu que a administração estava fraudando notas de exames, cobrando, por exemplo, a realização de quatro mil exames em um mês. Sendo que, segundo o especialista, não havia chances de terem sido feitos sequer 500 em 30 dias.
Alexandra não descansa enquanto não fizer justiça. Ela guarda cada papel. Ainda não procurou a polícia, nem o Ministério Público. Até então tinha se concentrado apenas em idas insistentes ao Ruth Cardoso atrás de respostas. “Da mesma forma que foi minha mãe, poderia ser qualquer um. E tiveram vários casos assim. Se não tem condições de atender, fecha”, sentencia. Mãe de duas filhas, ela diz que jamais vai levar outro parente para o hospital municipal de Balneário Camboriú. “Se depender de mim, ninguém da minha família coloca os pés lá!”, assegura.
Alexandra promete revelar a identidade do médico que ela responsabiliza pela morte da mãe. Quer que ele seja punido. A reportagem entrou em contato com o a delegacia de Itajaí do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (Cremesc). Eles informaram que a atuação do departamento é mais voltada para a parte burocrática, mas enviaram os questionamentos para a gerência estadual do órgão, em Florianópolis, que ficou de responder. Contudo, até o fechamento desta reportagem, o Cremesc não se pronunciou oficialmente.

Morreu sentada na emergência


Foto: David T. Silva

“Não deu tempo de socorrer. Ela morreu sentada”

O aposentado José Fidélis da Silva viu a mulher com quem foi casado por 52 anos morrer numa cadeira de rodas esperando por atendimento na emergência do Ruth Cardoso. O tom de voz anestesiado pelos 74 anos de idade esconde a tristeza da viuvez. Ele não esquece o dia 11 de fevereiro de 2012 – o dia em que sua Carmem morreu. Numa pasta, guarda o atestado de óbito. Na cabeça, as recordações dos últimos suspiros da mulher.
Carmem Sales da Silva tinha 72 anos e sofria do coração. Passou mal e foi levada às pressas pela família até o Ruth Cardoso. Morreu sentada, aguardando atendimento. “Nós chegamos e colocaram ela numa cadeira de rodas na emergência. Ficou um tempo lá. Só quando deu uma parada cardíaca levaram para dentro, mas não deu tempo de socorrer. Ela morreu sentada”, relata. José diz que, pelo estado em que Carmem chegou, dava para ver que precisava ser atendida com urgência. “Podiam ter levado na hora para os aparelhos. Do jeito que ela estava mal, tinham de ter atendido no ato”, lamenta.
Ao contrário de muitos que ficaram traumatizados com o hospital por causa do mau atendimento, o aposentado não pode se dar ao luxo de negar um retorno à unidade onde viu a mulher morrer. Não tem plano e nem saúde de ferro. Adoentado, já tem consulta marcada com um cardiologista no Ruth Cardoso.


“O número de óbitos e realmente assustador”

Antes que houvesse a intervenção administrativa no hospital municipal Ruth Cardoso, o promotor de Justiça Rosan da Rocha instaurou inquérito para investigar o atendimento da unidade. Ele pede que qualquer pessoa que tenha se sentido lesada procure o Ministério Público Estadual.

DIARINHO – Qual o prazo para a conclusão do inquérito?
Rosan da Rocha
– O inquérito ainda está em andamento. O prazo para conclusão depende do tamanho do conteúdo das investigações, mas acredito que em três meses será finalizado.

DIARINHO – Quanto aos 176 óbitos registrados em seis meses, é um número normal? E as circunstâncias em que eles ocorreram, o senhor soube de casos em que tenha ocorrido falha do hospital?
Rosan
– O número de óbitos é realmente assustador, mas temos que saber as causas de cada um. É difícil tal verificação apenas por suposição. Nos casos em que houve reclamação de mau atendimento, está se averiguando, inclusive, com abertura de inquérito policial.

DIARINHO – Entre mortes fetais e de bebês recém-nascidos, foram 22 dos 760 partos realizados nestes seis meses. Há análise específica da maternidade do Ruth?
Rosan
– Quanto às mortes fetais e de recém-nascidos serão todas verificadas, posto que, em alguns casos, já se verificou possível imprudência e negligência médica.

DIARINHO – Há denúncias de médico que quis cobrar para fazer cirurgia, de gente que morreu numa cadeira de rodas esperando pelo atendimento, de gestante que teve um parto forçado e, por conta disso, usa fraldas até hoje, e até um caso em que o corpo do bebê que teria nascido morto desapareceu. O Ministério Público está ciente dessas denúncias? O que está sendo feito?
Rosan
– No que diz respeito à denúncia de cobrança para cirurgia, gente que morreu em cadeira de rodas esperando atendimento, gestante que usa fraldas por parto forçado, este Ministério Público não tem conhecimento. Mas iremos procurar maiores detalhes para que se possa realizar uma investigação aprofundada. No caso do feto que desapareceu, este sim, se tem conhecimento e será devidamente apurado.

DIARINHO – Nos casos de mau atendimento no Ruth Cardoso, há como separar as responsabilidades dos médicos, da Cruz Vermelha Brasileira e do município?
Rosan
– No caso de mau atendimento todos, indistintamente, dentro de suas responsabilidades, contribuíram para que tais fatos ocorressem.

DIARINHO – Até agora, algum indício de imprudência, imperícia e/ou negligência? Em que casos?
Rosan
– Há indício fortes de culpa, seja por imperícia, negligência ou imprudência, em alguns atendimentos realizados; os caso estão sendo verificados.


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Entenda o caso

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10/10/2011

• Inauguração do hospital municipal Ruth Cardoso. Durante a cerimônia, o então secretário de Saúde, José Roberto Spósito (PMDB), afirma que a expectativa inicial era de atender de 300 a 400 pessoas por mês.

21/03/2012
• A 6ª Promotoria de Justiça de Balneário Camboriú abre inquérito para apurar irregularidades no atendimento aos pacientes do Ruth Cardoso.

23/04/2012
• Respaldado por informações obtidas pelo Ministério Público, prefeito Edson Periquito (PMDB) assina o decreto de intervenção do hospital, tirando a Cruz Vermelha Brasileira do comando e assumindo a gestão da unidade.

24/04/2012
• Prefeito denuncia mau uso do dinheiro público – com pagamento de passagens aéreas e hospedagens – e decreta situação de emergência do Ruth Cardoso.
• Vereadores já tinham aprovado pedido de investigação do hospital.
Presidente da câmara, Orlando Angioletti (DEM), instaura a comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), presidida por Claudir Maciel (PSD) e tendo como relator Marcos Kurtz (PMDB). Os depoimentos começaram uma semana depois.
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O rombo pode ser maior do que se imaginava

Foto: Flávio Tin
 “O hospital está funcionando e estamos 
lutando para atender cada vez melhor as pessoas”

Tanto nas investigações dos auditores da prefeitura quanto na CPI e no inquérito instaurado pelo Ministério Público, não param de surgir suspeitas de desvios do dinheiro que era repassado dos cofres públicos para ser aplicado no hospital municipal Ruth Cardoso. Nada confirmado, justamente pela falta de documentos. Nem todos os papéis foram entregues pela Cruz Vermelha Brasileira – segundo os investigadores. Duas notas fiscais que confirmavam transferência de dinheiro da filial gaúcha da instituição, responsável por gerir o hospital, para o Maranhão, colocaram a administração municipal e vereadores em alerta. Somadas, as duas passam de R$ 1,3 milhão. Mas não há, ainda, a confirmação de que este valor foi realmente pago.
Além disso, no balancete de pagamentos consta a liberação de quase R$ 900 mil em único mês também para a filial do Maranhão. E ainda a transferência mensal de 7% dos R$ 1,7 milhão que a prefeitura pagava todos os meses para manter o hospital (o que equivale a mais de R$ 100 mil). Contudo, nestes casos em que o pagamento se confirma, faltam as notas fiscais. Por cautela, ninguém quer confirmar o rombo enquanto não tiverem acesso a toda documentação da prestação de contas do Ruth Cardoso. Sem a papelada, os vereadores, por exemplo, decidiram pedir a quebra do sigilo bancário da Cruz Vermelha para seguir o rastro do dinheiro.
Além disso, surgiu a suspeita de fraude no processo licitatório. Para uma empresa se habilitar e concorrer à gestão do Ruth Cardoso, uma das exigências era experiência em administração hospitalar de, no mínimo, cinco anos. Para conseguir confirmar isso, ao invés de apontar uma unidade que administrassem, a Cruz Vermelha gaúcha entregou um documento conjunto com as filiais de Santa Catarina e do Paraná alegando que, desde 1980, tinham um contrato de cooperação técnica na operacionalização do hospital da entidade, em Curitiba. Entretanto, o CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) da filial do Rio Grande do Sul desmente o documento aceito pela prefeitura. A Cruz Vermelha gaúcha só foi fundada em 31 de março de 2005 – uma diferença de 25 anos.
Prefeitura investiga
Desde a intervenção, o prefeito Edson Periquito (PMDB) está decidido a romper o contrato com a Cruz Vermelha e providenciar um novo modelo de gestão para, então, reabrir o processo e contratar uma nova empresa. Para ter sustentação, ele colocou auditores para analisar a papelada do Ruth Cardoso e confirmar o rombo. E traz fatos novos. “Achamos uma nota de R$ 580 mil da compra de um programa de informática. E ninguém conhece esse sistema no hospital. Mas ainda não conseguimos confirmar o pagamento. É só mais um dentre os indícios que tomam forma todos os dias”, afirma. Apesar de estar investigando a questão financeira, Periquito garante que este não é o principal interesse da administração municipal.
“A constatação do desvio de dinheiro público eu coloco em segundo plano. Em primeiro lugar está, sem dúvida, o atendimento. O hospital está funcionando e estamos lutando para atender cada vez melhor as pessoas”, diz. O prefeito garante que não vai ignorar o que aconteceu nos leitos do Ruth da intervenção para trás. As vigilâncias Sanitária e Epidemiológica do município estão analisando os 176 óbitos, caso a caso. “A Sanitária vai verificar a questão dos equipamentos e da estrutura, já a Epidemiológica está concentrada nas causas das mortes. Procuramos identificar e, caso necessário, abriremos processo administrativo, comunicaremos ao conselho de Medicina e levaremos tudo ao Ministério Público”, garante.


Presidente da filial gaúcha da Cruz Vermelha Brasileira rompe o silêncio


À medida em que, após a intervenção, as denúncias surgiam, a voz da instituição responsável pela gestão do Ruth Cardoso minguava. Nício Brasil Lacorte, presidente da Cruz Vermelha Brasileira (CVB), filial do Rio Grande do Sul, disse que é um silêncio estratégico. Entretanto, decidiu falar para responder a algumas acusações e afirmar que pretendem “lavar o nome” da instituição. Não respondeu aos questionamentos relacionados aos óbitos e às denúncias de mau atendimento especificamente abordadas nesta reportagem, porque está aguardando as informações que serão fornecidas por um diretor clínico.

DIARINHO – Depois do decreto de intervenção do município, qual medida a Cruz Vermelha está tomando? Vão tentar retornar para o comando do hospital?
Nício Lacorte
– Nosso silêncio foi planejado e as medidas serão tomadas no momento adequado, exceto o Mandado de Segurança e o pedido de devolução dos computadores tomados na “mão grande”. Estes o juiz já mandou devolver. A nossa instituição não quer brigar por administração nenhuma, pois nossa missão é humanitária. O prefeito “rasgou” um contrato e nos fez acusações inverídicas, por óbvio vamos judicialmente mostrar a verdade. Se para “lavarmos nosso nome” for preciso retomar o contrato, o faremos, mas com esse prefeito não queremos ter mais relações negociais, por isso decidiremos o que fazer se a Justiça nos mandar retomar o trabalho

DIARINHO – Há denúncias de notas fiscais frias e de fraude no processo licitatório que concedeu o direito da Cruz Vermelha gaúcha administrar o Ruth Cardoso. O que há de verdade nestas denúncias?
Nício
– Não há notas frias e nem documentos falsos, isso são construções de políticos desonestos ou ignorantes sobre o que fazem (até agora fico com a última hipótese). Concorremos e fomos os únicos com toda a documentação correta. Nenhum dos outros concorrentes questionou suas exclusões. Da mesma forma que concorremos em Balneário, o fizemos em outros estados, ganhamos, e estamos administrando sem questionamentos. Para ter uma ideia de nossa boa intenção, fixamos um valor de administração de R$ 1,7 milhão por mês, quando poderíamos ter colocado R$ 3 milhões, pois éramos os únicos selecionados. Há um posto de Saúde aí que recebe R$ 300 mil por mês e tem o peso de um décimo do hospital. É só ver e comparar. Só que lá não tem divergência política, ainda, que eu saiba.

DIARINHO – Existem notas fiscais que mostram o envio de dinheiro para a Cruz Vermelha do Maranhão. Houve mesmo esta transferência do dinheiro? Qual a justificativa e qual foi esse valor precisamente?
Nício
– Para entender melhor os movimentos financeiros, explico: a CVB, diretoria nacional, foi quem concorreu à licitação (Cruz Vermelha só tem uma no Brasil). Para tanto, utilizou uma de suas filiais, a do Rio Grande do Sul, que, além de experiência comprovada na gestão de saúde pública, inclusive laureada pela realeza espanhola há dois anos, tinha todos os documentos exigidos. A diretoria nacional da CVB não tem atividade fim de execução, por isso usa as filiais. Como estava com poucos recursos, usou por empréstimo, para os levantamentos prévios sobre a situação do hospital e depois implantação para a execução do contrato, uma quantia de R$600 mil (mas o pedido inicial era de R$ 750 mil). Esse valor foi utilizado para diversos fins, todos voltados ao cumprimento do contrato, inclusive comprando bens que são de responsabilidade do contratante. Quando dos primeiros recebimentos, esse valor de R$ 600 mil foi remetido à CVB-MA e ela fez a emissão da nota comprobatória do recebimento. Tudo está claramente demonstrado nas prestações de contas, que foram aprovadas pelas comissões legais e pago pelo contratante. Não há nenhuma comprovação de remessa para a CVB-RS, os pagamentos de despesas de técnicos do Rio Grande do Sul que foram para o hospital na implantação tiveram custeio por essa verba. Tudo tem previsão contratual.

DIARINHO – Nos casos de mau atendimento no Ruth Cardoso, há como separar as responsabilidades dos médicos, da CBV e do município?
Nício
– No caso de mau atendimento é imediatamente apurado e são apontadas as causas e responsabilidades, que podem ser: dos médicos, no caso de dolo, negligência ou imprudência; do município, no caso de falta do cumprimento de suas obrigações contratuais; ou da CVB – e é possível sim definir claramente. Pode ainda ser dos três ou dos últimos dois, em concorrência. Afirmo, com absoluta segurança, pois conferi pessoalmente: todas as metas previstas no contrato foram cumpridas, mesmo sem que o hospital fosse entregue como pactuado. Somente as cirurgias eletivas não tiveram o número previsto, por falta de equipamentos e por excesso de necessidade de cirurgias urgentes (estas muito além do pactuado); temos arquivado no hospital as opiniões de muitos que foram atendidos, que preencheram formulário existente e disponibilizado a todos. Por estes, 82% disseram que o atendimento foi bom ou ótimo e 18% ruim ou péssimo. Ora, para um hospital em implantação, sem sua aparelhagem toda, com diversas deficiências de infraestrutura de responsabilidade do contratante (prefeitura), me parece excelente. Financeiramente o prefeito deixou de nos pagar, até maio, quando interveio, quase R$ 6 milhões, levando o contrato ao pé da letra. Esse valor será claramente demonstrado e cobrado. Também gostaria de dizer que a CVB, e em especial a filial do RS, preocupa-se sobremaneira com a transparência, por isso tudo o que é “jogado ao vento” por edis e pelo prefeito e sua turma de forma distorcida (por ignorância ou má-fé) é refletido na nossa contabilidade arquivada documentalmente no hospital, até sua intervenção.



Reportagem publicada no jornal Diário do Litoral - DIARINHO
Edição de 21 de maio de 2012


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guerreiros do mar - histórias de sobrevivência no oceano


GUERREIROS DO MAR
Histórias de sobrevivência no oceano
Velejadores da Volvo Ocean Race encaram as dificuldades em alto-mar durante a competição. Mas, além dos atletas, a fúria das marés já deixou muitos pescadores de Itajaí de frente com a morte

Por Cláudio Eduardo
claudio@diarinho.com.br

Os diários de bordo dos velejadores que participam da Volvo Ocean Race podem impressionar. Eles passam por maus bocados em alto-mar. Mas, sem a mesma celebração recebida pelos atletas, muitos pescadores têm no oceano a sobrevivência. E é lá também que esbarram com os perigos e, não raro, se deparam com a morte. Hoje Itajaí se abre para a vela internacional ao sediar a única parada da Fórmula 1 dos mares na América Latina. Contudo, muito antes disso, é uma cidade que vive da água – seja pelo transporte, alavancado pela movimentação de contêineres no Porto, ou pela pesca. Não por acaso os nativos recebem o título de peixeiros.

 Fotos: David T. Silva
Eros trocou as redes de pesca pela burocracia de um sindicato. Há quatro meses, resolveu mergulhar de cabeça nos papéis e largar, mesmo que temporariamente, os riscos que enfrentou nos últimos 20 anos como pescador profissional. O pai também era do ramo. Outros cinco irmãos viviam da mesma atividade. Mas Eros Aristeu Martins, hoje com 53 anos, teimou em ficar longe do oceano. Somente depois dos 30, assumiu a profissão que foi hereditária até a geração dele. “Comecei tarde porque me dediquei aos estudos. Sempre ouvia minha mãe pedindo para eu não seguir os passos do meu pai, que pescou dos 13 aos 60 anos. Mas não teve jeito. Meus irmãos diziam que era uma carreira promissora, aí resolvi entrar”, conta. Casado e pai de três filhos, Eros reforça que nenhum deles é pescador.
Apesar de estar temporariamente afastado do mar e não ter a certeza se volta para o ofício, Eros não consegue se desvincular do cotidiano dos pescadores. Vira e mexe, recorda das aflições que sentiu a milhas de distância de casa. Quando comparado aos atletas da Volvo Ocean Race, reconhece as dificuldades que eles encaram na competição. Entretanto, sabe exatamente onde está a diferença entre os velejadores e os profissionais da pesca. “Eles têm todo suporte necessário. Eu costumo dizer que não existe acidente leve em barco. Tudo é grave. Só que se o pescador tivesse a estrutura que os velejadores têm, não morreria nenhum. Às vezes o socorro para um pescador demora até 24 horas”, ressalta.
Pela mesma água que, idas após idas, Eros trouxe o ganha-pão, viu companheiros não voltarem. “Mesmo antes de ser pescador, eu já tinha perdido amigos. Teve um que caiu na água e até hoje não encontraram o corpo. Nesse caso é triste porque a família ainda tem esperança que ele esteja bem em algum lugar”, relata, crente de que o amigo realmente não conseguiu escapar da fúria das marés. Em outra situação, dessa vez mais recente, um simples acidente foi fatal. “Há dois anos o chumbo trancou na mão e ele foi para a água junto com a ponta da rede. Puxaram de volta, mas a rede veio vazia. E não acharam mais”, lamenta.
Poderia ter sido ele...
No emaranhado de memórias, uma lembrança se destaca dentre as histórias de luta em alto-mar. Era meados da década de 1990. Num barco com 16 tripulantes, Eros trabalhava como segundo motorista – um posto que, na aeronáutica, se equivale ao co-piloto – e depois de uma pescaria acertada, que rendeu 14 toneladas de sardinha, estava pronto para retornar para terra-firme. Os peixes estavam no porão. Ele lembra que começava um vento sul, que é respeitado por todo pecador. E foi quando um bote da traineira (embarcação da modalidade do cerco) bateu sem que ninguém notasse a avaria. A essa altura, a “Primavera 16” estava a 45 metros de profundidade, num extremo entre os estados de Santa Catarina e Paraná. “Todos foram dormir. Só eu e outros dois tripulantes ficamos acordados. Quando o mestre do barco acordou, lá pelas 6h, duas horas depois que começamos a viagem de volta pra costa, ele notou que o fundo da embarcação tava muito enterrado na água e disse que não tínhamos peixe para esse peso todo”, narra.
Neste momento, o “Primavera 16” já estava próximo das águas do município de Penha, a cerca de 25 metros de profundidade. “Ele ligou para a firma e deu as duas opções que a gente tinha: ir em direção a costa para que o barco encalhasse na praia, ou tentar chegar até Itajaí para atracar, mesmo sabendo que não daria tempo e que iria afundar quando a gente tivesse chegando em Navegantes”.
Escolheram a primeira opção. Caso contrário, Eros acredita que não teria chance de sobreviver. “Ainda bem que encalhou na praia da Armação. Se afundasse antes, eu estaria perdido. Quando começou o desespero em alto-mar, a primeira coisa que fiz foi me abraçar a um colete salva-vidas, porque eu nado muito mal”, revela. Mesmo depois do susto, três dias depois, o barco foi arrumado e eles voltaram para o oceano.
“A gente passa a ter mais cuidado depois que vive uma coisa assim, mas ter medo, não. O pescador, geralmente, só sabe fazer aquilo ali. Por isso está neste trabalho, porque precisa sobreviver. E passa a ser a vida dele. Dependendo do tipo de modalidade de pesca, ficamos 25 dias num barco e cinco dias em casa”. E seguem na luta, mesmo sem as glórias de um atleta. Morador de Itajaí desde os oito anos, Eros sempre passou pelo rio Itajaí-açu antes de encarar os mares. No entanto, nunca foi recebido com honrarias. E nem queria. Entrava no barco apenas para sobreviver.

Palavra de um pescador: “só continuo porque preciso”

Dos 54 anos de vida, Servásio Cardoso Filho, o Vavá, dedicou 39 à pesca. Viu tempestades, ondas gigantes, mas nunca vai esquecer o dia em que o barco que ele comandava foi ao fundo. Era 1994. A embarcação que Vavá dividia com outros dois tripulantes ia em socorro de outra que estava com dificuldades em alto-mar. Eles levavam tambores para que o outro barco pudesse boiar até chegar em terra-firme. Lá pelas 7h, o mestre passou pela cozinha e percebeu que a água estava subindo. Foi tudo muito rápido. “Não dá nem para explicar. Eu passei pela cozinha e estava tudo legal, logo que voltei vi que tava entrando muita água”, recorda Vavá.
Na época, a embarcação não tinha sequer colete salva-vidas. O pescador conta que foi com o barco em direção à costa, mesmo ciente que não daria tempo para atracarem antes do naufrágio. “Antes que fosse ao fundo, eu fiz sinal para um barco que vinha de longe, na esperança que eles viessem nos socorrer. O nosso afundou, o cozinheiro segurou num colchão e o motorista e eu ficamos boiando. Até que chegou o socorro. Levamos sorte, mas nunca vou esquecer daquele dia!”, jura Vavá.
Ele confessa que já pensou em desistir da carreira. No entanto, sabe que é do mar que tira o sustento. “Só continuo porque preciso. Não é um trabalho fácil. Tem dias que nem saio de casa, quase morro de dor”, reclama, enquanto se prepara para a próxima viagem.

UM SOBREVIVENTE
Gervásio viu cinco companheiros de tripulação serem engolidos pelo mar
No naufrágio que resultou na morte da maioria dos tripulantes, o pescador aposentado foi um dos quatro que ficou para contar a história
Aos 74 anos, o mar ficou apenas na lembrança do pescador aposentado Gervásio Manoel Laurenço. E as recordações não são as melhores. Dentre os tantos momentos difíceis que passou no oceano, nenhum se compara a vez em que viu mais da metade dos companheiros de tripulação serem engolidos pelas águas turbulentas do Atlântico. Dos nove pescadores que estavam a bordo, apenas Gervásio e outros três sobreviveram.
Tudo aconteceu há três décadas, quando trabalhava em uma empresa pesqueira de Santos (SP). Ele recorda que o tempo estava fechado, mesmo assim o mestre da embarcação resolveu que eles encarariam o mar. “Eu falei para ele que devia ao menos apagar as luzes, senão não conseguiríamos enxergar alguma laje em alto-mar. Ele me disse que eu não mandava em nada”, conta. A postura do comandante do barco custou caro. Na escuridão da madrugada, colidiram com um pedregulho.
Gervásio trabalhava na modalidade de pesca parelha – quando é preciso dois barcos para puxar a rede e capturar os peixes. No momento da colisão, o outro não estava por perto. Eles já retornavam para terra-firme, mas ainda afastados da costa. “Tinha muita chuva e muito vento forte. Nós vínhamos na frente. Quando o barco bateu, ficou em cima da pedra”. O mestre e outro tripulante decidiram nadar em busca de abrigo na outra embarcação que deveria estar a caminho. Os outros sete ficaram agarrados na pedra, protegidos, mesmo que parcialmente, pelo barco suspenso.
“Descemos por um cabo e ficamos lá das 21h até a meia-noite. Eu cheguei a pegar meus documentos de pesca e algumas roupas. Mas quando desci já vi que não tinha salvação. O mar tava ficando cada vez mais grosso”, lembra. Na agitação das ondas, o barco foi arrancado de cima do pedregulho e afundou. Com isso, os sete pescadores ficaram mais vulneráveis à fúria da maré. “A embarcação nos protegia. Depois que afundou, veio uma onda grande e assim que passou pela pedra lançou cada um para um lado”, recorda.
Foi neste momento que Gervásio e outro colega de trabalho perderam os demais de vista. Começaram a nadar e, depois de uma hora, foram socorridos, levados para um hospital em Santos. Estavam todos machucados pelo atrito com o pedregulho. Entretanto, o instinto de sobrevivência superava qualquer dor. Eles se salvaram.
Mas nem havia o que comemorar. Os outros cinco não conseguiram resistir ao mar agitado. Gervásio não esquece sequer o lugar de onde cada um deles vinha: dois de Navegantes, um de Porto Belo, um de São Paulo e outro de Penha. “Os socorristas deram voltas por aqueles lados e não acharam ninguém. Todos os outros corpos foram encontrados, aos poucos. Menos o de Porto Belo, que era meu primo”, relata o pescador aposentado. Ele lembra que as águas estavam muito agitadas. Nem mesmo o mais habilidoso dos nadadores entre os tripulantes conseguiu sobreviver. “Meu primo nadava igual um peixe. Provavelmente deve ter batido com a cabeça na pedra ou algo assim. Nunca vamos saber”.
Tragédia (quase) anunciada
Não bastasse a teimosia do mestre da embarcação antes de irem para alto-mar, Gervásio conta que uns 20 dias antes do naufrágio o mesmo barco afundou. Alguém deve ter deixado semi-aberta a bomba – por onde entra água – e ninguém percebeu que, aos poucos, mesmo atracada, a embarcação ia para o fundo. “Eu estava sozinho, quando alguém gritou, cheguei a cortar o cabo e deixar descer. Voltamos para casa até que eles subissem o barco e arrumassem”. Feito isso, embarcaram para a trágica pescaria.
Mesmo depois do naufrágio que resultou na morte de cinco tripulantes, Gervásio diz que não podia desistir da profissão. Contudo, para enterrar (ou aliviar) as más lembranças, trocou de empresa. Veio trabalhar numa pesqueira do Sul. “Já passei por muitas coisas ruins. Dava medo na hora, chegava a dizer que não voltaria, mas depois ia de novo”, confessa.
Apesar de ressaltar os perigos, ele acredita que as tecnologias aliviaram o trabalho em alto-mar. Na época dele, todo o processo de pesca era feito na mão, sem nenhum outro recurso que não fosse a força. “Passei muito sacrifício. Embarcado fiquei muitas vezes sem dormir, passei fome... Vi a morte de perto!”, conclui, com a voz embargada, inundada em recordações que, talvez, preferia ter esquecido num mar qualquer.

Sofrimento para quem fica em terra-firme

Nos 48 anos de casada com Gervásio, dona Mariquinha – ou Maria Adelina Laurenço, como a certidão de nascimento teima em nominá-la – passou por momentos de desespero. Na vez em que houve o naufrágio e que o marido ficou um mês internado em outro estado, sequer pôde ir visitá-lo. “Minha filha mais velha estava para morrer de sarampo. E ele lá. Queria, mas não tinha como deixar a menina para ir ver ele”, desabafa a aposentada de 70 anos.
Cada vez que Gervário vinha para casa, ela não fazia questão de mudar a ladainha. “Eu não queria mais deixar ele voltar. Insistia, mas como não tinha jeito de fazer mudar de ideia eu só dizia para ele ir com Deus”, salienta Mariquinha. O casal teve quatro filhas e, hoje, 11 netos. “Ainda bem que só tive mulheres. Não fiz nenhum homem que pudesse ir para a pesca”, comenta Gervásio, em tom de alívio por não passar pela mesma angústia que a família vivia enquanto ele navegava.
“Quando via que ia chover, eu ficava pendurada na janela, junto com as pequenas, rezando por ele”, conta Mariquinha. Fora o naufrágio, ela também lembra de uma vez em que viveram momentos de terror. Dessa vez, a tragédia foi em terra – mas o patriarca estava em alto-mar. “Eu estava embarcado, quando recebi o chamado de que a casa, que eu tinha passado tanto trabalho para construir, tinha sido destruída num incêndio. Pedi para voltar. Isso faz uns 38 anos. Foi por causa de um curto-circuito. Queimou tudo e, por pouco, minha filha que tava dentro de casa não morreu também”, desabafa o pescador.
Gervásio diz que assim que viu o estrago, não sabia o que ia fazer da vida. Depois disso, desistiu do terreno. Não queria olhar para nada que o lembrasse da perda. Comprou um terreno no bairro São João, em Itajaí, onde vive até hoje. Depois de 15 dias do incêndio, voltou para as águas do Atlântico para, da mesma forma que fizera antes, construir o patrimônio da família. “Decidi que ia recomeçar. E fui. O fogo me fechou uma porta, mas Deus abriu muitas outras”, finaliza, orgulhoso da vida calma que leva hoje, ao lado de dona Mariquinha, das filhas e rodeado pelos netos. Transformou as tristezas em histórias. E virou a página.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Prefeituráveis de Itajaí na "Prefa Ocean Race"!


PREFA OCEAN RACE
       Jandir Bellini tá na frente, seguido de Níkolas e Pissetti

Pesquisa da Univali confirma mudança na posição dos pré-candidatos a prefeito de Itajaí em relação ao ano passado


Cláudio Eduardo
claudio@diarinho.com.br

Os barcos já estão na água. Desde a largada, não houve mudança na ponta. O líder permanece com distância considerável em relação ao segundo colocado. Pouco atrás, o terceiro velejador foi ultrapassado. Culpa o vento, ou a falta dele. De olho na reta final, há quem ameace pular para outro barco para compartilhar os louros da vitória, caso ela venha. Cada um com sua estratégia. Importante desviar de icebergs e outros obstáculos que ainda surjam pelo caminho que leva à linha de chegada, que só será cruzada em outubro deste ano. Quem irá erguer o troféu da Prefa Ocean Race?




A julgar pelos dados divulgados pelo instituto de Pesquisas Sociais (IPS) da Univali, o prefeito Jandir Bellini (PP) está bem perto de se reeleger. No levantamento feito em maio do ano passado, ele tinha 40,53% da intenção de votos. Na nova pesquisa, Jandir subiu pouco. Mas subiu. Ao contrário, teve quem registrou perda do eleitorado. Níkolas Reis (PT), por exemplo, teve uma queda de 13,27%. No entanto, não foi ele quem mais caiu na pesquisa. Deodato Casas (PSDB) saiu dos 14,44% para 8,95%, despencando da terceira para a quarta posição. O tucano foi ultrapassado pelo presidente da câmara de Vereadores, Luiz Carlos Pissetti (DEM), que teve um aumento de 11,46% em relação aos dados de 2011.
É a primeira pesquisa de intenção de votos divulgada neste ano. O IPS Univali ouviu 626 pessoas pelos bairros de Itajaí, seguindo a proporção de votantes por comunidade, conforme informações do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Os dados foram coletados entre os dias 14 e 15 de maio. Os pré-candidatos Antônio Carlos Moom (PRB) e Dolor da Silva (PRP) não alcançaram 1% na preferência dos entrevistados. Além disso, os indecisos – na soma dos que não sabem, não quiseram responder ou pretendem anular o voto – representam 18,69%. O índice de confiabilidade é de 95% e a margem de erro é de 3,99% para mais ou para menos. Conforme prevê a legislação, a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número SC-00010/2012.
Com a palavra, os velejadores!
Jandir ficou contente com o resultado da nova pesquisa. Conseguiu crescer a aceitação dos eleitores em 1,68% em relação à pesquisa de dez meses atrás. “É um reflexo das ações do governo, do número de obras que estamos realizando. E o número de intenção de votos vem se mantendo, com pequenas oscilações. Mas vamos trabalhar para que possa crescer”, afirma.
Por outro lado, Pissetti, depois que rompeu com a base governista, conseguiu ampliar ainda mais o índice de intenção de votos. Dentre os pré-candidatos apontados pelo IPS Univali, ele foi o que mais cresceu proporcionalmente: passou dos 9,6% para 10,7%. “O povo começou a olhar para mim, sinto isso nas ruas. Coisa que não acontecia antes”, conta o democrata, garantindo que sente aumentar a aceitação do povo.
Faltou vento?
Ano passado, Níkolas tinha a justificativa de que muitas pessoas ainda esperavam o ex-prefeito Volnei Morastoni (PT) como candidato. Agora o cenário é outro. Volnei já declarou publicamente que está fora das urnas neste ano e que Níkolas é o representante do PT. Mesmo assim, ao invés de subir, ele caiu na pesquisa: passou dos 21,92% para 19,01%. “Está dentro da margem de erro. Não vejo qualquer prejuízo. O crescimento vai vir naturalmente, mas para a largada acho que está muito bom”, avalia o petista.
Já a queda de Deodato foi maior. Do ano passado para cá ele caiu 38,01% na pesquisa. “Fico surpreso com isso. Esse número não condiz com o que temos de dados de pesquisas internas. Não consigo entender!”, comenta o tucano. Apesar de não acreditar no resultado, ele diz que vai encarar os dados como incentivo para trabalhar ainda mais.

Níkolas Reis é o único que teve aumento no índice de rejeição


Dos quatro pré-candidatos a prefeito que lideram a corrida eleitoral, segundo os dados do IPS Univali, Níkolas foi o único que teve aumento no índice de rejeição em relação ao levantamento do ano passado. Ele era o último do quarteto neste quesito negativo, mas agora passou para a segunda posição. “Imagino que ainda vá crescer mais, porque tanto eu quanto o Jandir temos uma natural rejeição política, não pessoal”, acredita o petista.
E Níkolas realmente só não está mais renegado que o atual prefeito. Jandir tinha rejeição de 22,23% em 2011, agora caiu para 17,57% – mesmo assim, continua superior aos 15,18% do petista. “Como Itajaí tem a tradição de ter situação e oposição bem fortes, então é claro que o candidato que está no governo vai ter rejeição. O que me resta é torcer muito para que a aceitação aumente”, salienta o prefeito.
Também diminuiu...
Pissetti era o segundo nome mais rejeitado. Caiu. E ele diz que concorda com os números e sabe exatamente o que mudou. “A minha rejeição é daquelas que dá para mudar. Conforme as pessoas vão me conhecendo, confirmam que, apesar desse meu jeitão italiano, sou uma pessoa do bem e acabam gostando de mim. E já sinto essa diferença conforme faço visitas pelos bairros”, destaca. Por outro lado, Deodato, mesmo reduzindo em 66,69% o índice de rejeição, não concorda com o saldo. “Caiu? Mas não mudei nada na minha conduta. Não consegui acreditar no que saiu na pesquisa do ano passado, e ainda acho que essa está mais alta que a realidade”, reclama o tucano.



Jandir tem o menor índice de transferência


E se o prefeito realmente estiver impossibilitado de concorrer na eleição deste ano por causa da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em relação à validade da lei da Ficha Limpa? Caso precisasse indicar outro nome para substituí-lo, a pesquisa desfavorece Jandir. Dos quatro principais pré-candidatos considerados pelo IPS Univali, ele é o único que tem menos de 10% de índice de transferência de voto. “No processo eleitoral, os partidos não têm mais uma expressão tão grande junto à população. A maioria escolhe a pessoa do candidato e não a sigla. Nem sempre isso é bom”, analisa Jandir.
Quanto a ter a candidatura impugnada por causa de uma condenação por improbidade administrativa, o prefeito não põe fim à possibilidade. “Eu não sou dono da verdade, então não posso dar certeza absoluta da minha candidatura. Aliás, nenhum pré-candidato pode dizer isso, porque está sempre sujeito a alguma situação pelo percurso”, afirma o progressista.

É pré-candidato a prefeito, sim!


Apesar do IPS Univali não ter colocado o nome do vereador Marcelo Werner (PCdB) na lista dos postulantes a prefeito, ele ressalta que continua no páreo. A justificativa do coordenador do instituto, Sérgio Saturnino Januário, é de que o representante do PCdoB estaria com acordo encaminhado com o PT (de Níkolas) que, por sua vez, estaria bem próximo de uma aliança com o PSDB (de Deodato). Com isso, na avaliação do responsável do IPS, só restaria a Marcelo a possibilidade de ser candidato ao legislativo. “Nossa constatação é de que ele deve sair para vereador. Em outras pesquisas que fizemos, ele teve desempenho muito inferior até mesmo para ser vice-prefeito, por isso foi excluído”, explica Sérgio.
Marcelo lamenta a decisão. “Sou pré-candidato a prefeito, sim! Infelizmente o instituto julga antes de saber”, lamenta o vereador, que também é presidente do PCdoB de Itajaí. Ele diz que segue nas visitas aos bairros, na produção do plano de governo e na conversação com outras siglas partidárias para possíveis alianças. “Não há nada decidido ainda. Por isso que fico frustrado com um instituto com o da Univali me excluindo. Mas já foi a mesma dificuldade que enfrentei quando concorri para vereador. É o preço que se paga por ser pequeno”, reclama, enquanto coloca o barquinho na disputa. E segue a competição mar adentro...

*Reportagem publicada na edição de 29/03/2012 no jornal DIARINHO.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Contrapartida nunca cumprida! Reportagem Especial.


CONTRAPARTIDA
A lei esquecida e o prejuízo milionário para os cofres de Balneário Camboriú

Passarela deveria ter sido construída há quase uma década pelo grupo Tedesco. Mas é a prefeitura que está prestes a gastar R$ 22,9 milhões pela obra



Texto: Cláudio Eduardo
Fotos: Flávio Tin

A mesma lei que concedeu ao setor privado o direito de explorar área nobre e pública de Balneário Camboriú determinou que as empresas fizessem algo em troca. Como recebeu do município a autorização para implantar o complexo turístico “Costão de Camboriú Resort & Marina”, o grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos ficou obrigado a construir uma passarela entre os bairros da Barra e Barra Sul. A lei foi assinada pelo então prefeito Leonel Pavan (PSDB) há mais de 10 anos. Passado esse tempo, os moradores continuam atravessando o rio Camboriú em uma barca. A obra nunca saiu do papel. Finalmente, está agendada para esta semana a assinatura da ordem de serviço. Mas não é o grupo Tedesco que dá partida à construção – mesmo que tardia – da ponte, é a administração municipal. E o projeto está orçado em R$ 22,9 milhões. Tudo à custa dos cofres públicos.
Em 18 de dezembro de 2001, quando Balneário Camboriú era administrada por Pavan, foi assinada a lei depois que o projeto já havia seguido todos os trâmites: desde a análise e aprovação na câmara de Vereadores até a sanção na prefeitura. O texto do projeto que autoriza a implantação do complexo turístico passou pelo aval de muitas autoridades da cidade. Entretanto, parece que não foi o suficiente para que ao menos uma delas memorizasse o conteúdo, fiscalizasse os envolvidos e garantisse o cumprimento do acordo, firmado através da lei 2102/2001.
Duas empresas receberam o direito de explorar a região que hoje atrai tantos turistas em Balneário. A Barra Sul Participações Empresariais e o Grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos ergueram – conforme queriam – o complexo turístico. Quem já passou pela região sul do balneário certamente percebeu, por exemplo, os barcos na Marina Tedesco. Sobre eles, deveria estar uma passarela. Só que nunca foi construída. Na mesma lei da concessão, assinada no fim de 2001, fica clara a obrigação das empresas: “em contrapartida à aprovação do projeto, ficam as empresas responsáveis pela parceria obrigadas a edificar uma passarela para pedestres e ciclistas, sobre o rio Camboriú, ligando os bairros da Barra ao Barra Sul”.
E o texto da lei não deixa margens para interpretações. Além de ressaltar a contrapartida, estipula prazo para a realização da obra e multa para o caso das empresas extrapolarem o período determinado. O grupo Tedesco deveria finalizar a passarela em até 30 meses após a publicação da lei, portanto, o prazo esgotava em 18 de junho de 2004. A lei também deixa claro que não seria permitida a prorrogação e que deveria ser cobrada multa diária pelo município. Nem a ponte foi construída, nem a penalidade aplicada. Mesmo assim, em outubro de 2005 o novo prefeito de Balneário, Rubens Spernau (PSDB), assinou um decreto declarando de interesse público e social o complexo turístico “Costão de Camboriú Resort & Marina”. A finalidade do documento foi justamente selar a lei 2102/2001 para que as empresas conseguissem o licenciamento para a construção às margens do rio Camboriú.

O esquema das empresas:

Grupo Tedesco e Santinho Empreendimentos Turísticos S/A
Por ser uma sociedade anônima, não há como precisar quem são os sócios do grupo. Os beneficiários ficam – como sugere o nome – no anonimato.

Barra Sul Participações Empresariais Ltda
Extinta em 10 de abril de 2006.
Sócios:
- Marco Antônio Tedesco, com R$ 300
- Malda Empreendimentos e Participações Ltda, com R$ 19.440.250
          Sócios:
          - Marco Antônio Tedesco, com R$ 15.252.040
          - Alda Regina Maffessoni Tedesco, com R$ 4.396.400
          - Marcelo Maffessoni Tedesco, com R$ 1.289.490
          - Cristiane Maffessoni Tedesco, com R$ 1.289.490


“Acho que eles construíram outra coisa em contrapartida”

No decreto, Rubens Spernau justificou as razões pela qual o grupo Tedesco e afins mereciam ser considerados de interesse público. Destacou a importância da marina para a melhoria do transporte marítimo, pontuou que o complexo colocaria Balneário Camboriú na rota internacional de navegadores ao oferecer 600 vagas para embarcações e ressaltou que, além de incrementar o turismo, geraria mil empregos diretos na cidade. E, com o fascínio, assinou. No entanto, deixou escapar um detalhe: a contrapartida.
Passados mais de seis anos, Spernau diz não lembrar ao certo o motivo da obra não ter saído do papel e a razão da prefeitura não ter cobrado isso das empresas responsáveis pelo complexo turístico. “Na verdade, lembro que chegaram a fazer esse projeto. Não estou sendo vago, mas é que realmente não me recordo o que aconteceu, por que não fizeram a passarela. Acho que eles construíram outra coisa em contrapartida, mas realmente não sei ao certo o que foi”, comenta o ex-prefeito, hoje afastado da vida pública para se dedicar exclusivamente às atividades no setor privado.
Por fim, Spernau dá uma sugestão: por que não perguntar ao grupo Tedesco o motivo da passarela não ter sido construída até hoje? Boa ideia! No entanto, o departamento de Marketing da marina pediu que a reportagem do DIARINHO encaminhasse, via e-mail, as perguntas para que alguém da diretoria respondesse. A mensagem eletrônica foi enviada, novas ligações telefônicas foram feitas, e ninguém da diretoria se pronunciou a respeito.
Ministério Público vai analisar
A reportagem procurou a promotoria de Justiça de Balneário Camboriú para expor o caso. O representante do Ministério Público pediu um prazo antes de se pronunciar. Explicou que precisava conferir se já não havia alguma denúncia semelhante tramitando pelas gavetas do órgão estadual para, aí sim, se pronunciar a respeito e apontar quais as medidas serão exigidas com relação às empresas que descumpriram a lei e, quem sabe, aos que se omitiram na fiscalização do cumprimento legal.


Diarista atravessa o rio Camboriú seis vezes por semana para trabalhar



Desde que veio morar em Balneário Camboriú, há um ano, o percurso de Rosimari Oliveira da Silva se repete. A diarista de 36 anos atravessa, ao menos seis vezes por semana, o rio Camboriú. Ela é uma dentre os tantos moradores do bairro da Barra que dependem da balsa para fazer a travessia. Sem saber o que diz uma lei municipal – até então escondida e bem engavetada, a 2102/2001 – Rosimari é uma vítima desse conflito entre os interesses público e privado. Faça chuva ou faça sol, ela precisa cruzar o rio dentro no barco oferecido pela prefeitura. E sabe o quanto uma passarela coberta aliviaria a trabalhosa rotina dos moradores da comunidade.
“Como preciso trabalhar, atravesso. Mas tem vezes que é bem complicado. Dia de chuva, por exemplo. Estão falando que vão construir uma passarela fechada, se tivesse há mais tempo seria bem melhor para nós”, conta a diarista, enquanto cruza o rio na balsa em miniatura que contrasta com os iates espalhados ao longo do rio, na Marina Tedesco. “Tem vezes que esse barco estraga, aí temos que ficar esperando por muito tempo, porque eles substituem por um barquinho menor com capacidade para cinco pessoas”, lembra Rosimari, desejando que a obra da ponte para pedestres e ciclistas fique pronta o mais rápido possível. E torce para que, enfim, os bairros da Barra e Barra Sul fiquem conectados, conforme os moradores dessas comunidades dizem já ter ouvido promessas em campanhas eleitorais – das mais antigas às recentes.


Sem saber, prefeito começa a obra que deveria ter sido feita pelo grupo Tedesco

 (Projeto da passarela - Divulgação)

Esqueçam só por um instante que as empresas responsáveis pelo complexo turístico na Barra Sul deveriam (por obrigação!), conforme manda a lei, construir a passarela sobre a Marina Tedesco. Está agendada para a próxima quarta-feira, às 19h, a cerimônia para a assinatura da ordem de serviço das obras da ponte sobre o rio Camboriú. Quem toma a balsa todo o dia deve ter, inclusive, percebido que máquinas da prefeitura já deram início aos preparativos da obra, enquanto a empresa que venceu a licitação não começa o trabalho.
A passarela vem como promessa de ser um cartão-postal pra Balneário, que já é um município consagrado no quesito turismo. A obra deve ficar pronta em 10 meses e o custo estimado é de R$ 22,9 milhões – pagos pelos cofres públicos. “Um sonho de 47 anos que vai se tornar realidade, aliando a funcionalidade, pois permitirá a travessia da Barra Sul até a Barra de maneira segura e gratuita, e o componente turístico. Muito mais do que uma ponte, uma travessia, a passarela estaiada será um novo cartão-postal e fará parte de um complexo turístico naquela região da cidade”, discursa o prefeito Edson Periquito (PMDB).
De acordo com o presidente da companhia de Desenvolvimento e Urbanização de Balneário Camboriú (Compur), Niênio Gontijo, as máquinas da prefeitura param de trabalhar na margem do rio Camboriú amanhã. E na quinta-feira, a empresa que venceu a licitação dá início à obra da passarela. Além disso, ele destaca que o projeto foi concebido tendo total preocupação com os barcos – inclusive os da Marina Tedesco. “Extremamente moderno, é dotado de detalhes técnicos especiais, como o fato de ser suspenso por estaios, possibilitando a navegabilidade no rio sem prejuízo algum”, destaca.
A ponte colocará fim aos tempos da balsa. As pessoas poderão cruzar o rio Camboriú quando quiserem e sem pagar nada. Atualmente, o barco limita a travessia dos moradores ao horário das 6h à 1h. A passarela ficará aberta 24 horas. O projeto prevê estrutura de concreto, aço e vidro, a uma altura de 25 metros acima do nível do rio, duas torres de acesso nas extremidades, com dois elevadores de cada lado e espaço para a instalação de dois restaurantes, um em cada ponta da passarela. No total, são 196 metros de comprimento e um vão central livre de 116 metros.

“Estou empolgado com a obra. E ela vai sair de qualquer jeito!”

Só no vislumbre do projeto, a passarela sobre o rio Camboriú já se tornou a menina dos olhos do atual prefeito. Tanto é que a previsão de conclusão da obra é para o mês de dezembro. Ele nem fez questão de atropelar algumas etapas ou detalhes do planejamento para acelerar o processo e inaugurar antes da disputa municipal de outubro, em que busca a reeleição. Preferiu esperar, e deixar do jeito que sempre sonhou.
Periquito ficou espantado ao atender a reportagem do DIARINHO. Garante que não fazia ideia da previsão de uma contrapartida do grupo Tedesco, prevista em lei, e justamente direcionada a um dos principais projetos da administração deste ano. “Desconheço essa situação. Vou pedir para o jurídico da prefeitura analisar isto e ver quais medidas devemos tomar”, salienta. O prefeito sequer cogita a possibilidade de interromper o andamento da obra – às vésperas de ela realmente começar – por causa deste fato novo. Ao contrário, quer ver uma forma dos Tedesco pagarem pela passarela sem causar atrasos no cronograma dele. “Se está na lei, tem que ser cumprido. Agora vamos discutir como é que eles vão nos pagar. Estou empolgado com a obra. E ela vai sair de qualquer jeito!”, finaliza, transbordando confiança. Para Periquito, dezembro será o mês de cortar a fita inaugural da passarela.


Reportagem publicada no caderno Especial do DIARINHO,
em 13 de fevereiro de 2012 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Primeira reportagem de Abu Dhabi - parada da Volvo Ocean Race


Ver para crer... Depois escrever!

 


A beleza de Abu Dhabi é tanta que, por fotos, parece mentira que um deserto tenha se transformado nesta potência econômica mundial. A capital dos Emirados Árabes é o ponto de parada da Volvo Ocean Race da vez. E o DIARINHO está lá, do outro lado do mundo, conferindo de perto a grandeza do evento que vai chegar em Itajaí em abril.

“A etapa da Nova Zelândia pra Itajaí, realmente , é o ápice da volta ao mundo”, garante Joca Signorini, único brasileiro a competir nesta edição da Volvo Ocean Race

 

Por Cláudio Eduardo


 Numa mesma vila, a Volvo Ocean Race reúne pessoas das mais diferentes culturas, aparências e idiomas. Até o próximo sábado, a parada é Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes. Nessa torre de babel, depois de uns cumprimentos forçados num árabe aprendido em cartilha de hotel, umas enrolações num inglês enferrujado e umas conversas no já famoso jeitinho brasileiro de achar que domina o espanhol, enfim encontro um tupiniquim. Quando chego à vila, depois de passar por umas apresentações de homens e meninos vestidos de branco jogando lanças – ou algum objeto pontiagudo similar – percebo que o barco do Telefónica atraca no mar cor de esmeralda da capital árabe. Sigo para lá na tentativa de uma entrevista com o único representante do Brasil competindo na VOR: João Signorini, o Joca.
Para quem não conhece muito desse esporte e ainda não ouviu falar deste nome, Joca tem histórico nas regatas mundo afora. Para compor o time da Telefónica – equipe espanhola que está liderando a VOR – abriu mão de disputar os jogos olímpicos de Londres. No entanto, o currículo dele registra uma passagem pela disputa olímpica, apesar da medalha não ter vindo. Em Atenas, no ano de 2004, Joca foi o décimo colocado na classe Finn. Mas foi realmente na competição de longa distância que Joca consolidou seu nome no esporte marítimo. A convite do campeão olímpico Torben Grael, encarou o desafio de cruzar os mares na VOR. Primeiro no Brasil 1, depois no Ericsson, no qual foi sagrado campeão, na disputa que começou em 2008 e terminou no ano seguinte.


Entrevista com Joca Signorini, representante do Brasil na VOR



DIARINHO – O título de bicampeão está mais próximo? Tem chance da Telefónica perder esta liderança da VOR que parece tão consolidada?
Joca Signorini – Falta muito ainda. A regata é muito grande. A gente teve um bom começo, mas falta muito – estamos na segunda etapa de nove, sendo que ainda tem as regatas locais em todos os portos. A gente fez um trabalho muito bom de preparação e eu acho que temos velejado bem, temos dado sorte, porque as coisas têm dado certo pro nosso lado. Então continuamos confiantes no bom resultado. Mas outros barcos também estão velejando muito bem, o Camper tem sempre estado na nossa cola. Tem sido bem difícil. Sempre que conseguimos um bom resultado eles ficam em segundo. Por isso é muito importante manter essa constância, trabalhando duro no desenvolvimento do barco pra no final ver o que vai dar.

DIARINHO – E hoje qual o trecho mais difícil que vocês têm pela frente?
Joca – Cada etapa tem a sua característica, sua dificuldade e seu momento de glória. Esta próxima etapa é um pouco complicada. Toda essa situação por causa da pirataria acabou dividindo a etapa e a gente já começa aqui em Abu Dhabi disputando parte dos pontos, 20% dos pontos vão ser nesse sprint inicial. E o importante agora é o que já temos como objetivo, que é na regata local, na sexta-feira, se manter entre os três primeiros nesse sprint, porque sabemos que quando a regata tá curta, tudo pode acontecer. Todas as equipes têm bons tripulantes, bons barcos e eles podem conseguir bons resultados. E a partir daí continua complicado. Não vai ser um trecho muito fácil de velejar, mas as condições devem ser favoráveis ao nosso barco. Acreditamos muito no contra-vento. A gente gosta de ir nessa condição em relação aos outros barcos e nessa próxima etapa temos bastante contra-vento.

DIARINHO – Numa prova como a VOR, qual a maior dificuldade: a preparação física ou as condições climáticas?
Joca – Acho que o conjunto de tudo. É uma regata muito dura, muito longa e você tem que estar bem preparado psicologicamente, fisicamente e o barco também tem que estar bem preparado, porque um pequeno detalhe muda tudo. A gente viu, por exemplo, o Abu Dhabi venceu a regata local em Alicante, na Espanha, e depois, logo na primeira noite, quebrou o mastro. O pessoal mesmo do Abu Dhabi falou que se vai de herói à nada em muito pouco tempo. Acho que a gente tenta manter sempre o ritmo e o desenvolvimento do barco, além de coisas que tentamos fazer pra manter o desempenho e a segurança no barco. Quanto a isso tem que se ir, pouco a pouco, fazendo o dever de casa e quem sabe conseguimos a vitória.

DIARINHO – E a expectativa quanto à parada no Brasil, algum recado para o povo de Itajaí?
Joca – Pessoal de Itajaí, muito obrigado por toda a torcida, todo o apoio. Nós do Telefónica estamos bastante ansiosos pela chegada. A etapa da Nova Zelândia pra Itajaí, realmente é o ápice da volta ao mundo, já que a gente cruza o temido e tão falado cabo Horn. E chegar em Itajaí vai ser uma emoção muito grande pra todo mundo, e especialmente pra mim, que sou brasileiro. Itajaí vai viver alguns dias bastante intensos. Na Volvo Ocean Race os barcos realmente são impressionantes. Dificilmente você encontra barcos como esses em marinas de qualquer lugar do mundo e ter a oportunidade de trazer a regata, os barcos e os velejadores pro Brasil é realmente incrível. Estou bastante satisfeito da regata continuar fazendo parte do calendário brasileiro. E a gente espera bastante festa em Itajaí, porque a recepção é sempre bem calorosa. Com certeza o pessoal do Telefónica espera que a torcida brasileira esteja com a gente.


Líder da Camper promete ultrapassar Telefónica até a etapa de Itajaí

 

 

 

Neil Cox assumiu realmente a bandeira de principal time pra derrubar a equipe espanhola

Joca Signorini reconheceu a Camper como principal adversária do Telefónica na luta pelo título da Volvo Ocean Race. E um dos líderes da equipe que só fica em terra, Neil Cox, não se fez de rogado e assumiu realmente a bandeira de principal time pra derrubar a equipe espanhola que tem levado a melhor na maioria das etapas da regata. Mesmo que os membros das duas equipes não confirmassem, a tabela já demonstra que Telefónica e Camper já travam, mesmo que adiantado, uma batalha pelo campeonato. Hoje os espanhóis (onde o único brasileiro da prova compete) lideram a VOR com 66 pontos. Mas a Camper vem logo atrás, com 58 pontos.
E ontem a reportagem do DIARINHO teve acesso ao barco da Nova Zelândia. Primeiramente deu pra ter melhor noção de como é sofrido o trabalho dos atletas marítimos nessa competição de trajeto longo e complicado. Dentro do barco – fora os solavancos que ficam por conta do oceano – os velejadores se ajeitam num espaço que, além de muito quente (ao menos enquanto está atracado), é extremamente úmido.
Durante a apresentação do barco, Neil Cox não revelou muita coisa quanto à estratégia da equipe, mas adiantou o objetivo: chegar ao Brasil já como líder da VOR. “A nossa estratégia muda de acordo com as condições climáticas, chuva e vento”, comenta com discrição um dos líderes da Camper. Questionado sobre a possibilidade do time pular para o topo da tabela, nem pensou muito antes de responder. “Claro que sim, não é só possível como vamos ultrapassar o Telefónica. Em Itajaí já devemos ter passado eles”, afirma, numa declaração de guerra ao barco espanhol – por vezes brasileiro.



Reportagem publicada no DIARINHO na edição de 12 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reportagem Especial de Abu Dhabi



Uma ilha de progresso rodeada por um mar de velhos costumes

A geografia não é a maior distância entre Itajaí e Abu Dhabi. Estar no calendário de paradas da Volvo Ocean Race é um dos poucos pontos em comum entre as duas cidades. Reportagem do DIARINHO desbrava a capital dos Emirados Árabes e conta o que viu e sentiu do outro lado do mapa



Texto e fotos: Cláudio Eduardo

Abu Dhabi é um emaranhado de cartões-postais. Para cada canto que se olha, há algo surpreendentemente lindo – ao menos no prisma de um ocidental. Na capital dos Emirados Árabes, as construções antigas convivem em harmonia com os gigantescos prédios de arquitetura arrojada. Tudo parece ser projetado numa precisão atípica para alguém acostumado com os cenários brasileiros onde hoje uma rua vai para um lado e no dia seguinte, sem explicações, muda de sentido. Em Abu Dhabi não há remendos. Em alguns locais não é exagero afirmar: é uma maquete futurista em tamanho real.
É a primeira vez que Abu Dhabi recebe uma etapa da Volvo Ocean Race. Contudo, a regata de volta ao mundo não é o único investimento da cidade em eventos esportivos de alto nível. Muita gente não se recorda, mas já deve ter ouvido falar o nome da capital árabe. Em 2009, por exemplo, foi palco do último grande prêmio de Fórmula 1, onde o alemão Sebastian Vettel se sagrou o mais jovem campeão mundial na história da prova. Também foi em Abu Dhabi que o Internacional decepcionou os torcedores colorados ao ser eliminado do campeonato mundial de Clubes da Fifa. A derrota por dois a zero foi para o Mazembe, um desconhecido time do Congo.
E não é só no mundo dos esportes que Abu Dhabi luta para atrair os holofotes. A cidade que é impulsionada pelo mar de dinheiro do petróleo busca se tornar um centro para turistas de todos os lugares do planeta. O cenário é realmente perfeito. Enche os olhos. E a infraestrutura corresponde. Dificilmente um turista – mesmo que não fale o inglês, que substitui o idioma árabe na hora da conversa com pessoas de outros países – passa dificuldades para se locomover pela cidade.
Com dinheiro e boa vontade, até apelar para coisas artificiais é válido. Apesar do clima desértico, Abu Dhabi tenta se tornar a localidade mais verde do Golfo Pérsico. E quem vê confirma: estão conseguindo transformar o visual arenoso em arborizado. Exportam plantas, flores e gramados de tudo quanto é país e para que o verde não morra com o calor forte – que geralmente só alivia um mês a cada ano – eles usam da tecnologia. Um complexo sistema puxa a água do mar e faz o processo de dessalinização antes de usá-la para regar as plantas.

TRADIÇÃO
Mulheres se cobrem da cabeça aos pés para poder sair de casa



Antes de embarcar para Abu Dhabi, recebo instruções: nada de encarar as mulheres, fazer comentários próximo a elas ou sequer fotografá-las. São intocáveis. Esse alerta se tornou um receio ainda maior quando chego à cidade e percebo que outros homens que não são nativos têm o mesmo temor. Não quero deixar brecha para problemas numa terra em que as tradições se sobrepõem a qualquer preceito jurídico aos quais nós ocidentais estamos acostumados.
Elas parecem fantasmas. Desviam olhares, abaixam a cabeça e parecem infelizes pela aparente submissão. Aos poucos, percebo que meu conceito está errado. Numa conversa com um taxista do Paquistão, pergunto sobre as mulheres dos árabes. Ele ri quando percebe resquícios de compaixão no meu olhar. Garante que elas quem mandam em casa. Depois disso paro para observar e percebo que, realmente, as mulheres parecem satisfeitas.
Pelo principal shopping de Abu Dhabi, o Marina Mall, circulam cheias de orgulho, entrando de loja em loja para esbanjar o poder financeiro. Pelas ruas, vira e mexe as burcas pretas se destacam nos cenários estupidamente claros devido às condições climáticas da região. Não satisfeitas, há mulheres que radicalizam. Escondem até o rosto atrás do pano escuro, deixando de fora apenas os olhos. Outras ostentam. Andam todas faceiras com uma burca tão negra quanto a das demais, só que cheia de pedras bordadas. Em Abu Dhabi parece lei: nativos precisam exibir suas riquezas.

PROCURA DA FELICIDADE
Brasileiros vão para Abu Dhabi em busca de mais qualidade de vida



Conheço Solange por acaso. No meio de uma multidão de turistas, ela identifica minha nacionalidade. E a conversa começa. Fui conhecer um dos principais pontos turísticos de Abu Dhabi, a majestosa “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo. Despreparado, chego de bermuda. Preciso colocar um roupão branco para poder entrar no prédio. Como traços europeus passam longe da minha aparência, acho que vou ser facilmente confundido com um árabe. O disfarce não durou muito tempo.
“É brasileiro?”, diz a voz, num carregado sotaque carioca, ecoando no interior da mesquita. Me viro e vejo uma jovem senhora vestindo a burca preta conforme os seguranças obrigam as mulheres que queiram entrar na igreja muçulmana. Começa o bate-papo. “Que bom ouvir o nosso bom português em terras estrangeiras”, penso.
Solange Barros tem 57 anos. Desde 2006 largou o Rio de Janeiro para morar nos Emirados Árabes. Ela sentiu o impacto da mudança, mas não se arrependeu. “Meu marido era piloto da Varig. E viemos para cá porque ele começou a trabalhar na Emirates Airlines [uma das maiores empresas aéreas do mundo]. Só aqui conseguimos a tão sonhada estabilidade financeira”, conta. Enquanto o marido sobrevoa, a carioca ocupa os dias como guia turística. E era justamente isso que ela estava fazendo na mesquita: apresentando o lugar a um casal de visitantes. Mesmo assim, não se fez de rogada para conceder uma “conversa-entrevista”.
Só um dos dois filhos de Solange veio para Abu Dhabi, o caçula. O outro, já com 35 anos, continua em terras brasileiras. Ela se diz ainda mais tranquila por trazer o filho de 16 anos para morar numa cidade completamente oposta ao Rio de Janeiro. “O maior impacto que senti desde que cheguei aqui foi a questão da segurança, que é máxima em qualquer horário. Você sabe que pode deixar um objeto destrancado, andar tranquilamente com uma joia cara ou até mesmo deixar o vidro do carro aberto. Aqui ninguém vai te roubar. Agora experimenta fazer isso no Brasil”, provoca.
A guia turística garante que as condições de vida estão melhores para ela e para a família. “O salário não é dos maiores, mas o pacote vale a pena. Você tem todo tipo de assistência. Além de mim, existem pelo menos mais 100 famílias de pilotos brasileiros vivendo aqui”, comenta Solange. Ela diz que há demanda: são 17 vôos diários com destino aos Emirados Árabes e na semana que vem a Emirates lança mais uma conexão, justamente para o Rio de Janeiro. E Solange vai estar entre as primeiras a embarcar. Vem para o Brasil matar a saudade dos que ficaram para trás.
Na mesquita, ela usa a burca preta, mas não por ter se rendido às tradições locais. Apenas por ser obrigatório para as visitantes. Apesar de parecer óbvio a rejeição às mulheres estrangeiras que se instalam no território das árabes, Solange nunca se sentiu desrespeitada. “Nós somos a maioria. Os nativos são minoria, representam apenas 11% da população. Bem menos que os indianos, que são 40%”, exemplifica.

Foto: Gabriela Bepler

Mão de obra estrangeira
Essa desproporcionalidade na população destacada por Solange é facilmente visível. Chama a atenção de quem passa por Abu Dhabi: nativos não trabalham na prestação de serviços. Enquanto os árabes esbanjam os bens adquiridos com o petróleo e transbordam a empáfia típica de milionários emergentes, imigrantes fazem o trabalho braçal.
De todas as vezes que entrei num táxi, nunca o motorista era nativo – um era do Paquistão, deixou a família lá e veio tentar juntar dinheiro, mas ainda não conseguiu trazer a mulher e filhos para Abu Dhabi; outro era de Bangladesh, e pouco descubro, pois ele é dos que prefere dirigir calado; um terceiro, de Filipinas, com inglês não tão treinado ao ponto de me contar o motivo que o trouxe para a capital dos Emirados. E o exemplo dos táxis vale para garçons, vendedores, operários... No trabalho percebe-se muitos orientais de olhos puxados e praticamente nenhum de burca. As nativas parecem ter apenas duas tarefas: se dedicarem aos maridos e se exibirem da forma menos provável, escondidas atrás de metros de pano.

CENSURA
Segurança proíbe fotografia de mulher sem burca no lado de fora da mesquita

Foto: Diego Gomes

Mulheres não precisam estar dentro do templo islã para serem obrigadas a seguir as tradições. Mesmo do lado de fora, não pode fotografá-las caso estejam vestindo “roupas ocidentais”. A mesquita só pode dividir o mesmo espaço na foto com uma mulher caso ela esteja com a veste negra escondendo até o último fiapo de cabelo.
E eu sabia disso. Confesso. Mesmo assim, atendo ao pedido de uma jornalista que visitava a “Sheikh Zayed Mosque”. Ela senta na beira de uma espécie de piscina, na frente da mesquita, e me pede para bater uma foto. Minha missão é ser discreto. Não posso deixar que os seguranças (que não são poucos!) percebam que estava burlando a regra. Ninguém parecia estar me olhando. Ela sorri, eu clico. Imagem capturada. Finjo que nada aconteceu, mas não vou muito longe.
Mal dei três passos e ouço, num inglês carregado, os gritos de “por favor, senhor!”. Paro e ouço o que o segurança, que vem apressado em minha direção, tem a falar. “Posso ver a última foto?”, me questiona fazendo cara de poucos amigos. Não me deixa saída. Mostro a última imagem da câmera e lá está o registro de uma mulher, de calça jeans e camiseta, posando sorridente na frente da mesquita. Prevejo o problema, mas não dimensiono as conseqüências.
Olhando para a foto, o árabe – tão franzino quanto eu – ordena que eu a apague. Nem penso em contrariá-lo. Não queria saber qual seria a outra opção, caso eu ignorasse a ordem. Apago. Ele acompanha cada botão que eu aperto e olha pelo monitor da câmera até a foto se dissipar. E me dá as costas. Depois percebo que, mesmo de longe, o mesmo segurança vigia cada passo meu ao redor da mesquita. Até que vou embora. Continuo meu passeio turístico e as belezas da cidade me fazem esquecer da situação constrangedora.


Reportagem publicada no jornal DIARINHO em 16 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE ABU DHABI


Os primeiros dias de um repórter na fascinante capital dos Emirados Árabes

Por Cláudio Eduardo

Foto na "Sheikh Zayed Mosque", em Abu Dhabi. Crédito: Gabriela Bepler

 
O cansaço da viagem longa e da troca de fuso ainda não foi superado. Faz quatro dias que saí de Itajaí – sendo que dois ficaram enterrados entre espera em aeroporto e vôos que pareciam eternos. Perco o maior tempo no trajeto entre Florianópolis e Doha, capital do Qatar, cruzando o continente africano depois de deixar para trás o oceano Atlântico e, por fim, sobrevoando o Oriente Médio após a travessia aérea sobre o lendário Mar Vermelho.
O relógio enlouquece. Eu não. Depois de instalado em Abu Dhabi, começa a peregrinação. O sono não vem, a fome se foi, mas nada disso aplaca a vontade de conhecer cada canto possível da capital dos Emirados Árabes. No primeiro dia em que estou na cidade, parto para a vila da regata Volvo Ocean Race. No caminho, um mundaréu de prédios inacreditavelmente arrojados. Mas as edificações mais antigas permanecem preservadas entre as novas construções. Não há como recusar uma foto. Só olhar é pouco. Tudo vira cartão-postal nos meus olhos, então preciso registrar.
E com essa curiosidade típica de qualquer jornalista, somado ao espírito de turista que me permito nessa viagem (tão longa!), desbravo os principais pontos turísticos de Abu Dhabi. Dentre as tantas construções, a “Sheikh Zayed Mosque” – uma das maiores mesquitas do mundo e a mais importante da capital árabe – enche meus olhos... E a memória da minha câmera. Registro cada passo. E toda essa experiência está sendo cautelosamente armazenada para servir de material para a reportagem especial que sai na segunda-feira, nas páginas do DIARINHO, agora mais internacionais do que nunca.

(Texto publicado no jornal DIARINHO em 13/01/2012)